Coral Davenport - NYT
Um novo e abrangente estudo sobre os efeitos das mudanças climáticas – que, segundo o relatório divulgado, já estão prejudicando a vida e o sustento das pessoas mais pobres de todo o planeta – criou um desafio diplomático para o presidente Barack Obama, que pretende transformar as medidas de combate às mudanças climáticas e à desigualdade econômica em marcas registradas de seu legado.
O relatório, publicado esta semana pelo Painel Intergovernamental da
Organização das Nações Unidas (ONU) sobre as Mudanças Climáticas,
concluiu que as pessoas mais pobres do mundo vão sofrer mais com o
aumento das temperaturas do planeta, e que muitas delas já estão lutando
contra a escassez de alimentos e de água, além de enfrentarem uma
incidência mais elevada de doenças e de mortes prematuras e dos
conflitos violentos que resultam de tais problemas.
Países como Bangladesh e várias nações da África subsaariana, que são os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças do clima, afirmam que o relatório reforça sua demanda por "justiça climática" – em outras palavras: dinheiro, e muito – por parte das economias e corporações mais ricas do mundo, que eles culpam pelo problema.
Esses países e organizações não governamentais citam uma promessa feita em 2009 pela então secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Rodham Clinton, de criar um fundo climático anual no valor de US$ 100 bilhões para os países pobres até 2020. O Banco Mundial justificou essa despesa em um relatório divulgado no final de 2010, que concluiu que seriam necessários cerca de US$ 100 bilhões por ano para que os países pobres fossem capazes de adotar medidas para mitigar os estragos das mudanças climáticas.
Especialistas em políticas climáticas dizem que era esperado que os Estados Unidos, no papel de maior economia do mundo, fornecessem entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões para esse fundo anual.
Isso colocaria Obama e o atual secretário de Estado John Kerry – que tem trabalhado de forma agressiva nos bastidores para firmar um tratado sobre as mudanças climáticas no âmbito da ONU até 2015 – em uma posição difícil.
Mas ambos sabem que não há chance de que o congresso norte-americano, que está concentrado em cortar os gastos domésticos e em fazer a economia do país deslanchar à força, promulgue uma legislação concordando com um enorme aumento na ajuda financeira destinada ao combate às mudanças climáticas. Desde 2010, o governo Obama gastou cerca de US$ 2,5 bilhões por ano para ajudar países estrangeiros a se adaptar às mudanças climáticas e adotar a tecnologias energéticas de baixo carbono.
Encorajadas pelo novo relatório da ONU, nações vulneráveis estão exigindo mais, e não menos, dos Estados Unidos.
Ronald Jean Jumeau, o embaixador na ONU da ilha-nação de Seychelles, e porta-voz da Aliança dos Pequenos Estados Insulares, comparou o fundo proposto à quantidade de dinheiro que o congresso dos EUA aprovou após a passagem do furacão Sandy.
"Nós sabemos que US$ 100 bilhões não vão ser suficientes", disse Jumeau. "Depois do furacão Sandy, o congresso norte-americano aprovou US$ 60 bilhões em recursos para a recuperação de Nova York, Nova Jersey e Connecticut – cifra destinada a mitigar apenas uma tempestade. Isso mostra o quanto poderemos fazer com US$ 100 bilhões".
"A ciência está cada vez melhor, e ela nos diz que as coisas estão ficando cada vez piores para nós", acrescentou ele. "E o dinheiro não está chegando até nós".
Está começando a se fechar a janela de oportunidade para que Obama seja capaz de mediar um tratado que poderia reduzir significativamente a poluição gerada pelos gases de efeito estufa a tempo de evitar os efeitos mais desastrosos das mudanças climáticas. Durante o outono deste ano (no Hemisfério Norte, o outono vai de setembro até novembro), na Assembleia Geral das Nações Unidas, os líderes mundiais vão se reunir para colocar na mesa ofertas referentes à assinatura de um pacto sobre as mudanças climáticas – uma mistura de compromissos para reduzir a poluição provocada pelos combustíveis fósseis em seus próprios territórios e para oferecer dinheiro aos países pobres se adaptarem às alterações no clima. Alguns meses depois, durante uma reunião de cúpula de duas semanas a ser realizada em Lima, no Peru, esses líderes vão negociar a proposta de um tratado final, que deverá ser assinado no ano que vem em Paris e entrar em vigor em 2020.
