“Não é bom que o homem esteja só”. Mesmo o Paraíso não bastava
para a criação divina que é o homem: Deus nos fez para a reciprocidade,
e privados da relação com o outro não somos verdadeiramente as
criaturas que Ele planejou – por isso Eva nasce dos sonhos de Adão e para Adão.
Gabriel Marcel, por sua vez, tratou dos
níveis de relação do Eu com os “Tus” que encontramos ao longo da vida.
Para ele, o Eu Absoluto (Deus) é uma necessidade na vida do homem: é
este encontro, do eu miserável com Deus, a mais perfeita forma de
atualização de toda a condição e realidade do
indivíduo; se no encontro com os outros homens atualizamos – por
confronto, diferenças ou semelhanças – alguns aspectos do nosso mundo
pessoal, na ação de estar diante do Tu Eterno somos impelidos a assumir
quem somos; assim como Ele, analogamente, quem somos por inteiro, sem
partes ou aspectos. Por isso as relações humanas não devem nos enganar a
ponto de serem plenamente suficientes: sem Deus, sem totalidade.
Julián Marias, em livros como “Mapa dos
Mundo Pessoal” e “Antropologia Metafísica” trata das dimensões da
pessoa: inexoravelmente, temos uma porção social (superficial), outra
narrativa (lugar natural do Ego) e a mais profunda e substancial: o núcleo pessoal
(inacessível pelos métodos convencionais da Psicologia, porque perdido a
cada tentativa de dizê-lo). O núcleo pessoal de que falo no início do
curso A Vida Humana é realmente quem somos, e fazer sua
cartografia depende da vontade e dos encontros amorosos que travamos ao
longo de nossas trajetórias. Por que amorosos? Porque o homem é a
criatura amorosa, feita de amor e para o amor, e tudo que atualizar essa
condição favorece o conhecimento do núcleo que porta a centelha divina,
ou a verdadeira morada interior.
A solidão, neste sentido, é um abismo:
aquele que vive só, afastado de outros que o confrontem, amem,
provoquem, toquem e limitem não tem os meios para dizer-se claramente.
Não pode fazer a “cartografia pessoal” por desconhecer as fronteiras de
sua existência, que precisa se chocar com as outras existências para se
revelar.
Obviamente, na sociedade moderna é quase
impossível passar uma vida sem algum tipo de relação e convivência.
Entretanto, estas relações atuais não atingem o núcleo pessoal, mas
aquela dimensão mais superficial da estrutura que cada um de nós é:
socialmente trocamos uns com os outros, como fazemos nas redes sociais,
nas lojas de shopping, no exercício das funções de trabalho. Talvez por
isso mesmo voltemos para casa cansados de tantos hiatos, tantas
impossibilidades de ser, tantas oportunidades perdidas de atualizar quem somos.
As rodas de conversa, casamentos e
amizades correm esse risco: o de lançarem assuntos, temas e jogos de
palavras o tempo todo, de um para o outro, sem efetivamente comunicar. A
verdadeira comunicação é aquela que sai do coração do homem (seu
núcleo) e vai ao coração do outro encontrar não apenas repouso, mas
principalmente retorno: alterada pela pessoalidade do outro, a mesma
realidade emitida pelo primeiro retorna cheia de idiossincrasias que não
são as dele próprio e, por isso mesmo, o expandem ao chegar; com maior
ou menor incômodo, abrem-lhe o horizonte da existência que ultrapassa em
muito sua limitada vida. Uma realidade compartilhada entre dois, dessa
forma, instala a ambos no mesmo chão de realidade e faz nascer de novo a
comunhão dos espíritos do início dos tempos.
Se existe a solidão dos que se fecham
para o outro, dos que optaram doentiamente pela vida sem os limites e
riquezas do verdadeiro encontro, também existe a solidão dos homens em
batalha, que estão em campo à procura de existências substancias com as
quais possam travar encontros e realizar, segundo Unamuno, o dever
primeiro dos homens: amar. Mas estes soldados cansam por motivos outros
que os dos solitários neuróticos: não encontram um quem neste
deserto a que chamamos sociedade hoje. Pessoas, de carne e osso, que
estejam abertas para as mais nobres e exigentes dimensões da vida e que
não se importem em sentir a dolorosa presença do outro em seu mundo
pessoal.
Esta solidão, especificamente, é
paradoxalmente compartida pelos homens maduros que não aceitam o teatro
de relações que aí se impõe, mas esperam ainda tocar e serem tocados;
enxergar no outro a mesma ânsia que é viver. Ânsia que deságua em paz
cada vez que se descobrem iguais em condição humana.
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