Capital bom, mas insuficiente
O Estado de S.Paulo
As incertezas geradas pela fragilidade da economia global, pelas
oscilações das cotações de alguns dos produtos mais comercializados
internacionalmente e por ameaças à estabilidade política em diversas
regiões provocaram a redução do fluxo dos investimentos diretos
estrangeiros. Nesse cenário de preocupações, o Brasil se saiu menos mal
que boa parte dos demais países no ano passado. Embora também para cá o
fluxo tenha diminuído, a redução foi menor do que a do total mundial e
muito menor do que a redução do volume de investimentos direcionados
para a América Latina. Assim, mesmo tendo registrado menor ingresso de
capital produtivo, o Brasil conseguiu melhorar sua posição no ranking
mundial, tendo ficado na quinta colocação, duas posições acima da
classificação obtida em 2013.
O mais recente boletim da Organização das Nações Unidas para Comércio e
Desenvolvimento (Unctad) sobre tendências do investimento global mostra
que os investimentos diretos estrangeiros caíram de US$ 1,363 trilhão em
2013 para US$ 1,260 trilhão no ano passado, com redução, portanto, de
7,6%. Para a América Latina, a redução foi bem mais acentuada, de 19,5%
(de US$ 190 bilhões para US$ 153 bilhões). O fluxo desses capitais para o
Brasil caiu bem menos, de US$ 64 bilhões para US$ 62 bilhões, com
redução de pouco mais de 3% (os dados utilizados pela Unctad coincidem
com os divulgados há pouco pelo Banco Central).
É um desempenho apreciável se comparado com o de outros países. O fluxo
de investimentos diretos estrangeiros para os países industrializados,
por exemplo, diminuiu 14% no ano passado, por causa do mau desempenho
dos Estados Unidos. Já o fluxo de investimentos estrangeiros para a
União Europeia, embora tenha sido maior do que em 2013, alcançou apenas
um terço do total registrado em 2007.
Poucas regiões receberam mais investimentos em 2014 do que em 2013. Uma
delas foi a Ásia, graças à China, que, assim, se tornou o maior receptor
mundial dessas aplicações. Os países em desenvolvimento - com a notória
exceção dos latino-americanos - também receberam mais investimentos.
Apesar de manter-se bem na comparação com outros países e continuar a
atrair investimentos, o Brasil está longe de ter uma situação
confortável. Boa parte dos investimentos diretos registrados até há
pouco, como observou a Unctad em seu relatório anual sobre as aplicações
produtivas internacionais, destinou-se a áreas como mineração,
fabricação de veículos e indústrias eletrônica e de alimentos. Na
maioria deles, as perspectivas de curto prazo são sombrias, por causa da
redução da demanda interna, do endurecimento da política monetária e da
queda dos preços internacionais, entre outros fatores. É possível, por
isso, que o fluxo para esses segmentos em 2015 não repita o desempenho
de anos recentes.
O avanço dos principais projetos nas áreas de infraestrutura e petróleo,
com grande potencial de absorção de investimentos estrangeiros, poderia
compensar a queda das aplicações na indústria voltada para o consumo
interno e para as exportações. Mas esse avanço dependerá de fatores
políticos, como a fixação de regras adequadas para a participação do
capital privado e a conclusão das investigações do escândalo da
Petrobrás, com a devida punição dos que nele estiverem envolvidos.
Não é um quadro animador. Isso torna mais preocupante a situação das
contas externas do País. Até há pouco, os investimentos diretos eram
suficientes para cobrir o desequilíbrio das contas correntes do balanço
de pagamentos. Por causa do mau resultado da balança comercial - que no
ano passado fechou com déficit de US$ 3,93 bilhões -, porém, esse
desequilíbrio se ampliou expressivamente, tendo alcançado US$ 90,95
bilhões em 2014. Ou seja, os investimentos estrangeiros cobriram apenas
68% do rombo. O restante foi coberto com capital aplicado no mercado
financeiro, de natureza volátil e, por isso, menos confiável para a
estabilidade das contas externas. Esse quadro pode se repetir em 2015.
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