Rodrigo Constantino - VEJA

Para
Brum, você tem medo do “garoto marrom” pois ele representa o “outro”,
não porque ele tem essa arma apontada para sua cabeça!
Alguns leitores acham que sou masoquista,
e talvez tenham um ponto. É que acompanho as baboseiras que o lado de
lá escreve. Algumas, pois é impossível acompanhar todas. Não é bem
masoquismo. São os ossos do ofício: é preciso saber que tipo de ladainha
a esquerda sensacionalista anda inventando para rebatê-la, para expor o
absurdo, a hipocrisia, o sensacionalismo. O que mais tem por aí é
pseudo-intelectual que, em troca do estudo sério, repete chavões que
conquistam pelas emoções, não pela razão.
Um caso claro pode ser encontrado nos
textos de Eliane Brum. Queridinha dos pseudo-intelectuais, ela repete a
mesma cantilena de sempre, culpando as elites pelos problemas, apontando
para os ricos “insensíveis” como culpados pela miséria alheia, e
vitimizando bandidos, o esporte preferido da esquerda brasileira na
atualidade. Em um artigo de junho, em que ela usa a “tese” de Christian Dunker já rebatida por mim aqui,
Brum apela ao emocional para fazer seus próprios leitores de elite se
sentirem culpados por viverem em condomínios com muros, fugindo do
“outro”.
Papo de “psicólogo sakamotiano”, bullshitagem
pura, “lacanagem”, como diria Merquior. Esses adeptos de Zizek não
aguentam dois segundos de debate sério com um liberal, pois é mais fácil
desmascarar suas besteiras do que tirar doce de criança. Então Brum,
repetindo Dunker, acha que o brasileiro se fecha em muros e não sai
tranquilo na rua, no espaço público, por medo do confronto com o
“outro”? “O outro é aquele com quem ela não pode conviver, tanto que não
deve nem enxergá-la”, escreve a “pensadora”. Por isso o insufilm, o
carro blindado, o condomínio murado. Sério?
E eu que jurava que o “outro” que
assustava a “elite” brasileira fosse o bandido armado, o pivete com a
faca, o marginal que deseja te ameaçar, te machucar, para tomar o que é
seu por direito! Mas não. Descubro que não é nada disso. Que a “elite”,
inclusive aquela que frequenta o BRT, tem medo não das balas e facas,
mas do “outro”, desse encontro com a “alteridade”, do “menino de pele
marrom” (nada como a cartada racial, bem ao gosto dos sensacionalistas).
O negro e o mulato que são cidadãos ordeiros e também morrem
de medo dos marginais simplesmente desaparecem na narrativa dicotômica
da “socióloga de botequim”, que acrescenta doses fortes de perfídia:
Até
mesmo contatos visuais devem ser evitados, encontros de olhares também
são perigosos. Qualquer permeabilidade entre o dentro e o fora, entre a
rua e o muro, seja na casa, na escola, no shopping ou no carro, ela já
aprendeu a decodificar como intrusão. O outro é o intruso, aquele que,
se entrar, vai tirar dela alguma coisa. Se a tocar, vai contaminá-la. Se
a enxergar, vai ameaçá-la.
E eu aqui, achando que a visão de uma
faca é que ameaça tanta gente séria nesse país! Mas não! É a visão do
“outro”, da cor da pele diferente. E aí vem o absurdo, a completa
inversão dos fatos, a canalhice sensacionalista elevada à enésima
potência: “A rua, o espaço público, é onde ela não pode estar. E por
quê? Porque lá está o outro, o diferente. E ela só pode estar segura
entre seus iguais, no lado de dentro dos muros”.
Como muitos sabem, estou morando na
Flórida, em Weston. As casas aqui não têm muros. A rua é tranquila.
Todos param os carros no sinal vermelho sem medo, inclusive de noite.
Passeiam pelo centrinho com os filhos pequenos. Ninguém aqui parece
temer o “outro”. E só tem latino-americano por aqui, muitos
venezuelanos, muitos brasileiros. O que acontece? Por que nós perdemos o
medo do “outro” na Flórida, mas no Brasil nos cercamos de muros,
seguranças, carros blindados ou insufilm?
Brum e Dunker acham que é porque a elite
brasileira não quer o confronto com a “diferença”. Qualquer pessoa
razoável, honesta e com bom senso sabe que é porque todos os
brasileiros, da elite e do povo, morrem de medo do “outro” ser um
bandido, um assassino, um marginal que vai tirar nossa vida por um par
de tênis, protegido depois pela mesma esquerda pseudo-intelectual que
irá tratá-lo como “vítima da sociedade” e dar um jeito de
responsabilizar a vítima real pelo crime.
