O que o sábado mostrou
O Estado de S.Paulo
Foi como se junho de 2013 não tivesse existido, os black
blocs fossem um bloco carnavalesco e o Brasil, um gigante adormecido. O
que se passou sábado em São Paulo, na esteira de uma manifestação
contra a realização da Copa, que reuniu algo como 1.500 pessoas, deu em
quebra-quebra e acabou com um ativista baleado, é uma demonstração
desoladora do despreparo da Polícia Militar (PM). A Força se revelou
novamente incapaz de prevenir e reprimir o vandalismo sem transformar os
agressores em vítimas, estimulando novas violências neste país pontuado
por focos de incêndios sociais. Em regra, o que ocorre hoje em São
Paulo tende a ocorrer amanhã em outras grandes cidades.
A PM paulista está longe de ser uma exceção. Das suas congêneres
também se pode dizer que não aprenderam a preservar a paz pública com um
mínimo de inteligência e doses de energia calibradas a cada caso. Nem
se esqueceram de sua entranhada tradição de truculência, o que, aliás, é
indispensável para se entender as suas limitações profissionais. Mesmo
assim, é inconcebível que a mais bem adestrada e equipada das Polícias
Militares brasileiras, como consta que seja, ainda se deixe apanhar como
que de surpresa pela ação dos grupos fascistoides que se imaginam a
verdadeira esquerda, misturados aos que se comprazem patologicamente com
a destruição pela destruição.
Transcorridos sete meses de protestos seguidos ou, em diversos
locais, acompanhados de depredação de patrimônio público e privado, é de
perguntar, com sentimento de perplexidade, o que foi que a PM, de cujo
organograma faz parte um serviço de informações, conseguiu saber sobre
os black blocs, infiltrando-se entre eles ou recorrendo a outras
modalidades de coleta de dados. Sem isso, não há como antecipar os seus
atos e neutralizar os seus prováveis perpetradores. Nas ruas os agentes
os fotografam com câmeras de alta definição; nas delegacias, eles são
identificados e fichados antes de serem postos em liberdade. E daí? De
que isso servirá na próxima ocasião?
A sequência dos acontecimentos do sábado foi uma réplica do padrão de
junho. Pessoas se reúnem e saem em passeata para propagar as palavras
de ordem da vez. Quando, enfim, começam a se dispersar, os encapuzados
entram em ação. Mas houve uma agravante: antes até da manifestação, os
black blocs deram uma insolente exibição de força, formando uma falange
diante da barreira de soldados. Quando, tendo saído da avenida Paulista e
descido a Brigadeiro Luís Antonio, o protesto chegou ao centro velho,
os blocs repetiram o que fazem com gosto e naturalidade: incendiar ou
quebrar agências bancárias, lojas e veículos. Tudo conforme o conhecido
manual que a PM tinha a obrigação de impedir que fosse posto em prática.
A tropa pelo menos fez uma coisa certa - e importante. Impediu que o
bando chegasse à Praça da República, onde se realizava um concorrido
show pelo 460.º aniversário da cidade. Depois, deteve cerca de 130
blocs, confinou-os em um hotel de onde foram levados a uma delegacia.
Tudo parecia ter acabado quando sobreveio o pior. No bairro de
Higienópolis, um desgarrado manifestante de 22 anos, em cuja mochila os
PMs encontraram explosivos, tentou fugir. Acossado, ele os teria
ameaçado com um estilete. Foi baleado no tórax e na virilha - como se
não houvesse outra forma de contê-lo. Os próprios policiais,
contrariando recomendação da Secretaria da Segurança, levaram-no a um
hospital.
O jovem, Fabrício Proteus Nunes Fonseca Mendonça Chaves, passou por
quatro cirurgias e o seu estado continuava grave ontem. É, desde já, o
mártir que faltava aos radicais - para conquistar a solidariedade,
quando não a adesão, dos que guardam distância de seus métodos. Diante
do desempenho da PM, se o governo do Estado não tomar o pião na unha - o
que não parece disposto a fazer -, pode a presidente Dilma Rousseff
reunir quantas vezes queira o gabinete de crise que montou no Planalto
para impedir que a violência se aproprie das ruas a pretexto da Copa. O
Brasil é uma Federação, e recorrer ao Exército é impensável.
Temos todos, e não apenas os paulistas, fortes motivos de inquietação
com o que pode vir por aí e com o que se conta para que não venha.
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