Nestes momentos de delação premiada, convém lembrar o pano de fundo cultural em que todo este affaire do
Petrolão se desenvolve: a ética da esperteza que levou corruptores e
corruptos a se considerarem superiores ao resto dos cidadãos deste país.
Explico:
tanto políticos corruptores como empresários corruptos pensaram que
ganhariam uma bolada na surdina, gerindo a coisa pública como se fosse
patrimônio de família, sem que ninguém lhes cobrasse nada. Tudo correu
na santa paz de Deus até que o corajoso juiz federal Sérgio Moro decidiu
apertar o pescoço dos gatunos com uma simples providência: aplicar a
lei da delação premiada. Aí foi quando empresários, funcionários
corruptos da Petrobras e doleiros, pegos com a mão na massa, decidiram
cantar verdades nada abonadoras para si próprios e para os corruptores
instalados na cúpula do poder.
Empresários
e diretores de empreiteiras que foram conduzidos ao xilindró dizem a
verdade quando denunciam que foram extorquidos por funcionários
corruptos da estatal, a mando de políticos safados que pretendiam
garantir a hegemonia partidária, comprando todo mundo com os dinheiros
desviados. Donos e funcionários de empreiteiras com o rabo preso foram,
sim, chantageados. Claro que são culpados pelo fato de terem agido fora
da lei.
Mas esse
fato não pode esconder que, por cima deles, estão os políticos
corruptores que ofereceram vantagens para que fossem desviados recursos
da estatal, mediante engenhosa triangulação que visava a esconder os
larápios, a fim de os políticos garantirem a caixinha de praxe. Muito
político corruptor vai aparecer nas próximas semanas tentando minimizar a
sua culpa, alegando que os corruptores foram os empresários e
funcionários das empreiteiras. Na realidade, estes foram as primeiras
vítimas dos desvios de conduta dos militantes partidários.
A
sociedade e os seus defensores, hoje identificados com o bravo juiz
federal e com os probos funcionários do Ministério Público,
encarregar-se-ão de colocar tudo em pratos limpos. Os larápios do Estado
e os espertos das empreiteiras que decidiram fazer o jogo dos corruptos
não perdem por esperar: o peso da lei e da justiça cairá sobre todos
eles. Os cidadãos deste país que pagamos impostos extorsivos esperamos
que, graças aos retos funcionários públicos que defendem ainda os
interesses da Nação, conduzam aos tribunais todos os que transgrediram a
lei no caso do Petrolão.
E
esperamos, também, que os juízes apliquem penas proporcionais aos
delitos cometidos. Até agora, o que se observou (no julgamento do
primeiro Mensalão) é que os políticos corruptores, pegos com a boca na
botija, receberam penas bem mais benignas do que os empresários
corruptos que se deixaram cooptar por aqueles.
Valha a
oportunidade para lembrarmos a essência do Estado Patrimonial, que
estimula todos estes desvios. Segundo ensinava Max Weber em Economia e sociedade,
tal Estado surge a partir da hipertrofia de um poder patriarcal
original, que alarga a sua dominação doméstica sobre territórios,
pessoas e coisas extrapatrimoniais, passando a administrá-los como
propriedade familiar (patrimonial). Consiste, portanto, o
Patrimonialismo na privatização do governo e do Estado por um indivíduo e
os seus colaboradores, que passam a geri-lo todo (a Res Publica) como Res Privata (ou coisa nossa). É uma forma mafiosa de poder.
O
relacionamento de tal Estado com a sociedade se dá mediante cooptação.
Este é o primeiro ato de corrupção. Depois vêm os dossiês falsos, o
assassinato de reputações e de pessoas e todo esse carnaval de mentiras a
que estamos assistindo. No caso do desenrolar do atual affaire do
Petrolão, as empreiteiras foram chantageadas pelos agentes públicos em
nome do governo petralha e asseclas. Quem é o maior culpado? Está claro
que os principais culpados se escondem na cúpula do poder. Os que se
deixaram cooptar, tendo sido chantageados, também são culpados. Mas em
grau menor do que o principal corruptor, o Estado privatizado pela
petralhada e aliados.
Acontece
que, quando são julgados os bandidos, os cooptados pegam 40 e tantos
anos de prisão (como Marcos Valério, aquele do primeiro Mensalão) e os
chefes políticos pegam prisão domiciliar. Dois pesos e duas medidas! Que
paguem todos os implicados no Petrolão de acordo com o tamanho da sua
culpa. Só assim se começará a fazer justiça e a dar uma resposta justa à
sociedade brasileira.
Estou em Lisboa participando de um colóquio luso-brasileiro de Filosofia. O affaire da vez no cenário político português é o da venda de vistos preferenciais para entrada no país (“visos gold“),
que garantia comissões fraudulentas para uma dúzia de funcionários
corruptos. Na terça-feira passada, um dia após a denúncia do caso, o
Ministro da Administração Interna e o seu mais estreito colaborador na
concessão de vistos se demitiram, alegando que não poderiam ficar na
função após a quebra da confiança pública ensejada pelo affaire.
Como seria
bom se, no Brasil, o Ministro das Minas e Energia e a Presidente da
Petrobrás tomassem decisão semelhante, a fim de despejar o terreno para
que a opinião pública tome conhecimento adequado da reação do governo em
face do Petrolão!
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