Trabalhadores retomam cidade do leste da Ucrânia, em revés para separatistas
Andrew E. Kramer - NYT
No que pode vir a representar uma virada decisiva no conflito ucraniano
e um revés para a Rússia, milhares de siderúrgicos tomaram na
quinta-feira (15) a cidade de Mariupol, assumindo o controle das ruas e
expulsando os militantes pró-Kremlin que tinham tomado o controle várias
semanas atrás.
Na noite de quinta-feira, mineiros e
siderúrgicos tomaram pelo menos cinco cidades, incluindo a capital
regional, Donetsk, apesar de ainda não serem a força dominante ali como
em Mariupol, a segunda maior cidade da região e cenário na semana
passada de confrontos sangrentos entre tropas ucranianas e militantes
pró-Rússia.
Os operários são empregados de Rinat Akhmetov, o
homem mais rico da Ucrânia e um recém-convertido ao lado da unidade
ucraniana, que na quarta-feira emitiu uma declaração rejeitando a causa
separatista da autonomeada República Popular de Donetsk, mas apoiando
maior autonomia local. Sua decisão de apoiar o governo interino em Kiev
pode desferir um duro golpe aos separatistas, já cambaleando após a
retirada do apoio do presidente russo, Vladimir V. Putin, na semana
passada.
Usando apenas seus uniformes protetores e capacetes, os operários
disseram estar "fora da política" e apenas tentando restabelecer a
ordem.
Diante de ondas de siderúrgicos acompanhados pela
polícia, os manifestantes pró-Rússia dispersaram, assim como qualquer
sinal da República Popular de Donetsk ou de seus representantes.
Retroescavadeiras e caminhões basculantes das usinas siderúrgicas
removeram todas as barricadas, sem resistência nem dos manifestantes e
nem dos militantes pró-Rússia.
A Metinvest e a DTEK, as duas
subsidiárias de metais e mineração da empresa de Akhmetov, a System
Capital Management, empregam juntas 280 mil pessoas no leste da Ucrânia,
formando uma força importante e possivelmente decisiva na região. Elas
têm uma história de ativismo político que remonta as greves dos mineiros
que ajudaram a derrubar a União Soviética. Neste conflito, elas ainda
não tinham tomado partido.
Ainda é cedo demais para afirmar se
os separatistas se reagruparão para resistir aos trabalhadores
industriais, apesar de ninguém ter sido encontrado em Mariupol e
arredores na quinta-feira, nem mesmo no prédio da administração pública
que ocupavam.
"Nós temos que restabelecer a ordem na cidade",
disse Alexei Gorlov, um siderúrgico, sobre sua motivação para se juntar a
uma das patrulhas voluntárias e não remuneradas organizadas na Ilyich
Steel Works.
Grupos de cerca de seis siderúrgicos acompanhavam
dois policiais nas patrulhas. "As pessoas estão se organizando", ele
disse. "Em tempos difíceis, é assim que funciona."
Os operários
de outra usina, a Azov Steel, tomaram um lado da cidade, enquanto os da
Ilyich tomaram o outro. Ambos os grupos tentavam convencer os
estivadores a patrulhares o porto, disse Gorlov.
As duas usinas
tinham hasteadas bandeiras da Ucrânia em suas sedes, apesar de que, como
em grande parte do país, as lealdades não são muito claras. Pelo menos
parte da polícia na cidade se amotinou na última sexta-feira, provocando
uma troca de tiros com a guarda nacional ucraniana, que resultou em
pelo menos sete mortos.
O presidente-executivo da Ilyich Steel, Yuri Zinchenko, está liderando
as patrulhas de siderúrgicos na cidade. Ele disse que a empresa
permaneceu de lado o máximo possível, apesar de apoiar tacitamente a
unidade ucraniana ao convencer os operários que uma vitória separatista
fecharia os mercados de exportação na Europa, devastando a usina e a
cidade.A Ilyich Steel Works, cenário sujo da expansão
industrial de meados do século 20, é uma das usinas mais importantes da
Ucrânia, produzindo 5 milhões de toneladas de aço por ano. Cerca de 50
mil pessoas trabalham na usina em Mariupol, uma cidade de 460 mil
habitantes. Até o momento, 18 mil siderúrgicos se inscreveram nas
patrulhas, disseram executivos da Metinvest.
"Não há nenhuma
família em Mariupol que não esteja ligada à indústria do aço", disse
Zinchenko em uma entrevista à sua mesa, decorada com uma miniatura da
bandeira ucraniana. Ele disse que negociou uma trégua com os
representantes locais da República Popular de Donetsk, mas não com os
líderes do grupo.
A declaração de Akhmetov listou os problemas
para a economia regional caso a República Popular de Donetsk vencesse
sua luta contra o governo em Kiev.
"Ninguém no mundo a
reconhecerá", ele disse em uma declaração gravada em vídeo. "A estrutura
de nossa economia é carvão, indústria, metalurgia, energia, maquinário,
produtos químicos, agricultura e todos os empreendimentos ligados a
esses setores. Nós sofreremos enormes sanções, não venderemos nossos
produtos, não poderemos produzir. Isso significa o fechamento das
fábricas, isso significa desemprego, isso significa pobreza."
A Rússia é uma exportadora de aço, de modo que nunca foi um mercado significativo para a produção da região.
Os moradores apreciaram as patrulhas dos siderúrgicos por colocar um
fim ao caos e insegurança. Eles disseram que homens mascarados roubaram
quatro mercados, uma loja que vendia rifles de caça e uma joalheria,
além de incendiarem um banco.
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