Diplomatas dizem que o novo relatório aumentou a pressão sobre os governos para que um acordo sobre o clima seja fechado.
"Ao ressaltar os impactos e vulnerabilidades, o relatório deixa clara a urgência de medidas firmes para a redução das emissões e a criação de uma maior capacidade de resistência", disse Todd D. Stern, negociador-chefe da área de mudanças climáticas do Departamento de Estado dos EUA.
Em um discurso proferido em Londres no ano passado, Stern deixou claro que não havia nenhuma possibilidade de os Estados Unidos financiarem a maior parte de qualquer fundo de adaptação climática com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos. "A realidade fiscal dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos não vai permitir isso", disse ele.
Stern e outros dizem que a maior parte desse dinheiro terá de vir de investidores privados e de empresas.
Organizações não governamentais dizem que depender principalmente do setor privado não será suficiente, especialmente enquanto diminuem os estoques de alimentos mundiais. "Os cientistas não poderiam ter sido mais claros, em especial em relação à área de segurança alimentar", disse Timothy Gore, analista da Oxfam, organização que combate a pobreza. "Nenhum governo será capaz de se manter de pé por muito tempo se o preço do pão continuar subindo, se eles não conseguirem alimentar suas populações".
"Eu desafio qualquer pessoa do governo norte-americano a explicar como o setor privado vai investir no que é necessário em campo, como o financiamento dos agricultores da região de Sahel, que estão enfrentando a perda de colheitas devido à alteração dos padrões pluviais", disse Gore, referindo-se à região da África localizada ao sul do Deserto do Saara.
Ainda assim, Connie Hedegaard, comissária da União Europeia para medidas relacionadas ao clima, disse esperar que os obstáculos possam ser superados no futuro: "eu acredito que o total de US$ 100 bilhões pode ser alcançado. Ficou acertado em Copenhague que os recursos tinham que vir de uma mistura de dinheiro público e privado. Eu acredito que os grupos vulneráveis – as famílias de Bangladesh ou das Filipinas – não se importam se os dólares doados a eles têm origem pública ou privada".
Tradutor: Cláudia Gonçalves
Países como Bangladesh e várias nações da África subsaariana, que são os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças do clima, afirmam que o relatório reforça sua demanda por "justiça climática" – em outras palavras: dinheiro, e muito – por parte das economias e corporações mais ricas do mundo, que eles culpam pelo problema.
Esses países e organizações não governamentais citam uma promessa feita em 2009 pela então secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Rodham Clinton, de criar um fundo climático anual no valor de US$ 100 bilhões para os países pobres até 2020. O Banco Mundial justificou essa despesa em um relatório divulgado no final de 2010, que concluiu que seriam necessários cerca de US$ 100 bilhões por ano para que os países pobres fossem capazes de adotar medidas para mitigar os estragos das mudanças climáticas.
Especialistas em políticas climáticas dizem que era esperado que os Estados Unidos, no papel de maior economia do mundo, fornecessem entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões para esse fundo anual.
Isso colocaria Obama e o atual secretário de Estado John Kerry – que tem trabalhado de forma agressiva nos bastidores para firmar um tratado sobre as mudanças climáticas no âmbito da ONU até 2015 – em uma posição difícil.
Mas ambos sabem que não há chance de que o congresso norte-americano, que está concentrado em cortar os gastos domésticos e em fazer a economia do país deslanchar à força, promulgue uma legislação concordando com um enorme aumento na ajuda financeira destinada ao combate às mudanças climáticas. Desde 2010, o governo Obama gastou cerca de US$ 2,5 bilhões por ano para ajudar países estrangeiros a se adaptar às mudanças climáticas e adotar a tecnologias energéticas de baixo carbono.
