S&P muda perspectiva da nota brasileira de estável para negativa
Nota é mantida um nível acima do grau de
investimento, mas agência sinaliza que pode cortar o rating se não
houver avanço na área fiscal
Ana Paula Ribeiro / João Sorima Neto - O Globo
A agência de classificação de risco Standard & Poor's colocou nesta terça-feira em perspectiva negativa a nota (rating)
brasileira, mas manteve o grau de investimento do país. De acordo com
comunicado no site da agência, a nota em moeda estrangeira de longo
prazo foi mantida em "BBB-", um degrau acima do nível especulativo, mas a
perspectiva passou de estável para negativa. A agência sinalizou ainda
que a falta de avanços nos ajustes fiscais durante o próximo ano
“poderia levar a um rebaixamento do rating”.
Em moeda local, a nota brasileira foi mantida em "BBB+", e a perspectiva também foi revisada de estável para negativa. A decisão da agência aumentou a tensão no mercado e o dólar intensificou a alta.
—
Mantemos o grau de investimento desde que o Brasil se mostre capaz de
fazer as mudanças na economia — afirmou Lisa M. Schineller, diretora de
ratings soberanos da S&P, ao ser questionada, durante
teleconferência com investidores, sobre o motivo pelo qual o Brasil
segue como grau de investimento.
Ou seja, para a agência, uma falha no avanço do ajuste fiscal poderia
resultar em uma deterioração ainda maior no perfil financeiro do Brasil
e prejudicar a confiança no país e em seu crescimento. “Os ratings
poderiam se estabilizar se o atual elevado nível de incerteza política
diminuísse.”
A noticia é uma derrota para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que
tentava evitar avaliações negativas das agências de classificação de
risco durante a implementação do ajuste fiscal e reconquistar a
confiança dos investidores. Pesaram na decisão da S&P fatores
econômicos e políticos, além das investigações da Operação Lava Jato.
A S&P mencionou em nota que a série de investigações de corrupção
entre certas empresas e políticos pesa cada vez mais sobre a
perspectiva econômica e fiscal do Brasil, colocando risco na
implementação de políticas efetivas, particularmente no Congresso. A
agência informou que o país enfrenta circunstâncias políticas e
econômicas desafiadoras. Em sua nota explicativa, a S&P destaca,
entretanto, que houve uma correção política significativa durante o
segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.
“"Reconsideramos a perspectiva dos ratings do Brasil de modo a
refletir nossa avaliação de que a probabilidade de a correção de
política sofrer novo deslize seja maior que uma entre três, dado o
contexto das dinâmicas políticas e de que o retorno a uma trajetória de
crescimento mais firme será um processo mais longo do que o esperado",
em relatório assinado por Schineller.
Em março, a agência manteve a nota do Brasil em BBB-, com perspectiva
estável. De lá até agora, a agência considera que houve um piora dos
riscos. A S&P foi a primeira a conceder o grau de investimento ao
país, no final de abril de 2008. Essa avaliação é uma espécie de selo de
bom pagador.
Na demais agências de classificação de risco, a nota brasileira ainda
está dois degraus acima do nível especulativo, mas também ganhou
perspectiva negativa. Na Fitch, a nota brasileira é BBB e a perspectiva
foi rebaixada de estável para negativa no mês de abril passado.
"Embora o governo tenha começado um processo de ajuste macroeconômico
para impulsionar a confiança e credibilidade política, riscos negativos
relacionados à sua efetiva implementação e duração persistem,
especialmente no contexto de uma economia e ambiente político
desafiadores", justificou a agência.
No último dia 23, a Fitch informou que vai reavaliar as tendências
fiscais do Brasil após o governo cortar a meta de superávit primário (a
economia feita para pagar juros da dívida) de 1,1% do Produto Interno
Bruno (PIB) para 0,15%.
Já a Moody’s rebaixou de estável para negativa a perspectiva da nota
brasileira às vésperas da eleição presidencial do ano passado. Neste
mês, técnicos da agência estiveram reunidos com o governo avaliando os
números da economia. Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, a
expectativa é que a Moody’s rebaixe a nota brasileira em um degrau. de
Baa2 para Baa3, ainda considerada grau de investimento. A dúvida do
mercado é se a perspectiva será mantida negativa ou mudada para estável.
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