Na nova frente contra o Estado Islâmico, dicionário e siglas se tornam uma arma
Dan Bilefsky - NYT
AFP
Após
a decapitação do francês Hervé Gourdel por um grupo alinhado ao Estado
Islâmico, muçulmanos se reuniram em Paris para expressar sua repulsa à
brutalidade de um grupo cujo nome e ideologia, eles disseram, é um
insulto para os muçulmanos de toda parteApós o guia de montanha francês Hervé Gourdel ter sido decapitado por um grupo jihadista argelino, alinhado ao Estado Islâmico (EI), no mês passado, centenas de muçulmanos se reuniram do lado de fora da Grande Mesquita de Paris para expressar sua repulsa à brutalidade de um grupo cujo nome e ideologia, eles disseram, é um insulto para os muçulmanos de toda parte.
Ahmet Ogras, vice-presidente do Conselho Francês da Fé Muçulmana, que convocou o protesto em 26 de setembro, disse que o uso agora comum do nome Estado Islâmico ameaça estigmatizar os muçulmanos da França, a maior comunidade muçulmana da Europa. Ele também disse que o nome concede uma legitimidade injustificada a um grupo que executa assassinatos em nome do Islã.
"Isso não é um Estado, mas sim uma organização terrorista", ele acrescentou. "Eu os chamo de terroristas porque é o que eles são. É preciso chamar um cachorro de cachorro. Não se deve brincar com palavras." Enquanto a batalha liderada pelos Estados Unidos contra as forças radicais prossegue no Iraque e na Síria, uma nova frente linguística está surgindo. Grupos muçulmanos na Europa e além estão atacando o Estado Islâmico em protestos e nas redes sociais, defendendo formas alternativas de se referir aos militantes, agora conhecidos por uma sopa de letrinhas, incluindo ISIS, ISIL, EIIL ou EI, entre outros.
Em um sinal da guerra semântica em curso, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, investiu na semana passada contra o Estado Islâmico ao chamá-lo de "Não-Estado Anti-islâmico", apesar de poucos esperarem que NEAI tenha muita força.
Esses tipos de protesto contra o Estado Islâmico foram acolhidos no Reino Unido, onde os membros da Sociedade Islâmica do Reino Unido e da Associação dos Muçulmanos Britânicos escreveram no mês passado uma carta aberta ao primeiro-ministro David Cameron, sugerindo que o grupo passasse a ser tratado como "Estado Anti-Islâmico" (EAI, ou UIS, na sigla em inglês). O uso contínuo do nome Estado Islâmico apenas radicalizaria ainda mais os jovens muçulmanos, eles disseram.
A França, que se juntou aos ataques aéreos liderados pelos Estados Unidos contra o grupo no Iraque e que está travando uma guerra de propaganda contra o grupo em casa, está liderando a tentativa de mudança de nome. O Ministério do Interior disse na terça-feira que o número de pessoas que viajaram ou planejam viajar para a Síria ou Iraque para lutar na região aumentou para cerca de 1.000, tornando ainda mais urgente para o governo desacreditar os militantes.
O ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou no mês passado que o governo abandonaria o termo Estado Islâmico ou suas alternativas, Estado Islâmico no Iraque e Síria ou Estado Islâmico no Iraque e no Levante, e em vez disso passaria a se referir ao grupo militante como Daesh, a sigla usada por muitas pessoas de língua árabe, que soa como uma palavra que significa algo a ser esmagado.
Dirigindo-se à Assembleia Nacional, Fabius declarou que a alegação do Estado Islâmico de representar um califado - um Estado governado por princípios islâmicos - na Síria e Iraque é geopolítica e linguisticamente falsa.
"Trata-se de um grupo terrorista, não de um Estado. Eu não recomendo o uso do termo Estado Islâmico, porque ele turva as diferenças entre Islã, muçulmanos e radicais islâmicos", ele disse. Pedindo às organizações de notícias que façam o mesmo, ele acrescentou: "Os árabes o chamam de Daesh, e eu passarei a chamá-los de Degoladores Daesh".
O termo Daesh - às vezes expresso como Da'ish - é uma sigla do nome do grupo em árabe, Al-Dawla al-Islamiya fi al-Iraq wa al-Sham, segundo Aymenn Jawad al-Tamimi, que estuda o Estado Islâmico e atualmente é pesquisador do Centro Interdisciplinar em Herzliya, Israel. Ele também é usado sem visar ser um insulto.
Mas, disse Tamimi, a sigla também foi adotada pelos críticos do grupo, como uma palavra que pode ter conotações negativas no mundo árabe, já que é próxima da palavra daes, que significa pisar em cima ou esmagar. (Vários habitantes de Mosul, que foi tomada pelo Estado Islâmico em junho, disseram para a agência de notícias "The Associated Press" que o grupo militante sunita ficava tão irritado com o uso do termo Daesh a ponto de seus membros ameaçarem cortar a língua de quem o proferisse.)
Nos Estados Unidos, Nihad Awad, diretor executivo do Conselho de Relações Americano-Islâmicas, com sede em Washington, disse que seu grupo adotou a sigla ISIS, apesar dele pessoalmente se referir ao grupo como "Daesh - embora às vezes dizer 'Estado do Mal'". Por causa de sua semelhança com "daes", ele explicou, "acaba não soando bem".
Vários representantes de associações islâmicas americanas disseram que qualquer nome usado pelo grupo seria aceitável desde que não incluísse o termo "islâmico". Salam al-Marayati, presidente do Conselho Muçulmano de Assuntos Públicos, com sede em Los Angeles, disse que seu grupo manteve o ISIS, "porque acreditamos que o uso do Islã em qualquer descrição desses grupos é exatamente o que eles querem - uma validação religiosa para o que estão fazendo".
O presidente Barack Obama deixou claro por que evita a formulação Estado Islâmico. "O ISIL não é islâmico", ele disse pela TV para todo o país no início de setembro, e depois acrescentando, "o ISIL certamente não é um Estado". A Casa Branca e o Departamento de Estado são menos claros a respeito do motivo para terem adotado a sigla ISIL em vez de ISIS.
Peter Neumann, diretor do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização no King's College London, notou que o termo Daesh dificilmente pegará internacionalmente, pois as siglas ISIS ou EI são mais fáceis de falar. Ele também argumentou que também não teria muito efeito sobre os milhares de ocidentais dispostos a se juntarem ao grupo na Síria e Iraque, que desprezam os governos e órgãos de imprensa do Ocidente.
"Apesar de ser importante deixar claro que o Estado Islâmico não representa grande parte do Islã, eu não acho que Daesh realmente vá pegar no Ocidente, e os franceses já perderam a batalha das siglas", ele disse. "Apenas dizer as palavras Estado Islâmico não significa que você o reconhece como sendo um Estado. As pessoas entendem que são impostores e que um nome é apenas um nome."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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