segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Entre insetos, granizo e inundações, produção de azeite despenca na Itália
Elisabetta Povoledo - NYT
Gianni Cipriano / The New York Times
Produtor Federico Dufour anda por oliveiras infectadas pela mosca da azeitona em Calenzano, Itália. A devastação causada pela mosca, tempestades de granizo e enchentes afetou drasticamente a produção italiana, que influenciou o aumento dos preços do azeite de oliva Produtor Federico Dufour anda por oliveiras infectadas pela mosca da azeitona em Calenzano, Itália. A devastação causada pela mosca, tempestades de granizo e enchentes afetou drasticamente a produção italiana, que influenciou o aumento dos preços do azeite de oliva
Passeando pelo olival contíguo à casa da família em uma manhã escura de novembro, Federico Dufour se ajoelhou no chão e pegou alguns caroços arroxeados, do tamanho de uma bala. "Tenho vergonha de chamá-las de azeitonas", disse ele tristemente.
Convidando a uma inspeção mais próxima de uma minúscula perfuração, ele colocou os frutos murchos na palma da mão.  "Olha, aqui está um buraco", disse ele, em seguida descreveu o ciclo breve, porém devastador de uma mosca de oliveira que devastou sua plantação.
Durante seu tempo de vida, cada mosca pode depositar centenas de ovos em outras centenas de azeitonas, acabando com olivais inteiros "em um instante", disse ele. "É um drama infinito." Este ano, esse drama aconteceu em centenas de fazendas produtoras de azeite da Toscana e outras partes da Itália, ajudando a transformar 2014 no 'annus horribilis' do azeite italiano.
Além da mosca - a Bactrocera oleae, para ser mais preciso - tempestades severas de granizo e inundações, e uma bactéria devastadora em partes da Puglia, a maior região produtora de azeite da Itália, reduziram a produção de azeitonas em cerca de 35%.
A devastação já se traduziu em aumento dos preços deste que é um dos itens básicos no lar italiano, e em breve será sentido pelos consumidores em todo o mundo. O preço de commodity para o azeite extra virgem italiano dobrou desde o ano passado, e as perspectivas também são muito ruins para a Espanha, maior produtora mundial de azeite.
"Prevemos um aumento significativo dos preços do azeite" a partir do próximo fevereiro ou março, disse Lou Di Palo, da Di Paolo's Fine Foods em Nova York, que observou que os preços ainda estavam estáveis até agora porque o azeite nas prateleiras ainda da eram do lançamento do ano passado.
"Sinto muito pelos produtores de azeitonas da Itália, especialmente os pequenos que colocam tanta paixão em seu óleo", disse Di Palo. "Este ano foi como um soco no estômago. Não é uma questão monetária; é o trabalho de sua vida."
A escassez iminente de azeite vai afetar toda a cadeia de produção, desde os lagares [onde se espremem as azeitonas] de azeite até os exportadores, e tem gerado preocupações com fraudes e adulterações que podem assolar a reputação de um setor que vale cerca de US$ 2,5 bilhões (R$ 6,4 bilhões) na Itália.
Além disso, há a preocupação constante de agricultores e outros sobre como se planejar para o que eles temem que sejam mudanças permanentes no clima, que ameaçam minar um dos pilares da identidade italiana a longo prazo.
Gerardo Gondi, outro produtor de azeite toscano, cuja propriedade familiar, a Fattoria di Volmiano, tem um pedigree que remonta ao século 15, disse que mais de 18 mil oliveiras não produziram uma única azeitona utilizável este ano.
O lagar de azeite da propriedade, um moinho de pedra tradicional também usado pelos agricultores locais, não está muito melhor. Em 2013, a fábrica processou 20 toneladas de azeitonas por dia durante dois meses, disse ele. "Este ano, chegamos talvez a 20 toneladas para toda a estação."
"Este ano não foi um ano de azeite", ele considerou. "Tudo o que poderia dar errado, deu."
Sua dor é amplamente compartilhada. Aqui em Calenzano, a cerca de 12 quilômetros ao norte de Florença, a produção caiu cerca de 80%. Alguns agricultores nem se deram ao trabalho de tentar fazer a colheita; o custo não valia a pena.
