Melissa Eddy - NYT
Um pomar de mudas de macieira cresce
protegido do vento pelo celeiro de Ulrich Schultz. Ele diz que não
plantou as mudas por causa das frutas, mas como uma ato de rebeldia
contra uma companhia de mineração da região que quer arrasar sua
fazenda, que pertence à família de Schultz desde 1560, para extrair o
carvão que está debaixo de suas terras.
"Uma homenagem a Martinho Lutero", disse Schultz, 53, apontando para as duas fileiras de árvores espichadas. "Ele disse que se soubesse que o mundo estava prestes a acabar, plantaria uma macieira."
Pode não ser o fim do mundo, mas pode ser o fim de Atterwasch, com 241 habitantes. Enquanto a chanceler Angela Merkel prometeu ao país um futuro praticamente livre de combustíveis fósseis, pode parecer estranho que este vilarejo no leste da Alemanha, e dois outros vizinhos, ainda estejam lutando contra os planos de varrê-los, literalmente, do mapa.
Mas a repentina sede de carvão da Alemanha surgiu como o lado sujo das ambições de Merkel de fechar as usinas nucleares do país até 2022 e eventualmente fazer uma transição principalmente para as energias renováveis. De fato, no ano passado a Alemanha queimou mais carvão do que em qualquer outro momento desde que as fábricas da era comunista começaram a fechar em 1990, de acordo com a AG Energiebilanzen, uma associação que acompanha o consumo de energia.
O problema é que há dias em que o vento não sopra e as nuvens cobrem o céu. Com oito reatores nucleares fechados desde 2011 e o impulso para a energia renovável ainda nos primórdios, o país precisa de uma ponte para suprir as falhas no fornecimento. Isso só aumentou a fome de carvão dos alemães, mesmo enquanto sua dieta energética deveria estar mudando.
Para Schulz e seus vizinhos, a batalha para salvar Atterwasch se assemelha a não querer ser a última morte de uma guerra perdida, numa região em que 25 mil pessoas já foram desalojadas por minas ao longo dos anos.
"Ninguém quer ser o último", disse Schulz, contemplando o verde brilhante de uma plantação jovem de centeio num dia ameno de inverno.
Eckhard Schulz, irmão de Ulrich, disse que ficou chocado com isso recentemente, enquanto dava uma volta na mina aberta de Jânschwalde, na vizinhança, com seu futuro genro, um paisagista contratado para projetos de recuperação de terras pela Vattenfall, companhia que administra a mina.
Eles encontraram uma pequena placa no local onde durante séculos esteve a igreja do vilarejo de Horno. Até 2003. Foi quando Horno se tornou o mais recente dos 136 vilarejos engolidos pelas minas abertas da região de Lusácia desde 1924, de acordo com o Arquivo de Lugares Perdidos, um centro de documentação local sobre os vilarejos desalojados.
"Eu parei e percebi que no futuro, aquilo poderia acontecer com nossa igreja", disse Eckhard Schulz, que ajuda a cuidar dos três sinos da torre da igreja medieval de Atterwasch. O sino mais antigo, diz ele, foi pendurado em 1460, antes que Colombo chegasse à América. "De repente, quis voltar. Não queria mais ver nada."
Para a Vattenfall, a transição da Alemanha para a energia limpa, paradoxalmente, acarretou uma expansão inesperada.
"Com certeza sentimos o impacto da transformação energética nos últimos três anos", disse Thoralf Schirmer, porta-voz da Vattenfall, que é dona de cinco minas abertas de extração de lignita, ou carvão marrom, no leste da Alemanha. A companhia está requisitando ao governo a expansão de três dessas minas.
"Tivemos um aumento da demanda por lignita desde que a Alemanha decidiu reduzir a energia nuclear, porque é necessária outra fonte de energia para suprir a demanda, e essa fonte é a lignita", disse Schirmer. "É barata, abundante e fácil de extrair."
