Reinaldo Azevedo - VEJA
Dilma
Rousseff é a presidente reeleita do Brasil. Os que me conhecem podem
dizer quantos chutes no cão eu dei por isso: nenhum! Quantos murros na
mesa eu dei por isso: nenhum! Quantos chiliques eu dei por isso com quem
trabalha comigo: nenhum! Quantas piadas eu deixei de contar por isso?
Nenhuma! Quantas ironias ou autoironias deixei passar: nenhuma! Quem
está bravo, quem está rancoroso, quem está irritado, quem está com o
sangue nos olhos, quem está com o espírito envenenado, quem está com
fome de fígado, quem revela o desejo de partir para a porrada — o que é
sempre mais fácil quando se conta com seguranças aos montes, pagos pelo
dinheiro público — é o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da
Presidência.
Eu não
disputo eleições; o partido do ministro, sim. Eu não ganho nem perco
nada, o ministro, sim. Vença Dilma ou não, a minha vida segue a mesma,
trabalhando muito, com três empregos — a menos que as gestões do sr.
ministro surtam algum efeito e eu os perca. Preocupados estavam aqueles
que aprenderam, ao longo destes 12 anos, a viver das prebendas estatais;
preocupados estavam aqueles que dependem do capilé público para comer o
seu caviar.
Enquanto
Dilma Rousseff, de terninho branco, fazia uma chamamento à união e à
paz, apesar de seus planos amalucados de plebiscito e reforma política,
Carvalho concedia uma entrevista ao UOL e anunciava a sua disposição de
ir para a guerra. Afirmou o ministro, entre outros mimos: “Ninguém mais
do que nós vai defender permanentemente a liberdade de imprensa”. Mas
emendou: “A meu juízo, o excesso de editorialização, de adjetivação e o
colunismo que acabou ganhando um peso enorme na imprensa brasileira têm
feito, na minha opinião, um estímulo a esse ódio que nós vimos nos
últimos tempos”.
Vale
dizer: o ministro é a favor da liberdade de imprensa, desde que ele
concorde com as opiniões emitidas. Se elas forem contrárias ao que ele
pensa, aí ele acredita estar diante de um problema. O político que diz
ser contra o ódio pertence ao partido que sugeriu que o adversário era
alcóolatra e espancador de mulheres. O político que que diz ser contra o
ódio pertence ao partido que espalhou nas ruas panfletos acusando o
oponente de querer acabar com o Bolsa Família e com os programas
sociais. O político que diz ser contra o ódio estimulou, na prática, que
milícias de vagabundos e desocupados atacassem uma empresa de
comunicação porque não gostaram da notícia veiculada.
Na
entrevista, o ministro elogiou a Folha: “Eu até destaco aqui
particularmente a Folha, que eu acho que é um periódico dos mais
equilibrados, mas infelizmente há jornais que se transformaram em
panfletos nessa campanha”. E emendou um novo ataque à VEJA: “O excesso
de editorialização da imprensa, a meu juízo, capitaneado nesse episódio
vergonhoso final da revista Veja é a ponta avançada a mim da principal
conspiração contra a verdadeira liberdade de imprensa”.
Vergonhosa
é sua fala, ministro! Seus entrevistadores decidiram não refrescar a
sua memória, mas eu refresco: a Folha de S.Paulo, que pertence ao mesmo
grupo de comunicação ao qual pertence o UOL, deu a mesma notícia
publicada pela VEJA, senhor ministro, no dia seguinte. E que se
coloquem, uma vez mais, os pingos nos is: VEJA NÃO ANTECIPOU EDIÇÃO
NENHUMA! A data estipulada para a revista que está nas bancas era
sexta-feira. A publicação não tinha como adivinhar que Alberto Yousseff
fizesse a sua confissão na terça anterior.
Gilberto
Carvalho anunciou que o governo quer conversar com os veículos de
comunicação. Disse ele: “O que nós queremos é sentar com vocês, com
gente séria da imprensa, para a gente fazer uma análise de como é que o
Brasil está sendo passado para as pessoas, de como a realidade é
traduzida efetivamente”. Isso, ministro, sente mesmo com gente séria.
Aliás,
gente séria não senta, metaforicamente falando, no colo de ministros de
estado, veja lá, hein. Carvalho agora está ocupado em atacar o que ele
chama “pregadores do ódio”. Certamente ele não está se referindo àqueles
que, financiados por estatais e pela administração direta, atacam a
imprensa livre, os líderes da oposição e figuras do Judiciário. Ah, não!
Esses, são todos defensores do amor, não é mesmo?
Diz ainda o
ministro: “O que não dá para aceitar é a gente ser considerado como
aqueles que inventaram a corrupção no Brasil”. Claro que não! Eu, por
exemplo, nunca disse isso. Mas digo, sim, que é o PT é o único partido
que chama corrupto de “herói do povo brasileiro”.
Enquanto
Dilma pregava o amor, Carvalho emitia sinais de que vai dar início a uma
nova temporada de caça às bruxas. O partido já fez uma lista negra de
jornalistas. Pelo visto, pretende ampliá-la ou partir para a execução
dos sentenciados. Encerro assim: Dilma quer um pouco de paz? Comece por
botar na rua Gilberto Carvalho. O diabo é que ela não pode fazer isso.
Porque é ele o chefe dela, não o contrário.
O PT foi
notavelmente violento nesta campanha e partiu para a baixaria. Ocorre
que só quem posa de vítima pode atacar os adversários e os discordantes
sem obedecer a qualquer limite ou ética. E é este o lugar que ele
reivindica: o da vítima. Carvalho acaba cometendo um ato falho. Diz ele,
para evidenciar o caráter popular do governo, que vai retomar o diálogo
com as pessoas. Afirmou: “Nós fizemos mais de 260 reuniões plenárias
pelo país afora, com 300, 400, 500 militantes”. Tomo a conta pelo topo: o
ministro conversou, portanto, com, no máximo, 130 mil militantes.
Ocorre que 51.041.155 votaram em Aécio, e 32.277.085 não quiseram votar
em ninguém. Juntos, eles são 83.100.453, bem mais do que os 54.501.118
que a escolheram Dilma.
Certa
feita um adversário de Marat, o porra-louca da fase do Terror da
Revolução Francesa, referiu-se a ele nestes termos: “Deem um copo de
sangue a este canibal; ele está com sede”. Gilberto Carvalho está com
sede.
O ministro
não se conforma que seus 130 mil militantes não consigam mandar na
vontade de mais de 83 milhões. Carvalho não se conforma que o PT não
tome, enfim, o lugar da sociedade. Dizer o quê para encerrar? Isto: “Não
passarão!”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.