Muitas fazendas locais são orgânicas e não usam pesticidas para afastar a mosca. Os métodos biológicos foram ineficazes porque as chuvas persistentes tornaram mais difíceis a captura em massa das moscas e exigiram reaplicações constantes de vários sprays, como iscas para moscas de fruta e argila branca.
Muitas prensas de azeite de oliva aqui, assim como em outros lugares na Toscana, nem sequer abriram. Enquanto algumas cidades toscanas optaram por cancelar as festas anuais da azeitona, os administradores de Calenzano acharam que era importante continuar com o seu festival - agora no 19º ano.
"É uma tradição, e nós não queremos perder a nossa ligação com as fazendas locais", disse Damiano Felli, membro do conselho responsável pela agricultura e desenvolvimento econômico. Mas um festival de azeite sem azeite deixou pouco para comemorar.
Gondi se juntou a outros produtores locais em um grande salão comunitário durante dois fins de semana de novembro. Mas tudo o que ele podia oferecer no estande foi a última garrafa restante da safra 2013 e panfletos mostrando sua propriedade, que ao longo dos anos se diversificou e oferece alojamentos de turismo rural e passeios a pé.
"Foi uma decisão ética não produzir" um azeite que ficaria abaixo do padrão, disse ele. "É o que o nosso avô teria feito."
Verdade seja dita, poucos dos produtores locais no festival tinham algum azeite próprio para vender. Alguns estavam vendendo produtos secundários - vinhos, trigo, legumes, mel - que o poder da sustentá-los até o próximo ano, na esperança de uma colheita melhor.
Outros estavam vendendo azeite siciliano ou grego, embora sussurrassem que, apesar de o produto ser bom, simplesmente não era o mesmo que seu produto feito em casa.
Os rótulos de azeite devem especificar a origem das azeitonas, indicando se elas são da Itália, da União Europeia ou de fora. Mas a queda na produção tem gerado suspeitas de substituições e fraudes.
"Preocupações com fraude são maiores quando as circunstâncias econômicas são negativas, de modo que a tentação é maior", disse Fedele Verzola, comandante da unidade polícia militar de Florença que investiga grandes fraudes na alimentação e saúde.
Falando em um fim de semana recente em Calenzano em um seminário sobre fraude no azeite, ele pediu que os agricultores locais se tornassem "sentinelas desse patrimônio - e não espiões" e relatar quaisquer suspeitas sobre possíveis adulterações.
O verdadeiro medo por aqui é de que o clima tenha se tornado permanentemente imprevisível, e que a inundação de 2014 seja apenas uma amostra de anos de colheitas ruins por vir.
"Isso é o aquecimento global, as pessoas continuam dizendo que vai demorar muitos anos para que o tempo mude, mas a chuva, as inundações e tudo mais sugerem o contrário", disse Dufour, que é marquês e cujo título completo é Dufour Berte Landucci.
Da Liguria à Sicília, foi um ano ruim, comparado por muitos ao rigoroso inverno de 1985, que congelou milhares de árvores que levaram anos para se recuperar.
Este ano, mais uma vez, o clima foi o culpado, com uma primavera quente seguida por um verão chuvoso e tempestuoso - que incentivou a proliferação da mosca da fruta - e um outono quente e úmido.
"Não acho que isso vai desaparecer, porque esses insetos miseráveis estão lá fora", disse Nancy Harmon Jenkins, que escreveu um livro sobre o azeite, o "Virgin Territory" ["Território Virgem"], a ser lançado em fevereiro.
"Talvez seja isso que o futuro nos reserva", acrescentou. "Mais invernos e verões quentes e úmidos, que é o oposto do que acontece no Mediterrâneo e diferente do que as oliveiras estão acostumadas a suportar."
Os agricultores de toda a Itália estão cruzando os dedos para que as temperaturas caiam abaixo de zero no inverno, matando as moscas, mas até agora as temperaturas quentes prevaleceram. Se isto continuar, medidas mais agressivas precisarão ser tomadas para combater a praga.
"Não deve nem custar muito", disse Niccolò Taiti, chefe da secretaria de turismo de Calenzano. "Mas precisa ser feito, caso contrário, o problema está garantido."
Tradutor: Eloise De Vylder

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