domingo, 2 de agosto de 2015

Governadores e Dilma no País do Faz de Conta
Vitor Hugo Soares - O Globo
Em épocas temerárias, nas horas de travessias complicadas e tempestuosas – tipo as desta passagem complicada de julho para agosto – há, no Brasil, os que oram, os que lutam e os que choram. Recordo minha mãe, que fazia as três coisas quase ao mesmo tempo em outros períodos parecidos de crises, embora menos cavernosos que os atuais.
Sertaneja de fé e de coragem que foi até morrer, dona Jandira apostava piamente, antes e acima de tudo,  no poder das suas preces e dos seus santos de devoção: "o divino e manso São José" e  Santo Antônio,  pregador impetuoso de Pádua, padroeiro de Glória, a cidade da minha infância à beira do São Francisco, rio da minha aldeia que mingua a olhos vistos e pede socorro urgente, sem ser escutado.
A presidente Dilma Rousseff (PT) prefere pedir arrego aos governadores estaduais, na improvisada e óbvia reunião do Palácio da Alvorada no penúltimo dia de julho. Quase todos eles (os do PT e dos demais partidos representados em volta da mesa da cúpula de Brasília) personagens chorosos e obedientes.
Mal (ou bem?) comparando, tipos lagartixas que, praticamente, só fazem mexer a cabeça em aprovação às palavras e propostas da mandatária. "Homens moluscos" (que ganham o formato e se adaptam a quaisquer mãos do poder da vez), na definição perfeita do mestre penalista Thomas Bacellar, nas suas aulas brilhantes e corajosas na Faculdade de Direito da UFBA dos anos 60/70, da ditadura. Ou depois, no comando da seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Em Brasília, quinta-feira, um retrato sem retoque de um País de faz de conta, que nem a grandiosa cenografia palaciana dos arautos e propagandistas do governo consegue disfarçar. Nesse cenário, presidente e governadores de mãos e ideias ralas ou vazias (refiro-me às questões de princípios), de cuia na mão, nesta nova viagem ao coração do poder.
A mesma disposição submersa de raspar o cofre da viúva (se ainda restar algo a raspar). Pedir mais dinheiro para a gastança  compartilhada com empreiteiras corruptoras que financiam campanhas, políticos e governantes (numa corrupção endêmica que a Lava Jato quase diariamente põe a nu e o bravo e competente juiz Sérgio Moro, sempre alguns passos à frente da geléia geral reinante, tenta estancar).
Almejam "mais do mesmo" nas eleições municipais do ano que vem. Alcançar a "meta principal" (manutenção do projeto de mando e do status), sem princípios.Pensamentos programas largados às favas. Encenam mais uma vez, perigosa e improvisadamente, alheios (presidente e chefes estaduais) ao vozerio indignado que cresce e se propaga nas ruas, ou se reflete nos números das pesquisas de opinião.
Vejam, por exemplo, a proposta do "pacto nacional pela redução dos homicídios", que ganhou as principais manchetes, após o encontro no Alvorada. Praticamente tudo se resume a uma cooperação entre os governos federal e estaduais, de repressão em torno "do trivial dona Maria", desde os idos do golpe de 64: aumento da ação repressiva das polícias, mais confrontos, mais armas, mais cadeias, mais mortes no final das contas, que ninguém se engane.
O governador da Bahia, Rui Costa, saiu do silêncio intelectual e administrativo em que se mantém, para aplaudir "a companheira presidenta" e pedir que reuniões do tipo sejam mais frequentes e regulares: "para que temas como segurança pública e novos financiamentos para a saúde, se tornem objetos consistentes de debates". Quanta originalidade!!!
Logo ele, que no primeiro dia de mandato, saudou como "gol de placa" a ação feroz e sangrenta de efetivos da RONDESP (grupo e elite da PM baiana, que resultou na morte de 12 pessoas, quase todas sem nenhuma passagem na polícia. "O massacre do Cabula", como seguem denominando a Anistia Internacional e os promotores públicos da Bahia que tratam do assunto, embora em sentença-relâmpago (a expressão é do jornal espanhol El País, em contundente reportagem sobre o caso), uma juíza tenha decidido pela absolvição dos nove PMs acusados da execução. Decisão já devidamente contestada em instâncias superiores da justiça.
Nada a estranhar - a não  ser o que aparenta ser o extremo "da falta de noção", como sintetiza uma minha sobrinha - do incrível governo da multiplicação de"metas zero”, a exemplo do prometido pela presidente, no  “improviso” da cerimônia de lançamento do programa Pronatec Jovem, no Palácio do Planalto. Saudado com palmas, mesmo que envergonhadas,  pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante), personagem também do encontro no Alvorada. Tem vídeo circulando intensamente nas redes sociais, para os que ainda se recusam a acreditar que a mandatária brasileira tenha chegado a tal ponto. É só conferir.
Givaldo Barbosa / Agência O Globo (Foto: A presidente Dilma Roussef, posa para foto com governadore, antes de reunião no Palácio da Alvorada)Givaldo Barbosa / Agência O Globo (Foto: A presidente Dilma Roussef, posa para foto com governadore, antes de reunião no Palácio da Alvorada)   

Nenhum comentário: