domingo, 15 de abril de 2012

O SÉCULO XX E AS LIÇÕES QUE ELE DEIXOU AOS MAIS JOVENS

Luzes e sombras do século 20, que para os jovens ainda é cinzento
Juan Cruz - El País
O século 20 viu de perto as maldades de Hitler (foto), mas também foi o tempo dos inventos e de Picasso, dos direitos humanos e dos direitos pisoteados, a época das revoluções triunfantes e das revoluções fracassadas. E é um passado imperfeito para jovens do século 21
O século 20 foi o dos inventos e das guerras. Foi medíocre e brilhante, um tempo do qual os jovens do século 21 já se aproximam como se fosse um abismo perfeito. O século passado.
Para os que estão entre 19 e 29 anos, é uma época encerrada. Eles são do século 21. E como veem esse fóssil? Foi o que perguntei a uma jovem atriz, Irene Escolar, 24, descendente de grandes atores, que vem ao encontro com o livro sublinhado de Eric Hobsbawm sobre o século 20. Ela o vê como um século "cheio de esperanças e tragédias". Algumas das esperanças nasceram com a Revolução de Outubro e acabaram com a queda do Muro de Berlim, que é quando o próprio Hobsbawm diz que terminou esse século 20 curto, de 1914 a 1990.
Caiu o muro e começaram guerras pequenas que deixaram feridas duradouras. "O século 20 começou a ser um tempo muito instável. Acabou-se o bilateralismo e o mundo tornou-se menos seguro. O império dos americanos saiu triunfante e seu troféu é o capitalismo feroz."
"A crise que sofremos nasce desse período do século 20." Diz Martín Rivas, 26, também ator: "Esse século que conheceu as piores guerras deixou como herança a impunidade da tortura de Estado como algo normal para salvar a segurança de um país".
O tempo dos direitos humanos, e dos direitos humanos pisoteados, "e o século dos ideais destruídos", comenta Irene. "O século dos direitos e o século do Holocausto." Mas isso vem de antes, o ódio não foi improvisado pelo século 20. "Pode ter frutificado uma nova moral de solidariedade global, de bondade humana, mas veja onde estamos."
É o século da superpopulação e também o final da colonização, "mas", diz Irene, "os colonizadores fizeram as novas fronteiras à sua vontade. E veja o que está acontecendo na África".
No meio de tudo, "o cidadão aturdido", diz Martín. "Ocorreram mudanças que não soubemos administrar. Nós jovens podemos viajar sem fronteiras que nos impeçam, mas veja as relações dos países, aí se encontram dramas insolúveis."
Não vejamos tudo tão escuro. Irene diz que foi o século que nos pôs "no caminho das novas tecnologias; fizeram-se avanços científicos que hoje prolongam a expectativa de vida". Agora algumas profecias do século 20 (Orwell, Júlio Verne...) estão se cumprindo, "as grandiosas e também as mesquinhas: você aperta um botão e é a morte", diz Rivas. "Antes havia exércitos e as baixas eram militares; hoje as baixas são todos. O homem adquiriu um poder individual de destruição que antes não se concebia a não ser na ficção científica." Hoje, corrobora Irene, cujo nome em grego significa "paz", "é mais fácil arrasar o outro... Todos querem dominar, em vez de trabalhar para que todos possam viver bem".
E vocês, como enfrentam isso? Para nós foi fácil demais até agora, dizem; as gerações anteriores tiveram mais dificuldades. Mas hoje, mais uma vez, os jovens do século 21 estão sofrendo o açoite que padeceu o início do século 20: as imigrações forçadas, a dependência dos pais. "Somos a geração mais preparada e a mais parada." "Tenho a sensação de que não sabemos aonde nos dirigimos nem para onde deveríamos nos dirigir", explica Irene Escolar.
