Farol alto
Marco Aurélio Nogueira
Exceção feita aos temas macroeconômicos, do trabalho e
da renda, a agenda nacional dos próximos anos está destinada a orbitar
três pontos estratégicos: educação, saúde e mobilidade urbana, esta
última abraçada com a segurança pública, as várias dimensões da
infraestrutura e da gestão de cidades.
Além de estar na boca do povo, essa constatação vem sendo reiterada
por diferentes analistas, operadores políticos e técnicos governamentais
de distinta orientação. É de esperar, portanto, que figure em posição
de destaque na plataforma dos candidatos que disputarão a Presidência da
República em 2014.
Daqui para a frente, nenhum governo fará a diferença sem enfrentar
com determinação e criatividade aquele tripé. Seja qual for o partido
que governe, estará obrigado a fornecer respostas efetivas a ele, por
onde passa boa parte do bem-estar da população e do futuro do País.
Isso significa, antes de tudo, que será preciso incrementar a
cooperação entre os entes federados, já que não há como fixar boas
políticas para aquelas áreas se os gestores operarem de forma isolada e
autossuficiente. Políticas públicas continuam a ser políticas de Estado,
e precisamente por isso têm mais chance de sucesso quando as instâncias
por elas responsáveis dialogam entre si e trabalham umas com as outras.
Educação, saúde e transportes não são definidos unilateralmente por
Brasília, mas envolvem e dependem dos governos estaduais e municipais.
A solidão dos gestores também não faz sentido numa época que elogia a
participação e a cidadania ativa. Políticas públicas que não nasçam da
interação com a sociedade civil crescem tortas. Tornam-se pouco
sustentáveis e expostas ao risco da descontinuidade ou da ineficácia.
Ficam, também, mais intransparentes e suscetíveis a desvios e
malversações.
Cooperação, coordenação, transparência e participação social - quanto mais houver disso, maiores as chances de sucesso.
Serão necessárias, também, evidentemente, clareza e consistência na
formulação: uma boa teoria sociológica de base, diretrizes, princípios e
metas - coisas que têm existido entre nós, mas de modo errático. Somos
uma sociedade em que os políticos e os gestores se acostumaram a atuar
com promessas vagas e genéricas, sem rigor técnico, mais preocupados com
dividendos eleitorais e prestígio do que com resultados. É uma cultura
que precisa ser enterrada.
Somada à dimensão orçamentária, com suas oscilações inevitáveis, a
ausência de boas formulações técnico-políticas produz impacto
catastrófico na qualidade do que se faz, comprometendo o desempenho
governamental e prejudicando a população. Há dotações, parâmetros
orçamentários, obrigações constitucionais, há boa vontade dos gestores e
empenho de parlamentares atentos ao estado geral da Nação. Mas tudo
parece insuficiente, seja porque sempre faltam recursos, seja porque se
gasta mal.
É impossível detalhar, aqui, cada um destes pontos. Mas é possível
destacar os vetores que os articulam, aquilo que poderia mudar a
situação e representar um expressivo ganho de escala no enfrentamento da
agenda estratégica.
O principal desses vetores está no campo político. Ele é o que pode
produzir mudança e garantir avanços. E é, também, onde estão os maiores
obstáculos. O sistema político não ajuda, os partidos falham em suas
funções, os representantes são, na maioria, pouco preparados para
interagir com a complexidade adquirida pela vida social. Tudo isso
arrasta consigo os governos e a gestão pública.
Faltam ações focadas na construção de uma agenda nacional, de um
projeto de sociedade. Todos apontam para a relevância da saúde, da
educação e da mobilidade urbana, mas cada ator fala para seu próprio
público: não debate, não interage nem se comunica com os demais. Ninguém
dialoga com o povo e a sociedade civil. Não se disputa a hegemonia. A
péssima qualidade do debate democrático prova isso.
Não se leva na devida conta que o capitalismo que hoje se tem no
Brasil foi fruto de uma colaboração real (não intencional e não
consciente) das duas principais forças políticas do País, o PSDB e o PT.
Do combate à inflação e das medidas voltadas para estabilizar a moeda
(governos FHC) às políticas de inclusão social e de apoio ao consumo
popular (governos Lula/Dilma), a ação governamental impulsionou o
capitalismo. Houve muito, é verdade, de imposições da globalização do
capitalismo, que comprimiu o campo das escolhas governamentais. Mas o
protagonismo político existiu e foi importante.
PT e PSDB, porém, em vez de explorarem a parceria, optaram por
declarar guerra um ao outro, com o propósito de ocupar espaços de poder e
salientar, mediante uma retórica simplista, exagerada e caricata,
aquilo que os distingue. Estabeleceram um pacto informal: não coopere
comigo que contigo não cooperarei. Deixaram, assim, de contribuir para
completar a construção que empreenderam, pouco fizeram para suavizar o
capitalismo e propor à sociedade outro modo de produção e de organização
econômico-social, outro padrão de convivência.
Se convergências explícitas e programáticas entre os dois pilotos
tivesse havido, as coisas teriam sido melhores. Haveria um bloco
reformador hoje no País, ao qual se vinculariam o PSB e os demais
partidos democráticos. Sua força magnética seria tanta que isolaria os
setores retrógrados e empurraria o PMDB de volta às origens.
Falar isso em ano eleitoral é puro wishful thinking. Nos próximos
meses, discursos maniqueístas e verborrágicos dominarão o cenário. É a
lógica da política e da luta pelo poder. Mas não há por que arquivar as
esperanças. O tempo para ajustes e articulações encolheu, mas ainda
existe. Sempre é hora para que se acenda o farol alto e se descortine o
horizonte.
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