Fácil o bastante, mas não se as pessoas de Atterwasch tiverem voz. Vattenfall diz que trata a desapropriação com seriedade e buscou começar a falar com os moradores sobre o processo.
"Uma casa por uma casa, uma escola por uma escola, uma igreja por uma igreja", disse Schirmer. "Os vizinhos continuarão juntos; a estrutura do novo vilarejo deve lembrar a do antigo."
Mas os moradores não estão interessados, disse Christian Huschga, 43, roteirista que se mudou para Atterwasch quando era criança e agora cria seus dois filhos no local.
"Não estamos interessados em conversar, porque no minuto em que nos abrirmos para o diálogo, isso faz com que pareça que estamos interessados em nos mudar, e não estamos."
"Queremos ficar aqui porque não achamos que será necessário, que não precisaremos extrair carvão marrom da terra daqui a 20 a 40 anos, quando já queremos parar de usar combustíveis fósseis. Achamos isso esquizofrênico."
A perspectiva da desapropriação mexe com as emoções das pessoas. Uma faixa declarando "Atterwasch fica!" está pendurada no prédio dos bombeiros, e um "X" amarelo-vivo, símbolo local de resistência, decora a igreja do vilarejo, um ponto de encontro para protestos e vigílias à luz de velas.
Por enquanto, a sobrevivência do vilarejo se tornou uma questão de persistência, do que durará mais tempo, a determinação de moradores como os Schuz ou o apetite da Alemanha por carvão.
A Alemanha derramou bilhões na expansão da energia limpa, e o governo prevê que a transição possa custar até 550 bilhões de euros (US$ 757 bilhões) antes de chegar ao fim. Até agora, as fontes de energia renovável se expandiram para 23% do fornecimento do país. Mas o objetivo – 80% de renováveis até 2050 – ainda está muito distante.
Por enquanto, os irmãos Schulz nem mesmo discutirão a desapropriação, escolhendo em vez disso se concentrar em lutar para preservar seu vilarejo.
"Ainda estamos convencidos de que conseguiremos envelhecer aqui, de que continuaremos a viver e trabalhar aqui", disse Ulrich Schulz. "Mas ninguém pode dizer isso com certeza."
Tradução: Eloise De Vylder
"Uma homenagem a Martinho Lutero", disse Schultz, 53, apontando para as duas fileiras de árvores espichadas. "Ele disse que se soubesse que o mundo estava prestes a acabar, plantaria uma macieira."
Pode não ser o fim do mundo, mas pode ser o fim de Atterwasch, com 241 habitantes. Enquanto a chanceler Angela Merkel prometeu ao país um futuro praticamente livre de combustíveis fósseis, pode parecer estranho que este vilarejo no leste da Alemanha, e dois outros vizinhos, ainda estejam lutando contra os planos de varrê-los, literalmente, do mapa.
Mas a repentina sede de carvão da Alemanha surgiu como o lado sujo das ambições de Merkel de fechar as usinas nucleares do país até 2022 e eventualmente fazer uma transição principalmente para as energias renováveis. De fato, no ano passado a Alemanha queimou mais carvão do que em qualquer outro momento desde que as fábricas da era comunista começaram a fechar em 1990, de acordo com a AG Energiebilanzen, uma associação que acompanha o consumo de energia.
O problema é que há dias em que o vento não sopra e as nuvens cobrem o céu. Com oito reatores nucleares fechados desde 2011 e o impulso para a energia renovável ainda nos primórdios, o país precisa de uma ponte para suprir as falhas no fornecimento. Isso só aumentou a fome de carvão dos alemães, mesmo enquanto sua dieta energética deveria estar mudando.
Para Schulz e seus vizinhos, a batalha para salvar Atterwasch se assemelha a não querer ser a última morte de uma guerra perdida, numa região em que 25 mil pessoas já foram desalojadas por minas ao longo dos anos.
"Ninguém quer ser o último", disse Schulz, contemplando o verde brilhante de uma plantação jovem de centeio num dia ameno de inverno.