Encorajadas pelo novo relatório da ONU, nações vulneráveis estão exigindo mais, e não menos, dos Estados Unidos.
Ronald Jean Jumeau, o embaixador na ONU da ilha-nação de Seychelles, e porta-voz da Aliança dos Pequenos Estados Insulares, comparou o fundo proposto à quantidade de dinheiro que o congresso dos EUA aprovou após a passagem do furacão Sandy.
"Nós sabemos que US$ 100 bilhões não vão ser suficientes", disse Jumeau. "Depois do furacão Sandy, o congresso norte-americano aprovou US$ 60 bilhões em recursos para a recuperação de Nova York, Nova Jersey e Connecticut – cifra destinada a mitigar apenas uma tempestade. Isso mostra o quanto poderemos fazer com US$ 100 bilhões".
"A ciência está cada vez melhor, e ela nos diz que as coisas estão ficando cada vez piores para nós", acrescentou ele. "E o dinheiro não está chegando até nós".
Está começando a se fechar a janela de oportunidade para que Obama seja capaz de mediar um tratado que poderia reduzir significativamente a poluição gerada pelos gases de efeito estufa a tempo de evitar os efeitos mais desastrosos das mudanças climáticas. Durante o outono deste ano (no Hemisfério Norte, o outono vai de setembro até novembro), na Assembleia Geral das Nações Unidas, os líderes mundiais vão se reunir para colocar na mesa ofertas referentes à assinatura de um pacto sobre as mudanças climáticas – uma mistura de compromissos para reduzir a poluição provocada pelos combustíveis fósseis em seus próprios territórios e para oferecer dinheiro aos países pobres se adaptarem às alterações no clima. Alguns meses depois, durante uma reunião de cúpula de duas semanas a ser realizada em Lima, no Peru, esses líderes vão negociar a proposta de um tratado final, que deverá ser assinado no ano que vem em Paris e entrar em vigor em 2020.
Diplomatas dizem que o novo relatório aumentou a pressão sobre os governos para que um acordo sobre o clima seja fechado.
"Ao ressaltar os impactos e vulnerabilidades, o relatório deixa clara a urgência de medidas firmes para a redução das emissões e a criação de uma maior capacidade de resistência", disse Todd D. Stern, negociador-chefe da área de mudanças climáticas do Departamento de Estado dos EUA.
Em um discurso proferido em Londres no ano passado, Stern deixou claro que não havia nenhuma possibilidade de os Estados Unidos financiarem a maior parte de qualquer fundo de adaptação climática com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos. "A realidade fiscal dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos não vai permitir isso", disse ele.
Stern e outros dizem que a maior parte desse dinheiro terá de vir de investidores privados e de empresas.
Organizações não governamentais dizem que depender principalmente do setor privado não será suficiente, especialmente enquanto diminuem os estoques de alimentos mundiais. "Os cientistas não poderiam ter sido mais claros, em especial em relação à área de segurança alimentar", disse Timothy Gore, analista da Oxfam, organização que combate a pobreza. "Nenhum governo será capaz de se manter de pé por muito tempo se o preço do pão continuar subindo, se eles não conseguirem alimentar suas populações".
"Eu desafio qualquer pessoa do governo norte-americano a explicar como o setor privado vai investir no que é necessário em campo, como o financiamento dos agricultores da região de Sahel, que estão enfrentando a perda de colheitas devido à alteração dos padrões pluviais", disse Gore, referindo-se à região da África localizada ao sul do Deserto do Saara.
Ainda assim, Connie Hedegaard, comissária da União Europeia para medidas relacionadas ao clima, disse esperar que os obstáculos possam ser superados no futuro: "eu acredito que o total de US$ 100 bilhões pode ser alcançado. Ficou acertado em Copenhague que os recursos tinham que vir de uma mistura de dinheiro público e privado. Eu acredito que os grupos vulneráveis – as famílias de Bangladesh ou das Filipinas – não se importam se os dólares doados a eles têm origem pública ou privada".
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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