Ministro argentino da economia é o mais forte que país teve em uma década
Simon Romero e Jonathan Gilbert - NYTXinhua/Carlos Brigo/Telam

Axel Kicillof é um acadêmico com costeletas ao estilo rockabilly e uma aversão a ternos
Enquanto a Argentina absorve uma queda acentuada em sua moeda, o jovem ministro mercurial da economia da presidente Cristina Fernández de Kirchner, Axel Kicillof, um acadêmico com costeletas ao estilo rockabilly e uma aversão a ternos, está emergindo como a face das mudanças políticas que estão gerando tremores nos mercados financeiros ao redor do mundo em desenvolvimento.
Kicillof, 42, está exercendo maior influência sobre um conjunto de áreas, desde a indústria petrolífera da Argentina até as tentativas do governo de diminuir a fuga de capitais e melhorar as relações com os credores internacionais, enquanto Kirchner continua em grande parte ausente dos olhos do público depois de passar por uma cirurgia em outubro para drenar um coágulo de sangue próximo ao cérebro.
A ascensão de Kicillof, cujos artigos usam conceitos marxistas para interpretar a obra do economista britânico John Maynard Keynes, aponta para os esforços das autoridades em fazer valer um maior controle estatal sobre a economia da Argentina em um momento em que o crescimento está caindo significativamente e a inflação está subindo.
"Ele é o ministro da economia mais forte que a Argentina teve em uma década", disse Ezequiel Burgos, autor de "El Creyente", um livro sobre Kicillof. "Ele é confrontador, autoconfiante e às vezes parece arrogante, o que naturalmente faz com que ele se destaque em um momento como este".
Antes de assessorar Kirchner em questões econômicas, Kicillof ensinava economia na Universidade de Buenos Aires. Ele ganhou destaque como secretário em 2012, quando dirigiu a nacionalização da YPF, a companhia petrolífera argentina então controlada pela Repsol, a gigante de energia espanhola.
Ele justificou repetidamente a tomada da YPF, que a Repsol havia adquirido em 1999, em críticas afiadas às políticas econômicas da Argentina na década de 1990, de fixar a moeda ao dólar e vender os ativos estatais. Em novembro, ao rever a oferta da Argentina para compensar Repsol por sua participação na YPF, ele admitiu que as autoridades já haviam lançado as bases "para a pilhagem das empresas" argentinas.
Quando Kirchner nomeou-o para o cargo de ministro da economia, em novembro, Kicillof foi levado ao centro das atenções.
Paparazzis seguem-no em torno de seu bairro de classe média, Parque Chas, e uma revista de celebridades descreveu o seu estilo de vida relativamente modesto –que é refletido em seu carro, um Renault compacto 2008, e em sua decisão de renunciar à segurança em um período de férias com sua esposa, uma professora de literatura, e seus dois filhos pequenos.
Um colunista da revista "Noticias" chegou até a examinar a psicologia de costeletas de Kicillof, questionando se elas estão associadas à resistência à autoridade do rock 'n' roll ou se fazem parte da moda dos líderes políticos argentinos do século 19, que procuravam mostrar virilidade e poder.
Kicillof demonstrou um dom para o confronto com os críticos. Em uma entrevista publicada no domingo pelo jornal pró-governo "Página 12", ele discorreu contra o que chamou de "campanhas de desinformação" nas redes de mídia social que poderiam desestabilizar o sistema financeiro da Argentina.
"Fenômenos econômicos podem ser mágicos", disse ele, referindo-se as circunstâncias em torno da correria aos bancos. "São profecias que se auto-realizam, resultados de uma mentalidade de rebanho que não tem nenhuma causa real".
Em um país onde a terapia freudiana e as elucubrações estão enraizados na cultura popular, Kicillof, filho de um psiquiatra e uma psicóloga, acusou seus adversários de gerar "psicoses".
Nascido de pais de classe média que valorizavam a realização intelectual, Kicillof cresceu em Recoleta, um bairro elegante de Buenos Aires. Seu pai cometeu suicídio quando Kicillof tinha 22 anos, de acordo com o livro de Burgos. A mãe de Kicillof é uma psicóloga proeminente. Antes de se tornar uma figura do establishment político da Argentina, Kicillof ganhou notoriedade como líder de uma organização estudantil anti-establishment da Universidade de Buenos Aires, onde fez seu doutorado e tornou-se professor palestrante contra as teorias econômicas ortodoxas.
Kicillof também tem fama em algumas indústrias de ser obcecado com números. Depois que começou a pedir planilhas das empresas de petróleo com detalhes de poços, investimentos e produção, os meios de comunicação relataram que os executivos do setor começaram a chamá-lo Excel, como a planilha da Microsoft.
Às vezes criticado por opositores de Kirchner por suas opiniões esquerdistas, ele também provocou uma mudança nas políticas do governo, enquanto a Argentina procura recuperar o acesso aos mercados financeiros globais, após o calote do país em sua dívida externa em 2002, durante uma grave crise econômica.
Por exemplo, com Kicillof no comando do Ministério da Economia, a Argentina iniciou discussões com a Repsol sobre compensação pela tomada de suas ações na YPF. A Argentina também está tentando apaziguar o Fundo Monetário Internacional, que censurou o país em 2013 pela falta de precisão em suas estatísticas econômicas, e corrigiu o índice de inflação no mês seguinte.
Na tentativa de obter um empréstimo de US$ 3 bilhões do Banco Mundial, a Argentina também resolveu, através de órgão de arbitragem do banco, disputas com cinco empresas que reivindicavam um total de mais de US$ 650 milhões. Este mês, Kicillof viajou para a França para discutir com os credores o pagamento da dívida argentina estimada em US$ 10 bilhões.
Mas, enquanto a Argentina tenta impedir uma queda nas reservas internacionais do Banco Central, os críticos de Kicillof também se tornaram mais diretos, argumentando que o ministro ajudou a criar alguns dos problemas que agora está tentando resolver.
Alfonso Prat-Gay, ex-presidente do Banco Central, chamou de "escândalo" a manobra recente de Kicillof, especialmente em relação à queda acentuada do peso e à renovação dos esforços da Argentina para chegar a um acordo com os credores estrangeiros. "Não se resolve as coisas com uma desvalorização, e sim com um programa econômico confiável", disse Prat-Gay a uma rádio local.
Algumas pessoas aqui acham que Kicillof está aquém de sua posição no governo. Héctor Zumárraga, 68, advogado de direitos trabalhistas, disse: "Ele não está à altura do cargo. Ele não entende que saber de teoria econômica não é o suficiente, e estamos vendo a prova disso agora".
Tradução: Deborah Weinberg
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