Simone Duarte - Público
É a maior empreiteira, a maior multinacional e a maior empregadora do Brasil. Está sob investigação da Justiça e da polícia. Qual o futuro deste império de 72 anos?
O que é que a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, tem
em comum com a sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, com a
hidroeléctrica de Capanda, em Angola, com o aeroporto internacional de
Nacala, em Moçambique, com a barragem Seven Oaks na Califórnia, ou ainda
com a arena Corinthians, em São Paulo, palco da abertura do Mundial de
2014? Todas são obras realizadas pela Odebrecht, a maior empreiteira
brasileira, o quarto maior grupo privado do país e o principal alvo
(depois da própria Petrobras) da operação Lava-Jato, a maior
investigação de corrupção da história do Brasil, que começou há dois
anos e revelou um esquema gigantesco de corrupção na Petrobras
envolvendo as maiores empreiteiras do país e políticos de vários
partidos.
Esta semana, nove meses depois da prisão de Marcelo Odebrecht, que presidia à empresa e da sua recente condenação a 19 anos de cadeia, a Odebrecht admitiu pela primeira vez que pagava subornos e decidiu fazer acordos de delação dos seus principais executivos, incluindo o ex-presidente. Uma reviravolta na estratégia de defesa da holding e do seu presidente entretanto afastado, um dos executivos que mais resistia a tal tipo de acordo.
Esta semana, nove meses depois da prisão de Marcelo Odebrecht, que presidia à empresa e da sua recente condenação a 19 anos de cadeia, a Odebrecht admitiu pela primeira vez que pagava subornos e decidiu fazer acordos de delação dos seus principais executivos, incluindo o ex-presidente. Uma reviravolta na estratégia de defesa da holding e do seu presidente entretanto afastado, um dos executivos que mais resistia a tal tipo de acordo.
O
anúncio da “delação premiada” coincidiu com mais uma operação da
polícia federal na empreiteira e com a revelação de que a empresa tinha
uma espécie de “intranet da propina”, em que constava o nome da obra, o
responsável da Odebrecht e o do beneficiário e o seu nome de código. As
investigações sobre quem recebeu ilegalmente recursos ainda estão no
início, mas a divulgação de uma lista com o nome de mais de 200 políticos e o facto de os executivos terem aceitado “uma colaboração definitiva” com as investigações da Lava-Jato caíram como uma bomba entre os políticos brasileiros nas vésperas da Páscoa.
Segundo os procuradores, o então presidente Marcelo Odebrecht não só tinha conhecimento, como “comandava a sistemática de pagamentos de propina”. Há indícios de que os pagamentos tenham sido feitos até Novembro de 2015, mesmo com Marcelo já atrás das grades.
Da Bahia à Lava-Jato
A maior multinacional brasileira foi fundada em Salvador da Bahia, em 1944, por Norberto Odebrecht, neto de imigrantes alemães e avô de Marcelo. Foi com o “milagre económico” entre 1968 e 1973, durante a ditadura militar no Brasil, que a Odebrecht se transformou numa das principais construtoras do país. Participou na construção de rodovias, da própria sede da Petrobras, do aeroporto do Galeão e da Usina Nuclear Angra 1, em Angra dos Reis. Em 1979, começou a operar no estrangeiro. O Peru foi o primeiro destino, hoje está presente em 28 países. Em plena guerra civil de Angola, em 1984, construiu a hidroeléctrica de Capanda — chegou a ter de retirar operários aquando dos ataques ao estaleiro de obras —, mas nunca mais saiu do país. Quando a guerra civil acabou, a Odebrecht tornou-se a maior empregadora privada em Angola devido à sua relação próxima com o governo. Angola é considerado um mercado tão importante para a construtora que, em 2007, o conselho de administração realizou naquele país a sua primeira reunião fora do Brasil.
Em 1991, tinha sido a primeira empresa brasileira a realizar uma obra
pública nos Estados Unidos e, em 1999, com a construção da barragem de
Seven Oaks, na região de San Bernardino, foi reconhecida pelo Exército
dos EUA com o prémio de construtora do ano.
Na década de 2000, a holding aproveitou como poucas empresas o crescimento do Brasil e da América Latina. Construiu hidroeléctricas, portos, estradas, estações de metro, estádios de futebol, estaleiros navais, no Brasil, na Venezuela, em Cuba, na Bolívia, no Peru, Equador. Em 2012, era considerada pela revista Exame a maior empregadora do Brasil.
