domingo, 23 de fevereiro de 2014

Se as Olimpíadas se estabelecerem em um lugar permanente, que seja a Grécia
Nikos Konstandaras
EFE/EPA/ORESTIS PANAGIOTOUA atriz grega, Ino Menegaki, segura a chama olímpica durante a cerimônia ocorrida na GréciaA atriz grega, Ino Menegaki, segura a chama olímpica durante a cerimônia ocorrida na Grécia
Um acontecimento muito popular e comum tanto às Olimpíadas de Verão quanto às de Inverno é o debate sobre se o atual anfitrião está à altura da tarefa ou se talvez os jogos deveriam encontrar um lar permanente. A discussão acontece desde que as Olimpíadas foram ressuscitadas em Atenas em 1896; e as seguiu até Sochi, Rússia, e provavelmente continuará no Rio de Janeiro – retornando a cada dois anos, até que, depois de suas viagens pelo mundo, os Jogos finalmente se estabeleçam em algum lugar.
Em seu lugar original, um santuário verdejante a Zeus na Península do Peloponeso, as Olimpíadas ficaram quase 1.200 anos (de 776 a.C. a 393 d.C.). O motivo de sua criação está perdido em mito e mistério. Mas seu propósito era claro: reunir os melhores atletas das cidades-estado gregas, fazê-los competir dentro de uma estrutura rígida com o objetivo de garantir a justiça, e distingui-los de todos os outros povos, que eram excluídos. Até a conquista romana, apenas homens gregos podiam participar das Olimpíadas. Os Jogos eram ferozmente competitivos, e os vencedores e suas cidades tripudiavam sobre os rivais humilhados.
Nas Olimpíadas modernas, a unidade global é o objetivo. Em Londres em 2012, participaram cerca de 10.500 atletas de 204 comitês nacionais olímpicos. De fato, os Jogos são tão inclusivos que há mais 11 equipes nacionais competindo do que o número de países que fazem parte da ONU. Os românticos que trabalharam para ressuscitar os Jogos não poderiam ter previsto que os eventos em Atenas em 1896 – quando 241 atletas de 14 países participaram e os gregos conquistaram a maioria das medalhas – cresceriam tanto para se tornar a maior celebração de interação humana, esporte e espetáculo.
Fraudes, comercialização excessiva, corrupção, desperdício, ameaças terroristas e repressão do estado nos países anfitriões afetaram o ideal, mas nenhum outro evento pacífico reúne tantas pessoas de todo o mundo num propósito que é tanto universal quanto unicamente pessoal – tentar ser o melhor. Imagine se não houvesse esse conceito, nenhum encontro da humanidade numa competição pacífica, se os anos não fossem pontuados pelo entusiasmo desses encontros regulares.
O aristocrata francês Pierre de Coubertin, que foi essencial para reavivar as Olimpíadas, queria que houvesse um rodízio entre as cidades do mundo. Os anfitriões gregos dos jogos de Atenas em 1896, que também tiveram um grande papel na volta dos Jogos, queriam que eles ficassem na Grécia. Depois que a segunda e terceira Olimpíadas, em Paris (1900) e St. Louis (1904), não despertaram muito entusiasmo do público nas cidades anfitriãs, a capital grega recebeu jogos olímpicos "intermediários" em 1906; embora bem sucedidos e amplamente considerados responsáveis por dar novo ímpeto aos Jogos, eles não foram incluídos na história oficial do Comitê Internacional Olímpico. Desde então, os jogos se estabeleceram e as cidades que se candidataram se esforçaram nas campanhas para recebê-los. E o debate sobre um lar permanente continua retornando.
O nebuloso processo de seleção de cidades anfitriãs, os gastos exorbitantes que invariavelmente deixam uma dívida imensa, o deslocamento de moradores locais em esquemas de construção grandiosos, questões de segurança, preparações de última hora e dúvidas quanto ao histórico de direitos humanos e exploração política de alguns anfitriões dos Jogos são uma preocupação constante para quem zela pelos jogos. A propaganda racista dos nazistas nos Jogos de Berlim em 1936, as mortes de 11 atletas israelenses e técnicos numa crise terrorista com reféns em Munique em 1972 e os boicotes olho por olho entre os países ocidentais e o bloco soviético em Moscou em 1980 e Los Angeles em 1984 são as manchas mais escuras na história olímpica moderna e bons argumentos para manter viva a ideia de uma sede permanente.
Em 1976, o governo grego havia aprovado um plano para oferecer terras próximo à antiga Olímpia para uma sede permanente dos Jogos. Em 1984, o Senado dos Estados Unidos aprovou uma resolução expressando "a percepção do Congresso de que o Comitê Olímpico Internacional deveria estabelecer uma estrutura permanente para as Olimpíadas num local que isole os Jogos da política internacional". Mas ela nunca foi aprovada, e sediar as Olimpíadas se tornou a ambição de muitos países que querem mostrar quem são e o que podem fazer. Os Jogos também são vistos como uma oportunidade para crescer através do investimento em infraestrutura. O fato de que a maioria das cidades-sede (como Atenas) são deixadas com estruturas sem uso e com dívidas imensas parece escapar à maioria dos candidatos, à medida que consideram apenas os benefícios do desenvolvimento e de estar no centro da atenção mundial.
Como hoje a Vila Olímpica é uma Vila Global, o local em certa medida é irrelevante. Temos acesso o ano topo aos aspirantes e heróis olímpicos, aos vilões e às controvérsias, ao drama que vende histórias e produtos: o que importa é o acesso dos atletas e suas histórias. Nesse contexto, são as cerimônias de abertura e encerramento que se tornam a característica mais distinta fornecida pelo país sede.
Então que os Jogos continuem, de cidade em cidade, enquanto houver países dispostos a recebê-los. Quando, e se, chegar o dia em que eles se estabeleçam num lugar permanente, nada seria mais adequado do que voltar ao canto do mundo no qual eles floresceram por mais de mil anos. Então, as nações poderiam competir pela honra de realizar as cerimônias de abertura e fechamento – na Grécia – que mostrarão ao mundo quem eles são e o que podem fazer. Dessa forma, as Olimpíadas continuarão como um palco para toda a humanidade, permitindo que as nações, como seus atletas, compitam como iguais pela chance de mostrar sua diferença.
(Nikos Konstandaras é editor administrativo e colunista do jornal Kathimerini.)
Tradução: Eloise De Vylder

Nenhum comentário: