sexta-feira, 13 de abril de 2012

A economia política da crise financeira: crises na era da globalização
Diogo Ramos Coelho - OL
Parte 1: A economia política da crise financeira: o sistema financeiro
Frederic Mishkin argumentou que as crises financeiras são produtos de dois erros fundamentais na condução da política macroeconômica: má administração da liberalização financeira e baixa prudência na condução da política fiscal e monetária. Essas características estiveram nas raízes das crises financeiras recentes que atingiram países emergentes nas décadas de 1980 e de 1990.
A crise da dívida da América Latina na década de 1980; a crise mexicana de 1994-95 e o “efeito tequila” que ameaçou outros países da região; a crise na Tailândia em 1997 que se espalhou por outros países do leste asiático; a crise russa em 1998; a crise cambial do Brasil em 1999; e a crise da Argentina em 2001 compartilharam algumas características comuns: todos esses países eram economias emergentes com histórico de políticas fiscais e monetárias frouxas; possuíam sistemas bancários pouco desenvolvidos com acesso facilitado ao crédito no exterior; e, principalmente, desenvolveram condições macroeconômicas instáveis que geraram a desconfiança dos investidores e a fuga de capitais – o que levou a crises cambiais e, finalmente, a crises financeiras.
As origens dessas crises foram amplamente estudas por economistas. Elas atendem em grande parte às dinâmicas explicadas no texto anterior, porém com particularidades que não convêm detalhar aqui. É importante destacar, contudo, que essas crises causaram graves consequências para a estrutura da economia internacional, com repercussões nos dias atuais.
Os fluxos de capitais na economia internacional atendem a dinâmicas da macro e da microeconomia. No âmbito macroeconômico, o acúmulo de reservas internacionais por um país possibilita o aumento do endividamento de outros, em decorrência do aumento da poupança externa. É importante notar que toda transação internacional é uma troca. Quando um país vende um bem ou serviço para outro país, o país comprador entrega algum ativo para pagar por tal bem ou serviço. O valor desse ativo corresponde ao valor do bem ou do serviço vendido. Na economia, o balanço de pagamentos de um país corresponde ao registro contábil de todas as operações desse país com o resto do mundo. A balança de transações correntes (ou conta corrente), por sua vez, corresponde à parte do balanço de pagamentos que diz respeito ao comércio de bens e de serviços com o resto do mundo. Se países operam déficits na balança de transações correntes (compram mais do que vendem), necessitam captar poupança externa para financiar essa diferença. Se operam superávits, exportam essa poupança por meio do acúmulo de reservas em moeda estrangeira. O espelho da balança de transações correntes é, portanto, a balança de capitais (ou conta capital e financeira) – que diz respeito à entrada ou saída de capital de um país.
A entrada de capitais externos em determinado país possibilita que ele adquira os recursos necessários para manter déficits nas transações comerciais com outros países. No entanto, em épocas de instabilidades na economia internacional, o capital externo pode torna-se mais escasso e investidores podem escolher retirar suas aplicações de determinado país. Quando a conta capital e financeira começa a ficar deficitária, é necessário deve reverter o déficit na conta corrente de modo rápido. Essas mudanças possuem elevados custos econômicos. Reduzir o déficit na balança de transações correntes significa reduzir o gasto doméstico em relação ao produto. Isso é intuitivamente óbvio: se um agregado de pessoas gasta mais do que suas rendas permitem em bens e em serviços externos, elas devem receber empréstimos ou investimentos de outros lugares para financiar o excesso de suas importações em relação às suas exportações. Quando esses investimentos ou empréstimos tornam-se escassos, a única saída é reduzir os gastos e acumular reservas. Além disso, a literatura econômica demonstra que déficits comerciais estão ligados também a déficits governamentais (os chamados déficits gêmeos). Essa correlação implica a necessidade de contenção de gastos também por parte das autoridades públicas para atingir o equilíbrio macroeconômico.
Na década de 1980, as economias emergentes tinham fácil acesso ao crédito para financiar suas dívidas, principalmente em consequência da abundância de “petrodólares” – dinheiro originário dos superávits comerciais mantidos pelos países exportadores de petróleo. Em decorrência disso, diversos governos de países emergentes estimularam o crescimento econômico por meio da importação de bens de capital, como maquinários e equipamentos capazes de sustentar o avanço da industrialização. No entanto, distintos choques externos alteraram essa conjuntura. As crises políticas no Oriente Médio tornaram o acesso aos petrodólares mais difícil. O aumento da taxa de juros nos EUA durante o governo Reagan também diminuiu os fluxos privados de capital às economias emergentes. Cresceram também as desconfianças de investidores na capacidade de os governos de países emergentes cumprirem com suas promessas – isto é, pagarem suas dívidas. As décadas de 1980 e de 1990 foram, portanto, anos de crise, principalmente para os países da América Latina e do Leste Asiático, em razão do alto endividamento público e das restrições de acesso ao crédito no exterior.
A manutenção de déficits na balança de transações correntes tinha sido a causa, na leitura de diversos governos de países em desenvolvimento, das crises pelas quais eles passaram. A única saída seria reverter esse quadro e passar a acumular reservas internacionais.
Os países emergentes passaram, então, a acumular capital por meio do estímulo à exportação. Exportar para crescer virou a regra. Manter superávits no balanço de transações correntes passou a ser a nova ordem. Economias emergentes passaram a acumular capital como precaução contra possíveis mudanças no humor de investidores estrangeiros. A poupança externa passou a ser alimentada pelos países em desenvolvimento e por países com forte setor exportador, como China e Alemanha, além dos países exportadores de petróleo. E para onde foi todo esse dinheiro?