Eckhard Schulz, irmão de Ulrich, disse que ficou chocado com isso recentemente, enquanto dava uma volta na mina aberta de Jânschwalde, na vizinhança, com seu futuro genro, um paisagista contratado para projetos de recuperação de terras pela Vattenfall, companhia que administra a mina.
Eles encontraram uma pequena placa no local onde durante séculos esteve a igreja do vilarejo de Horno. Até 2003. Foi quando Horno se tornou o mais recente dos 136 vilarejos engolidos pelas minas abertas da região de Lusácia desde 1924, de acordo com o Arquivo de Lugares Perdidos, um centro de documentação local sobre os vilarejos desalojados.
"Eu parei e percebi que no futuro, aquilo poderia acontecer com nossa igreja", disse Eckhard Schulz, que ajuda a cuidar dos três sinos da torre da igreja medieval de Atterwasch. O sino mais antigo, diz ele, foi pendurado em 1460, antes que Colombo chegasse à América. "De repente, quis voltar. Não queria mais ver nada."
Para a Vattenfall, a transição da Alemanha para a energia limpa, paradoxalmente, acarretou uma expansão inesperada.
"Com certeza sentimos o impacto da transformação energética nos últimos três anos", disse Thoralf Schirmer, porta-voz da Vattenfall, que é dona de cinco minas abertas de extração de lignita, ou carvão marrom, no leste da Alemanha. A companhia está requisitando ao governo a expansão de três dessas minas.
"Tivemos um aumento da demanda por lignita desde que a Alemanha decidiu reduzir a energia nuclear, porque é necessária outra fonte de energia para suprir a demanda, e essa fonte é a lignita", disse Schirmer. "É barata, abundante e fácil de extrair."
Fácil o bastante, mas não se as pessoas de Atterwasch tiverem voz. Vattenfall diz que trata a desapropriação com seriedade e buscou começar a falar com os moradores sobre o processo.
"Uma casa por uma casa, uma escola por uma escola, uma igreja por uma igreja", disse Schirmer. "Os vizinhos continuarão juntos; a estrutura do novo vilarejo deve lembrar a do antigo."
Mas os moradores não estão interessados, disse Christian Huschga, 43, roteirista que se mudou para Atterwasch quando era criança e agora cria seus dois filhos no local.
"Não estamos interessados em conversar, porque no minuto em que nos abrirmos para o diálogo, isso faz com que pareça que estamos interessados em nos mudar, e não estamos."
"Queremos ficar aqui porque não achamos que será necessário, que não precisaremos extrair carvão marrom da terra daqui a 20 a 40 anos, quando já queremos parar de usar combustíveis fósseis. Achamos isso esquizofrênico."
A perspectiva da desapropriação mexe com as emoções das pessoas. Uma faixa declarando "Atterwasch fica!" está pendurada no prédio dos bombeiros, e um "X" amarelo-vivo, símbolo local de resistência, decora a igreja do vilarejo, um ponto de encontro para protestos e vigílias à luz de velas.
Por enquanto, a sobrevivência do vilarejo se tornou uma questão de persistência, do que durará mais tempo, a determinação de moradores como os Schuz ou o apetite da Alemanha por carvão.
A Alemanha derramou bilhões na expansão da energia limpa, e o governo prevê que a transição possa custar até 550 bilhões de euros (US$ 757 bilhões) antes de chegar ao fim. Até agora, as fontes de energia renovável se expandiram para 23% do fornecimento do país. Mas o objetivo – 80% de renováveis até 2050 – ainda está muito distante.
Por enquanto, os irmãos Schulz nem mesmo discutirão a desapropriação, escolhendo em vez disso se concentrar em lutar para preservar seu vilarejo.
"Ainda estamos convencidos de que conseguiremos envelhecer aqui, de que continuaremos a viver e trabalhar aqui", disse Ulrich Schulz. "Mas ninguém pode dizer isso com certeza."
Tradução: Eloise De Vylder
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