Caos maravilha
Mario Cesar Flores - O Estado de S.Paulo
De 35 milhões de brasileiros nos anos 1930 chegamos a
200 milhões no início do século 21 - aumento grande e fundamentalmente
urbano: nossas cidades "explodiram". Essa imensa população urbana
deveria ter sua mobilidade bem atendida por transporte coletivo, mas
isso não ocorreu: não construímos em tempo oportuno metrôs, linhas
ferroviárias e escoamento rodoviário compatíveis com a demanda.
Simultânea à desatenção ao transporte coletivo ocorria a atenção
enfática à indústria automobilística, que realmente incentivou a
economia e o emprego. Mas sua dinâmica expansiva, estimulada pelo
crédito alucinógeno, pela propaganda que associa carro a pertencer à
vida moderna e, é claro, pela insatisfação com o transporte coletivo,
induziu uma distorção no caráter coletivo brasileiro: o encanto
obsessivo pelo carro.
A associação da precariedade do transporte coletivo com a obsessão
pelo carro vem resultando dramática: dezenas, centenas de milhares de
carros (milhões em São Paulo e no Rio) congestionam as ruas das cidades e
até rodovias intermunicipais e interestaduais, dois ou três carros com
duas ou três pessoas, otimisticamente cinco ou seis, ocupando o espaço
que corresponde ao de um ônibus com 40 passageiros.
Um parêntesis: nossa imprevidência não se limitou ao transporte
coletivo urbano: vivemos à mesma época o ocaso da cabotagem, a redução
da malha ferroviária e o correlato aumento do uso do caminhão - cem
caminhões transportando por estradas saturadas o que transporta um
pequeno navio de 2 mil toneladas. Parêntesis fechado.
Os congestionamentos urbanos, há muito tempo rotineiros, estão sendo
agravados hoje por constrangimentos ao tráfego decorrentes de obras
pretendidas como soluções, algumas lógicas, tardias e já emergenciais,
outras apenas paliativas ou até mesmo de discutível prioridade e
oportunidade, justificadas como atendendo à aprazibilidade da (futura)
vida local e à boa aparência. Exemplo maior, em curso no Rio de Janeiro:
o macroprojeto do "porto maravilha", cujo início vem exponenciando o
caos na região central da cidade.
A derrubada do elevado perimetral, que desafogava o centro do Rio,
antes da construção de alternativa de efetividade ao menos similar,
merece avaliação criteriosa. É razoável impor o calvário diário a
centenas de milhares de cariocas, em proveito de uma futura
aprazibilidade local e, argumento curioso em face da realidade sofrida a
que o povo está sendo submetido, da aparência da região? Alguém se
queixava da má aparência do elevado, admitindo que ela justificaria sua
derrubada e o consequente apocalipse viário?
Esse problemão carioca, de natureza semelhante à dos problemas de
muitas cidades brasileiras, sugere alguns comentários sobre uma questão
presente em todos eles: o excesso de carros e as perspectivas distintas a
esse respeito.
O prefeito carioca, Eduardo Paes, preconiza o não uso do carro no
centro do Rio - e na prática concreta o dificulta, com interdições aos
carros particulares. Recomenda o transporte coletivo, sabidamente
insuficiente, desconfortável e inconfiável, haja vista a frequência de
avarias, acidentes e atrasos. Essa recomendação, desnecessária se o
transporte coletivo fosse satisfatório e atraente, reflete a preocupação
municipal com o trânsito. E nela se insiste simultaneamente à
propaganda e à prática de incentivos - crédito, redução de impostos... -
que alimentam a compra do carro, preocupação federal com a economia, o
emprego e, evidentemente, a receita tributária.
Resumindo a dicotomia: "entre no clima" da época e compre carro, mas
deixe-o em casa e prefira o metrô, o trem e o ônibus, numa demonstração
de cidadania responsável. Ao mesmo tempo que são estimulados a comprar
carro, os cariocas são instados a optar pelo sacrifício no transporte
coletivo de (sejamos condescendentes...) qualidade precária, a ser
compensado no futuro pelas delícias da vida no e pela exuberância
estética do prometido "porto maravilha". São estimulados a assimilar a
sofrida realidade dita temporária em proveito de um paraíso futuro.
O que significa exatamente a temporalidade do sacrifício no nosso melífluo mundo oficial? Vale a pena pensar nisso.
É segura a promessa do paraíso quando continuam sendo emplacadas
dezenas de milhares de carros todo mês e qualquer pequena redução é
vociferada como ameaça à economia e ao emprego? É segura a promessa do
paraíso quando as obras do metrô carioca - e outras que visam à
mobilidade urbana -, atrasadas há decênios, se arrastam no tempo?
Provavelmente se chegará ao fim dos projetos em andamento (linhas de
metrô, novos trens, ruas com seus túneis e viadutos) já em déficit ante a
necessidade crescente.
Complementando: é plausível que, atendendo ao discurso oficial, os
estratos médio e inferior da pirâmide social (para o superior a dúvida
nem sequer vale a pena ser cogitada) aceitem não usar o carro tão
insistentemente propagandeado, tão ansiosamente desejado e
frequentemente adquirido ao custo de endividamento comprometedor do
equilíbrio financeiro pessoal ou familiar, optando com "responsabilidade
cívica" por sofrer no transporte coletivo? Não usar o carro e usar o
precário transporte coletivo raramente é opção pensada: não usa carro
quem não o tem, quem não tem onde estacioná-lo no destino (outra
incógnita da equação) e quem não pode arcar com as despesas de sua
utilização.
Moderar o crescimento do fluxo de carros passa por melhora
convincente do transporte público e pelo autocomedimento do nosso
obsessivo malthusianismo motorizado - carros e, hoje em dia, também
motos -, improvável enquanto o transporte coletivo continuar deficiente e
o carro prosseguir como passaporte para a realização social e motor
relevante da economia.
Cariocas, o jeito é ter paesciência e se conformar com o "caos maravilha".
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