Claro, todo esse sensacionalismo foi para
chegar no cerne da questão: demonizar a redução da maioridade penal.
Aqui nos Estados Unidos, marginal de 16 anos vai em cana mesmo, como
adulto, pois tem consciência de seus atos. Se praticar assalto a mão
armada, está ferrado, vai pegar vários anos. Por isso é tão pouco comum
ser abordado por um desses delinquentes armados, e o furto é a
modalidade de crime mais frequente. Mas Brum e Dunker acham absurdo
prender galalau de 16 anos que mata, sequestra, estupra. São vítimas!
Merecem, quem sabe?, umas horas “gratuitas” (pagas pelo estado) no divã
de algum praticante de lacanagem…
A vitimização do marginal é absoluta:
Mais preocupados devemos ficar quando a resposta da Câmara dos Deputados à violência se encaminha para a redução da maioridade penal,
de 18 para 16 anos, nos crimes considerados mais graves. O que estão
tentando fazer, estes que manipulam o medo? Querem garantir que esses
outros, adolescentes que não tiveram educação nem saneamento nem saúde
nem lazer nem acesso a nenhum de seus direitos garantidos pela
Constituição, esses outros que tiveram as leis que os protegem violadas
desde o nascimento, crianças dessas “pessoas marrons” que o menino não
sabe para onde vão à noite nem quem cuida dos filhos delas, sejam
encarcerados mais cedo porque já decretaram que, para elas, não há
solução.
Há solução para um moleque de 16 anos que
mata e estupra, “marrom” ou não? Se Brum acha que sim, então sugiro que
ela leve para sua casa um desses delinquentes, e coloque para cuidar de
seus filhos, como babá. Que tal? Dá “carinho” e “amor” para ele, um
brinquedo da Lego, e veja se o monstro sairá um bom samaritano do outro
lado. É muita cara de pau mesmo, muito sensacionalismo tosco no “país
dos coitadinhos”.
Mas, não satisfeita, Brum compara o que
quase 90% da população brasileira quer, que é punir os marginais,
aplicar a Justiça e o império das leis, com o… nazismo! Isso mesmo: essa
turma não tem limites: “A História já nos mostrou o que acontece quando
o Estado determina que um tipo de outro encarna a ameaça e deve,
portanto, ser separado e confinado. E depois, qual é o próximo passo ou
qual é a solução final? Pena de morte, extermínio? Cuidado”. Cuidado com
os socialistas, tanto os nacionalistas como os bolcheviques e
bolivarianos, isso sim! Cuidado com a demagogia da esquerda!
Por fim, a inversão total da realidade:
Uma
sociedade de muros sempre vai precisar forjar monstros para seguir
justificando a desumanização e o sistema não oficial de castas. Aqueles
que tentam se sentir seguros e criar seus filhos em segurança não estão
inseguros porque há um outro ameaçador do lado de fora. Essa é só a
aparência que mantém tudo como está. O que precisamos não é erguer muros
cada vez mais altos, mas derrubá-los e nos misturarmos nas ruas da
cidade.
Reparem no surrealismo do troço: para Brum, a sociedade primeiro ergue muros, do nada, para não ver o “outro”, e depois cria
monstros inexistentes, para justificar a segregação “racial”. A
insegurança não vem antes, para ela. Não nos sentimos inseguros nas ruas
e em casa porque há muitos bandidos por aí, porque o Brasil é o país da
impunidade, porque marginais matam por sadismo seguros de que não serão
presos. Não! Ela acha que se derrubarmos os muros e nos misturarmos nas
ruas da cidade, os “monstros” desaparecem!
Claro, ela escreve essa quantidade
incrível de besteira provavelmente segura num condomínio, protegida
pelos seguranças, e não no meio da favela, ao lado do traficante. A
esquerda, sem a hipocrisia, não seria nada!
Até mesmo os “rolezinhos” ela defende, e
acha que é por preconceito que os outros condenam os “arrastões” dentro
dos shoppings, por aqueles que não respeitam o próximo. Mais inversão:
quem quer frequentar um shopping em paz, pobre ou rico, é o
preconceituoso que não suporta o “outro”, enquanto os bandos que invadem
o local e levam o transtorno e o caos são apenas as vítimas de
preconceito, não os que desrespeitam de fato os outros.
É tudo muito ridículo, patético, de
embrulhar o estômago. Mas são dezenas de milhares de “curtidas”, por uma
elite culpada, por pseudo-intelectuais que também adoram
responsabilizar as elites por tudo, por gente covarde que se recusa a
enxergar a realidade como ela é, preferindo o caminho fácil do
sensacionalismo para se sentir “moralmente superior”. Esquerdismo é,
definitivamente, questão de caráter. De falta dele!

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