Hoje, com 130 mil funcionários, a Odebrecht não é apenas mais uma
construtora. Além de engenharia, está na exploração de petróleo,
petroquímica (é sócia da Petrobras na empresa Braskem), logística,
saneamento, agronegócios e na construção de submarinos. No Brasil, a
empresa participa em seis dos dez maiores projectos de infra-estruturas
do país (cinco estão sob investigação da Lava-Jato).
Nos seus 72 anos, a Odebrecht sempre esteve próxima do poder, com o avô Norberto ou o pai Emílio. Mas foi no Governo do Partido dos Trabalhadores (PT) que, sob o comando de Marcelo, sextuplicou a facturação.
Segundo o jornal Estado de São Paulo, quando Lula da Silva chegou ao poder em 2003, a Odebrecht já era a maior empreiteira do Brasil com uma facturação de 17,3 mil milhões de reais. Em 2014, a receita era de 107,7 mil milhões de reais (26 mil milhões de euros). Um aumento que foi possível graças ao apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) que, entre 2007 e 2015, deu à Odebrecht cerca de 70% de todos os recursos destinados a obras de empresas brasileiras no estrangeiro. De 2000 a 2014, a receita da holding fora do Brasil passou de 30% para 49%.
Pressões familiares
A imprensa brasileira especula que a mudança de estratégia da
Odebrecht tem que ver com as pressões familiares do pai Emílio
Odebrecht, que reassumiu a presidência desde a prisão do filho e temia
pelo futuro da empresa. Tem, afinal, a Odebrecht o futuro ameaçado? Para
o economista Armando Castelar Pinheiro, investigador da Fundação
Getúlio Vargas (FGV), a empresa vai sobreviver. “Tem capital e estrutura
financeiras, não está endividada, ao contrário das demais envolvidas,
tem activos que podem ser vendidos [alguns já o foram nos últimos
meses], tem caixa e capital humano. Mas provavelmente vai ter de
encolher e vender activos para pagar uma multa pesada”, afirma o
economista.
Armando Castelar Pinheiro não acredita que o objectivo da investigação seja a destruição da Odebrecht, nem que a situação da empresa tenha impacto na já combalida economia brasileira. “O impacto já aconteceu e foi com a Petrobras, que está numa situação financeira complicada e que representava 10% do investimento do país. Se não fosse uma empresa do Governo, já teria entrado em recuperação judicial”, refere. Para o economista, o que aconteceu com a Petrobras é o reflexo de investimento mal feito, de má gestão, de corrupção: “São as consequências das más decisões.” Dá como exemplo as obras das refinarias do Maranhão e do Ceará onde depois da terraplenagem, a empreitada foi abandonada. “Mil milhões de dólares jogados fora pelo Governo”, sintetiza.
O economista do Instituto de Pesquisa Económica Aplicada (IPEA),
Estêvão Kopschitz Xavier Bastos, concorda que a crise da Odebrecht não
terá grande impacto na macroeconomia brasileira. “Não é possível isolar o
efeito específico do problema com a Odebrecht sobre a economia, porque
estamos no meio de uma recessão de grandes proporções; então, o ‘efeito
Odebrecht’ sobre a economia, caso exista, está diluído.” Já a queda nos
investimentos e no emprego é generalizada.
Apesar da situação actual do Brasil, o economista está optimista quanto ao impacto das investigações: “Depois da crise política e económica passar, acredito que o efeito sobre a economia das investigações e das revelações dos esquemas de corrupção entre empresas e Governo — além do óbvio benefício para si próprias — será positivo, pois o desenvolvimento económico requer instituições confiáveis, leis que sejam cumpridas e concorrência justa entre as empresas.”
O investigador Castelar Pinheiro também acredita que haverá uma mudança empresarial. “O facto de a Odebrecht, uma empresa familiar de três gerações que já era a maior construtora do país antes do PT chegar ao poder, ter o seu presidente na cadeia teve um impacto muito grande no sector empresarial”, admite. “Já as mudanças na política são mais difíceis. As relações do poder económico e político no Brasil são muito antigas e vai ser preciso mais do que uma operação Lava-Jato para mudar a cultura do país. Vai ser preciso insistir, vai ser preciso determinação por parte da Justiça para que o processo continue e não acabe como o Mãos Limpas em Itália”, sustenta.
