Nova manobra criativa
O Estado de S.Paulo
Na undécima hora, quando faltavam menos de duas semanas
para o fim do ano, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
resolveu adiar para 2015 a aplicação de bandeiras tarifárias nas contas
de luz, medida que deveria entrar em vigor em 1.º de janeiro de 2014.
Pelo sistema previsto, as contas passariam a exibir uma bandeira
impressa em cor verde se os custos das distribuidoras de eletricidade
fossem os normais (abaixo de R$ 200 por MWh), sem recurso à energia
gerada por termoelétricas. A bandeira passaria a ser amarela toda vez
que o custo de operação ficasse entre R$ 200 por MWh e R$ 350 por MWh e
seria vermelha se superasse essa última marca. A explicação da agência
reguladora é de que os consumidores não foram suficientemente informados
e algumas distribuidoras não se prepararam no prazo previsto para
implantação do sinal de alerta de aumento da conta de luz. O mercado não
se deixou enganar por essa balela e interpretou a decisão como mais uma
daquelas manobras que o governo tem utilizado para represar a inflação.
Na realidade, o governo teme que, se o sistema de bandeiras
tarifárias fosse implantado já em janeiro, poderia contribuir para um
repique inflacionário no início do ano, o que transmitiria uma imagem
negativa para ele, com repercussões nos meses seguintes - quando as
eleições estarão ainda próximas. Com os reservatórios de hidrelétricas
em baixa neste verão em algumas regiões, notadamente no Nordeste, dá-se
como certo que haverá um custo adicional para as distribuidoras. Se o
sistema entrasse em vigor, levaria à impressão de bandeiras amarela ou
vermelha nas contas, uma vez que um número maior de termoelétricas teria
de ser ligado para suplementar a geração hidrelétrica, e as contas
subiriam.
Há mesmo quem calcule que o governo fará tudo o que puder - e a
suspensão das bandeiras é parte desse esforço - para evitar que a taxa
de inflação medida pelo IPCA em janeiro de 2014 não supere 0,86%, taxa
registrada no mesmo mês de 2013. O adiamento do uso de bandeiras
possibilitaria um "alívio" calculado em 0,13%, o que seria de grande
utilidade para evitar que a inflação de janeiro atinja 1%, o que seria
considerado um desastre.
Como em toda medida relativa a preços administrados, há quem ganhe e
quem perca. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan)
considerou a medida positiva. Em nota, afirmou que "o prazo estava muito
apertado para as indústrias se adaptarem ao novo mecanismo de
cobrança". A entidade lembrou que, em setembro, já havia alertado de que
o sistema elevaria o custo de energia a "patamares preocupantes".
De outra parte, perdem as distribuidoras de eletricidade, que só
conseguem repassar sua elevação de custos nas datas anuais de reajuste
de tarifas. O sistema de bandeiras permitiria que repassassem
imediatamente o eventual ônus com o uso maior de termoeletricidade. Com o
novo mecanismo preconizado pela Aneel, e agora adiado, poderiam
equilibrar mensalmente suas receitas com os custos mais pesados que
teriam de arcar, como assinala a Associação Brasileira de Distribuidores
de Energia Elétrica (Abradee).
Isso, naturalmente, geraria uma nova disputa no campo energético, que
caberia ao governo arbitrar, em meio a tantas desavenças que têm
caracterizado a relação entre o setor elétrico e o Planalto. Não se pode
deixar de lembrar, porém, que, sendo 2014 um ano eleitoral, não convêm
aos interesses do PT e de partidos aliados que as contas de luz pagas
pelos consumidores - não só os industriais e comerciais, mas
principalmente os residenciais - subam demais, especialmente em regiões
em que o recurso à energia termoelétrica é mais frequente, como o
Nordeste - justamente onde o PT é mais forte.
A solução pode ser a concessão de subsídios às distribuidoras, à
custa do Tesouro Nacional. Isso significa mais um elemento de pressão
sobre a política fiscal. Ou seja, os custos adicionais das
distribuidoras nesta época do ano acabarão sendo pagos por todos os
contribuintes e não deixarão de influir a médio prazo sobre a inflação,
que tem no desequilíbrio fiscal uma de suas causas básicas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.