sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Em Paris, moradores de rua tomam banho com frequência, mostra pesquisa
Catherine Rollot - Le Monde
Como manter-se limpo, apesar da pobreza? Longe da imagem do mendigo descabelado e malcheiroso, quase 70% dos sem-teto tomam banho mais de uma vez por semana. Essa foi uma das revelações de uma pesquisa recente do Observatório do SAMU social de Paris sobre os hábitos de higiene, conduzida junto a 1.008 pessoas que dormem na rua ou frequentam os albergues públicos. Esse trabalho é um dos raros a abordar um assunto que muitas vezes é ignorado.
A frequência, mesmo irregular, dos albergues facilita a higiene. Somente 2,2% das pessoas que estão ali abrigadas, mesmo de maneira irregular, tomam uma ducha menos de uma vez por semana, contra 16,1% entre aqueles que dormem na rua ou nos bosques parisienses. Estes últimos são os que mais frequentam os banhos públicos, representando 67%. Os centros diurnos, as piscinas, os hospitais e casas de parentes também são pontos onde se faz a toalete.
Os sem-teto também cuidam de suas roupas. Dentre as pessoas que ficam em albergues, 58,7% delas afirmam lavar roupa na máquina pelo menos uma vez por semana, contra 34,2% das que dormem na rua. Apesar do preço, as lavanderias automáticas são muito usadas pelos sem-teto que não frequentam os albergues (76,3%), que as preferem aos equipamentos dos centros diurnos ou de ONGs.As restrições de horário, a falta de máquinas e também o medo de pegar germes de outros sem-teto ou de encontrar colegas de infortúnio explicam esse desinteresse. Na falta de outra solução, as pessoas preferem lavar à mão, com um simples sabonete.
A limpeza, que é um fator essencial para a saúde e também para a autoestima e a inserção social, é sempre citada pelas pessoas sem-teto como uma de suas necessidades básicas. No entanto, são raros os dispositivos públicos gratuitos. Em vários lugares, os banheiros públicos municipais viraram lojas ou foram simplesmente demolidos. Aqueles que ainda estão em uso muitas vezes estão decrépitos ou mal adaptados ao público de rua. Em Paris, o acesso aos 17 banheiros públicos é gratuito, mas produtos de higiene e toalhas não são fornecidos.

Banheiro itinerante

O mundo das instituições de caridade por muito tempo ignorou a doação de produtos de higiene e o acesso à toalete, preferindo-se restringir à distribuição de alimentos. As iniciativas em torno da higiene são relativamente recentes. A Cruz Vermelha distribui há três anos kits de produtos de toalete durante o inverno.
Na região parisiense, há uma iniciativa mais original: desde 2012, um trailer adaptado com dois chuveiros bem isolados, sendo um deles acessível a pessoas de mobilidade reduzida, vai até os sem-teto. Esse banheiro itinerante, batizado de Mobil'douche, percorre as ruas de Hauts-de-Seine e os 13º e 14º arrondissements (distritos) de Paris duas vezes por semana.
Desenvolvida por Ranzika Faid, engajada em voluntariado há muitos anos, essa iniciativa única na Europa ofereceu em 2013 pouco mais de 240 duchas. O veículo é também um lugar de aconselhamento e oferece roupas. Um segundo trailer está sendo adaptado, mas a associação, que conta com 50 doadores e cerca de 30 voluntários, não tem recursos para espalhar seu conceito.

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