Segundo os procuradores, o então presidente Marcelo Odebrecht não só tinha conhecimento, como “comandava a sistemática de pagamentos de propina”. Há indícios de que os pagamentos tenham sido feitos até Novembro de 2015, mesmo com Marcelo já atrás das grades.
Da Bahia à Lava-Jato
A maior multinacional brasileira foi fundada em Salvador da Bahia, em 1944, por Norberto Odebrecht, neto de imigrantes alemães e avô de Marcelo. Foi com o “milagre económico” entre 1968 e 1973, durante a ditadura militar no Brasil, que a Odebrecht se transformou numa das principais construtoras do país. Participou na construção de rodovias, da própria sede da Petrobras, do aeroporto do Galeão e da Usina Nuclear Angra 1, em Angra dos Reis. Em 1979, começou a operar no estrangeiro. O Peru foi o primeiro destino, hoje está presente em 28 países. Em plena guerra civil de Angola, em 1984, construiu a hidroeléctrica de Capanda — chegou a ter de retirar operários aquando dos ataques ao estaleiro de obras —, mas nunca mais saiu do país. Quando a guerra civil acabou, a Odebrecht tornou-se a maior empregadora privada em Angola devido à sua relação próxima com o governo. Angola é considerado um mercado tão importante para a construtora que, em 2007, o conselho de administração realizou naquele país a sua primeira reunião fora do Brasil.
Na década de 2000, a holding aproveitou como poucas empresas o crescimento do Brasil e da América Latina. Construiu hidroeléctricas, portos, estradas, estações de metro, estádios de futebol, estaleiros navais, no Brasil, na Venezuela, em Cuba, na Bolívia, no Peru, Equador. Em 2012, era considerada pela revista Exame a maior empregadora do Brasil.
Nos seus 72 anos, a Odebrecht sempre esteve próxima do poder, com o avô Norberto ou o pai Emílio. Mas foi no Governo do Partido dos Trabalhadores (PT) que, sob o comando de Marcelo, sextuplicou a facturação.
Segundo o jornal Estado de São Paulo, quando Lula da Silva chegou ao poder em 2003, a Odebrecht já era a maior empreiteira do Brasil com uma facturação de 17,3 mil milhões de reais. Em 2014, a receita era de 107,7 mil milhões de reais (26 mil milhões de euros). Um aumento que foi possível graças ao apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) que, entre 2007 e 2015, deu à Odebrecht cerca de 70% de todos os recursos destinados a obras de empresas brasileiras no estrangeiro. De 2000 a 2014, a receita da holding fora do Brasil passou de 30% para 49%.
Pressões familiares
Armando Castelar Pinheiro não acredita que o objectivo da investigação seja a destruição da Odebrecht, nem que a situação da empresa tenha impacto na já combalida economia brasileira. “O impacto já aconteceu e foi com a Petrobras, que está numa situação financeira complicada e que representava 10% do investimento do país. Se não fosse uma empresa do Governo, já teria entrado em recuperação judicial”, refere. Para o economista, o que aconteceu com a Petrobras é o reflexo de investimento mal feito, de má gestão, de corrupção: “São as consequências das más decisões.” Dá como exemplo as obras das refinarias do Maranhão e do Ceará onde depois da terraplenagem, a empreitada foi abandonada. “Mil milhões de dólares jogados fora pelo Governo”, sintetiza.
Apesar da situação actual do Brasil, o economista está optimista quanto ao impacto das investigações: “Depois da crise política e económica passar, acredito que o efeito sobre a economia das investigações e das revelações dos esquemas de corrupção entre empresas e Governo — além do óbvio benefício para si próprias — será positivo, pois o desenvolvimento económico requer instituições confiáveis, leis que sejam cumpridas e concorrência justa entre as empresas.”
O investigador Castelar Pinheiro também acredita que haverá uma mudança empresarial. “O facto de a Odebrecht, uma empresa familiar de três gerações que já era a maior construtora do país antes do PT chegar ao poder, ter o seu presidente na cadeia teve um impacto muito grande no sector empresarial”, admite. “Já as mudanças na política são mais difíceis. As relações do poder económico e político no Brasil são muito antigas e vai ser preciso mais do que uma operação Lava-Jato para mudar a cultura do país. Vai ser preciso insistir, vai ser preciso determinação por parte da Justiça para que o processo continue e não acabe como o Mãos Limpas em Itália”, sustenta.
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