Sonhos complacentes
Não ficamos mais bobos quando somos mais complacentes com as bobagens em que cremos?
LUIZ FELIPE PONDÉ - FSP
Não
sou um daqueles céticos que acham que religião é coisa de gente boba.
Apesar de ter aprendido já no jardim da infância a crítica que os três
cavaleiros do ateísmo contemporâneo fizeram à religião, Marx, Nietzsche e
Freud, e de já tê-la assimilado ao café da manhã, estudo o bastante da
produção filosófica de algumas religiões pra saber que nem tudo nelas é
bobagem.
Portanto, não sou aquele tipo de ateu chato que ridiculamente mede a inteligência de uma pessoa por sua "crença na ciência".
E
qual é essa crítica dos cavaleiros do ateísmo contemporâneo? De modo
sintético, seria a seguinte: depois de Marx, se você é religioso, você é
um alienado explorado por picaretas espirituais. Não podemos não
concordar em grande parte com o que o velho barbudo diz sobre isso.
Depois
de Nietzsche, se você é religioso, você é um covarde ressentido que não
aceita a falta de sentido da vida e o abandono cósmico. Não podemos não
concordar em grande parte com o que o filósofo do martelo diz sobre
isso.
Depois de Freud, se você é religioso, você é um adulto bobo
que não conseguiu lidar com os fatos de que seu pai não é o pica das
galáxias e sua mãe não te ama incondicionalmente, daí Deus ser esses
pais ideais. Não podemos não concordar em grande parte com o que o sábio
de Viena diz sobre isso.
Preocupo-me aqui, especificamente, com
um fenômeno que chamaria, carinhosamente, de "masturbação espiritual", e
que se caracteriza por um enorme narcisismo a serviço de uma falsa
busca espiritual do tipo: o universo conspira a meu favor e Deus
trabalha pra minha felicidade. A "masturbação", aqui, representa
exatamente o fato de que a masturbação é uma "relação" entre você e
você. Na busca espiritual narcísica não existe qualquer transcendência,
só a imanência entediante de um "eu mesmo" deslumbrado consigo mesmo.
Quando
você ouvir falar, num jantar inteligente, que alguém acha todo mundo
lindo, que os jovens hoje são mais inteligentes e abertos à
espiritualidade (quando nem conseguem criar vínculos mais duradouros com
nada) e nada no "relato dessa busca espiritual" trair uma certa
percepção de desespero, uma crise de fé em si mesmo, uma angústia moral,
um horror qualquer, você está assistindo a uma sessão de masturbação
espiritual.
Outro dia, conversando sobre isso com minha mulher,
que faz doutorado sobre o psicanalista inglês D. W. Winnicott e o
sofisticado sociólogo alemão Norbert Elias, ela me leu esse maravilhoso
trecho de um livro de Elias, "A Solidão dos Moribundos", da editora
Zahar. Leia comigo:
"Hoje, com o imenso acúmulo de experiência,
não podemos mais deixar de nos perguntar se esses sonhos complacentes
não têm, a longo prazo, consequências bem mais indesejáveis e perigosas
para o seres humanos em sua vida comunal que o conhecimento bruto e sem
retoques".
Elias, neste período, discute em que medida o aumento
da imaginação, como fruto da evolução, não teria vindo em socorro da
incômoda e crescente consciência da finitude e da morte, nossos
fantasmas humanos, demasiado humanos. A questão, dita de outra forma,
seria: não estamos ficando mais bobos à medida que somos mais
complacentes com as bobagens em que acreditamos? Alguns exemplos de
bobagens: "energias do universo", "criança cristal", "geração índigo",
"pedras energéticas", "xamãs da Vila Madalena".
Ouso responder que sim. Essa moçada é, na verdade, gente sem compromisso com nada e complacente com suas manias egóicas.
Passam
a vida "buscando a si mesmos" assim como quem vai a Orlando brincar de
ser criança (nada contra Orlando, tudo contra a punheta espiritual).
Morrendo
de medo da responsabilidade pela vida, diante do horror ao silêncio de
um universo indiferente (Nietzsche), agoniados com a "castração" dos
pais (Freud), preferindo gastar dinheiro com gurus inócuos (Marx), essa
turma faz mais mal ao mundo do que quem diz diretamente na sua cara: o
que você acredita é uma bobagem!
Mas, de repente, paro e penso:
não estarei eu caindo na velha arrogância cética? Não deve a filosofia
nos ensinar a humildade diante da dor?
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