Reinaldo Azevedo - VEJA
É
preciso desconhecer profundamente a história do Brasil, e do PT em
particular, para que se tenha alguma dúvida sobre o que está em curso no
petrolão. Não estamos diante de uma questão hamletiana; afastem dessa
conversa o “ser ou não ser”; tirem do embate as incertezas, porque
tolas, sobre a origem da roubalheira. A resposta é tão simples, a
resposta é tão óbvia, a resposta é tão evidente: se o governo, como
braço operativo do Estado, legitimado pelas urnas, atua como um ente
neutro, contrata os serviços que precisa contratar junto à iniciativa
privada, toma as devidas cautelas para que o dinheiro público seja bem
aplicado e fará a melhor escolha: aquela que alia a qualidade ao melhor
preço. Havendo a suspeita de cartelização, punem-se os responsáveis. E
pronto!
As
empresas não têm como chantagear o governo porque não fazem leis. Mas o
governo tem como chantagear as empresas porque ele ou seus prepostos
fazem leis. As empresas não têm como impor a sua vontade ao governo
porque não redigem os editais de licitação. Mas o governo tem como impor
a sua vontade às empresas porque redige editais de licitação — quando
há licitação. As empresas não têm como conduzir as escolhas do governo
porque não podem instrumentalizar órgãos de Estado para puni-lo. Mas o
governo tem como conduzir as escolhas das empresas porque pode
instrumentalizar órgãos de estado para puni-las.
Não! Eu
não estou aqui a afirmar que as empreiteiras formam uma conspiração de
anjos. Segundo o que se viu até agora, não mesmo! Mas foram elas que
apareceram, como o demônio do “Fausto”, de Goethe, tentando a alma
incorruptível dos políticos? Quer dizer que estes tinham, até ali, uma
história de retidão e ascetismo, mas eis que chegaram aqueles homens
maus do concreto armado, com um monte de dólares nas mãos, para seduzir
aqueles pobres senhores? Tenham paciência!
O Ministério Público Federal criou uma página com
esclarecimentos sobre a Lava Jato. Acho a iniciativa louvável, sim,
embora haja ali um tantinho de proselitismo, de que a página deveria ser
escoimada. A ilustração-síntese sugere que tudo começa com um grupo de
empresários que decide praticar fraudes. Para tanto, corrompem agentes
públicos, com a ajuda de doleiros.
Com a
devida vênia, isso frauda é a história. Cadê o projeto de poder dali?
Não se trata de uma questão de gosto, de leitura, de ideologia, de viés,
mas de fato. Em sua página, infelizmente, o MP omite a essência do que
estava em curso: havia um partido no comando da operação. Aliás, isso
está no depoimento do próprio Paulo Roberto Costa, segundo quem o PT
ficava com parte considerável mesmo da propina que era paga ao PP.
Os
empreiteiros, parceiros da companheirada na lambança, estão indignados —
e isso lá entre eles faz sentido — porque perceberam que, se deixarem
tudo como está, vão, sim, virar bois de piranha. Eles pagarão a maior
parte do preço pela sem-vergonhice que reinou por mais de 10 anos na
Petrobras — será que foi só lá? —, enquanto há o risco de os principais
beneficiários das falcatruas (E NÃO FORAM AS EMPRESAS) saírem por aí
livres, leves e soltos. Isso já aconteceu no mensalão. Katia Rabello, a
banqueira, não precisava daquela safadeza para ficar rica — ela já era.
Deu-se mal quando pôs a sua empresa a serviço de uma estrutura criminosa
que, esta sim, ganhou muito: ganhou o poder — que pretendia fosse
eterno.
No esforço
de manter parte da investigação na 13ª Vara Federal, em Curitiba, para
que não migre toda para o Supremo Tribunal Federal, o juiz Sergio Moro
tem impedido que empreiteiros e ex-diretores da Petrobras citem nomes de
políticos com mandato. Vamos ser claros: não deixa de ser uma forma
incômoda de condução do processo, que leva, ademais, a uma suposição
errada — a de que o esquema tinha um braço de funcionamento que
independia da política. Isso é simplesmente mentira.
A síntese é
a seguinte: é preciso que o dito rigor de Sérgio Moro não acabe
contribuindo para aliviar o peso sobre as costas do PT, que é, afinal,
desde sempre, o maestro da ópera, não é mesmo? Se os verdadeiros
responsáveis restarem impunes — ou receberam uma pena branda —, tudo
seguirá igual no Estado brasileiro.
Façamos um
corte puramente sincrônico e vamos contatar uma óbvia desigualdade: há
uma penca de empreiteiros presos, e todos os verdadeiros beneficiários
dos crimes de que são acusados estão soltos. Há algo de errado nisso aí.

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