Essas reservas serviriam para financiar aqueles países dispostos a consumir mais: as economias desenvolvidas. Os EUA, por exemplo, passaram a acumular déficits cada vez maiores na sua conta corrente e tornaram-se o principal mercado consumidor de recursos financeiros internacionais. Isso possibilitou aumentar a capacidade de endividamento do governo e dos cidadãos norte-americanos. Essa conjuntura possibilitou a formação de bolhas especulativas, como a que resultou na crise financeira atual.
O que possibilitou esse aumento de consumo nos EUA? No fim dos anos 1990 e no início dos anos 2000, grandes corporações americanas iniciaram um espiral de investimentos em áreas como tecnologia da informação e comunicação. Esse boom de investimentos nesses setores formaram a “bolha ponto-com”. Os anos de crescimento da bolha tornam esse mercado altamente atrativo para os investidores. No entanto, a saturação desse mercado levou ao inevitável estouro da bolha, o que resultou na diminuição do ritmo de crescimento da economia norte-americana. O governo dos EUA atuou, então, no sentido de expandir gastos para estimular a demanda e impedir a retração da atividade econômica. O Federal Reserve Bank (Fed), o Banco Central norte-americano, adotou políticas de diminuição gradual das taxas de juros, com o objetivo de estimular setores da economia mais sensíveis a alterações nessas taxas. Essa diminuição tinha como objetivo aumentar o investimento de empresas e de corporações – porém, elas haviam investido demais nos anos da bolha e não encontravam o estímulo necessário para expandir os gastos. As baixas taxas de juros estimularam as famílias norte-americanas a comprarem casas, o que levou ao aumento dos preços dos imóveis e a novos investimentos no setor imobiliário. Esse contexto levou à formação de nova bolha, agora no setor de imóveis.
Os anos de expansão da bolha imobiliária foram caracterizados, no lado da oferta, pela valorização desse mercado, o que tornou a concessão de créditos para o setor excelente negócio. No lado da demanda, os juros baixos e as condições econômicas favoráveis estimularam as pessoas que não tinham casa própria a fazer um financiamento – ou a usar seu imóvel como garantia para a obtenção de novo empréstimo. Nesse contexto, parte significativa da demanda originou-se de setores da população norte-americana de baixo poder aquisitivo ou até com histórico de inadimplência – os chamados setores subprime. Cresceu também a propensão marginal a consumir dos norte-americanos. Além disso, parte significativa da oferta de dinheiro teve como origem a poupança mantida por outros países, como Alemanha e China. A China, por exemplo, passou a acumular crescentes reservas internacionais por meio de superávits comerciais com os EUA. Esse dinheiro era reinvestido no mercado americano, o que ajudava a sustentar os déficits na balança de pagamentos dos EUA.
O sistema financeiro internacional ajudou a construir uma rede em que recursos eram adquiridos mundo afora, a concessão de crédito era expandida nos EUA e o consumo aumentava. Essa expansão do crédito tinha como base o crescimento do preço dos imóveis nos EUA. A construção de novas casas e a venda das que haviam sido construídas aumentou a demanda por trabalho nesse setor; mais créditos foram concedidos; e o aumento contínuo dos preços permitia que hipotecas fossem renovadas e a demanda por novos bens crescesse. Outros países podiam estimular suas economias vendendo para o mercado americano, enquanto também emprestavam para os EUA o dinheiro necessário para cobrir os déficits na balança de transações correntes. A economia mundial crescia, porém de maneira instável.
A crise teve seu início quando a bolha do mercado imobiliário não mais sustentou seu crescimento. Entre 2004 e 2006, a taxa básica de juros nos EUA subiu de 1% para 5,35%, provocando uma desaceleração no crescimento do mercado imobiliário. A queda no preço dos imóveis significou a incapacidade de muitas famílias quitarem suas dívidas. O mercado financeiro, dessa forma, sofreu forte impacto com não pagamento das hipotecas. Muitas instituições financeiras possuíam títulos que foram adquiridos tendo como base o valor dessas hipotecas – as chamadas mortgage-backed securities. A onda de rentabilidade fácil começou o seu processo de queda, de modo que os investidores que possuíam esses títulos queriam desfazer-se deles, mas não encontravam compradores dispostos a assumir esse imenso risco.
Em virtude das instituições possuírem pouco capital comparado à grande dívida, suas ações perdem valor e elas não foram capazes de fornecer o crédito que a economia norte-americana precisava. A crise de liquidez tornou-se também uma crise de solvência. Distintas instituições financeiras que tinham títulos lastreados em hipotecas, à medida que diminuíram a quantidade de meios de pagamento disponíveis na economia, irradiaram a crise para dentro do sistema monetário. Houve uma forte contração na disponibilidade de crédito. E iniciou-se uma grave crise na economia mundial.
A crise financeira recente demonstrou a necessidade de reestruturar a balança entre o crescimento da demanda e a ampliação da oferta no mundo. As reformas necessárias para reestruturar o equilíbrio global entre oferta e demanda são essenciais para manter a saúde da economia mundial e o comprometimento de distintos governos com os princípios da economia de mercado. A intervenção excessiva de Bancos Centrais nas regras de acúmulo de poupança externa alterou de maneira decisiva a criação de incentivos para a formação de bolhas especulativas. Em resumo: o principal desafio – seja às economias emergentes ou às desenvolvidas – é aprimorar as regras e a estrutura do jogo para tornar possível a continuidade do próprio jogo.

Sobre o Autor
Diogo Ramos Coelho é diplomata e formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB).

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