Delator diz que R$ 500 mil para obra em sítio de Atibaia foram guardados em cofre
Emyr Costa contou detalhes da participação da Odebrecht em reforma
Juliana Arreguy / Dimitrius Dantas - O Globo
Um cofre foi usado para guardar R$ 500 mil em espécie da Odebrecht
para custear as obras no sítio em Atibaia cuja propriedade é atribuída
ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O delator Emyr Costa,
engenheiro civil da Odebrecht indicado para comandar a reforma, afirmou
em seu depoimento que guardou os valores após a entrega pelo Setor de
Operações Estruturadas, departamento da empreiteira responsável pelo
pagamento de vantagens indevidas. O acerto foi feito com Maria Lúcia
Tavares, assistente do Setor de Operações Estruturadas, segundo Emyr.
Em nota, o Instituto Lula negou que o sítio é de propriedade do
ex-presidente. “Os proprietários do sítio compravaram a propriedade e a
origem dos recursos usados na compra do sítio”, comunicou o Instituto.
—
Eu liguei para ela (Maria Lúcia) e pedi R$ 500 mil reais - nunca tinha
manejado uma obra com somas dessa natureza. Eu comprei um cofre, desses
que você compra em caminhões que ficam por aí, especificamente um cofre,
e coloquei dentro de um armário da minha sala. Semanalmente eu separava
mais ou menos R$ 100 mil e colocava em um envelope fechado, entregava
ao Frederico (Barbosa, engenheiro na obra) que, por sua vez, entregava
ao senhor Aurélio para fazer os pagamentos — afirma.
Aurélio se refere, segundo Emyr Costa, a Rogério Aurélio Pimentel. O
delator disse não saber de quem se tratava à época da obra.
Posteriormente, no entanto, ficou sabendo de que se tratava de um
assessor da Presidência da República.
Emyr Costa detalha que recebia o dinheiro para a obra em espécie,
dentro de um envelope, e sempre no escritório onde trabalhava. Havia
também um código, informado por Maria Lúcia Tavares por telefone, para
que o emissário o reconhecesse no momento da entrega.
— Ela me ligou no telefone interno da empresa — explica. — Procurei
no nosso sistema alguma anotação sobre esses R$ 500 mil e não encontrei.
Costa relatou aos procuradores os pedidos de reformas feitos na
propriedade. O delator disse que lhe foram solicitadas as construções de
uma pequena casa para o alojamento dos seguranças do ex-presidente, uma
edícula de quatro suítes, duas áreas de depósitos, uma para um quarto e
outra para uma adega, além da construção de uma sauna perto da piscina.
Segundo Emyr, a prioridade era a construção da residência dos seguranças da Presidência.
— A primeira coisa que eles solicitaram foi a construção de uma casa,
uma quitinete, para os seguranças da Presidência da República quando o
presidente estivesse visitando lá — disse.
Emyr confirmou também o depoimento do diretor de Relações
Institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar. O diretor afirmou que ambos se encontraram o com o advogado de Lula, Roberto Teixeira, para regularizar a obra, de forma a evitar suspeitas sobre um eventual benefício ao petista.
Ao ser questionado sobre as afirmações do engenheiro Emyr Costa, que
disse ter comprado um cofre para guardar os repasses feitos pela
Odebrecht para pagar a reforma do sitio de Atibaia, o advogado Cristiano
Zanin Martins, que defende o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
nas ações da Lava-Jato, disse que a propriedade não pertence ao petista e
que delações não podem ser tratadas como provas:
— Delações são declarações unilaterais de pessoas que têm interesse
em negociar essas versões com os acusadores em troca da liberdade ou de
benefícios. Não é uma prova. É uma informação que pode ser utilizada
pelo acusador para conseguir a prova.
Em coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira em São Paulo
para mostrar documentos que provariam que Lula não é dono do tríplex do
Guarujá atribuído a ele pelo Ministério Público Federal, Zanin disse que
o sítio também nunca foi do ex-presidente.
— Houve espetáculo feito na mídia pelas autoridades, vazando
documentos e informações, mas sempre mostramos que esse sítio não é do
presidente Lula.
Nenhum comentário:
Postar um comentário