Fiz perguntas parecidas a Iñaki Lucía Larumbe, historiador da arte de 28 anos. Para ele, o século 20 foi "o século da democracia, e não só na Espanha. E foi o século do 11-S e o do 11-M, aí se acabou de fato o século 20, no atentado às Torres Gêmeas". Na Espanha, o século 20 conheceu "uma explosão de liberdade". Mas foi um século "com muitos erros". O espírito do 68 "se desvaneceu" e a revolução mais recente, a do 15-M, quis na realidade "integrar-se ao sistema". Nós, diz ele sobre os de seu tempo, "não tivemos um inimigo concreto", e espreita no tempo presente um adversário preciso, a perda do Estado do bem-estar social. Antes, ele acredita, "os pais liam mais, tinham mais conhecimento, e nossa geração chegou a este tempo com uma evidente perda de ideologia. Tudo foi se diluindo em uma espécie de modernidade líquida".
Que crítica concreta faria ao século 20, Iñaki? "Ter permitido a banalidade do mal, nos acostumado a que as grandes catástrofes fossem cromos nas notícias. O século 20 nos acostumou ao mal. Como se tivesse nos vacinado contra todas as atrocidades. Veja o que me aconteceu na Índia, onde fui fazer um mestrado. Um companheiro do Nepal me falava de Gandhi e disse que Hitler foi uma espécie de Gandhi. Falou isso meio brincando, e me pareceu que era um exemplo de como se glorifica o malvado."
Foi o século da informação, "mas também o do excesso de informação. O século das liberdades civis, mas diminuídas pela potência de poderes como o da Igreja". Um tempo decepcionante? "Isso veremos dentro de alguns anos, quando se comprovar que danos a mudança climática causará, quando se avaliar o efeito das guerras. E quando se vir o que acontece com o Estado do bem-estar." E qual é o inimigo hoje? "O capitalismo neoliberal, talvez? Mas como lutar contra isso? Ele manipula tudo, mas você não pode lhe meter um dedo no olho." Que cor atribui ao século 20? "Cinza", diz o historiador da arte. "Entre o preto de todo o mal e o branco da esperança."
Virginia Silió veio ao encontro saindo do laboratório onde prepara sua tese; trabalha no Centro Superior de Pesquisas Científicas e nasceu em 1982, em Santander, Espanha. É bióloga molecular. Começou a carreira justamente com o século 21. Por sua mãe, principalmente, conhece o pós-guerra e o franquismo, e escutou seus avós falarem da guerra. Mas para ela são períodos nebulosos da memória dos outros. "Contaram-me o século 20." E? "A nossos pais causamos inveja, porque temos liberdade; minha mãe não estudou o que queria, não pôde fazer o que quis." O mal do século "foram as guerras". E o bom "é a liberdade... Não me trocaria por nada, nem por minha mãe nem por meu avô". Na ciência "tudo mudou muito depressa, de modo que um artigo recente logo fica obsoleto". E o avanço tecnológico (ela está conectada às redes e desfruta delas) "nos deu uma enorme capacidade de saber em tempo real tudo o que acontece". Tanto "que já não preciso ver os telejornais. No século 21 você procura a informação como acha melhor".
Já não fica na biblioteca, fica nas redes sociais; "a vida externa de nossa geração é um computador ligado a uma televisão". O novo é melhor? "Sempre gostei muito do novo. Não sei quanto vai durar." E quanto do século 20 vai perdurar? "Sem as descobertas do século 20 não seríamos o que somos hoje em nível científico. Temos melhor saúde, eliminaram-se doenças que minha mãe e minha avó ainda sofriam. E hoje a gente sabe mais. Aos 17 anos neste mundo já parecemos adultos, a infância dura menos". E o futuro? "Ufa. A mim esse 'boom' do desemprego não afetou, mas é o tempo com mais desemprego. Mas isto acontece no século 21, não o atribuamos ao 20! E as pessoas que não estão desempregadas neste século estão tristes, mesmo que tenham emprego. O que acontece? Que acreditávamos que estivéssemos melhor do que realmente estamos. Nos demos uma paulada."
Mas sairemos, diz Virginia. "Iremos embora ou ficaremos, mas sairemos. Para os maiores de 45 anos é pior. Nossa geração, a geração do século 21, seguirá em frente. Não fomos muitos que nos deixamos enganar pela hipoteca. Se você tem energia e pensa global, segue em frente."
Na realidade, esta reportagem nasceu de uma frase de David García Ortiz, estudante de filosofia de 19 anos. Ele disse: "É claro, no século 20 as coisas eram diferentes". Como se o século já fosse uma pedra no tempo. "Não creio que se deva fazer uma leitura de bom e mau com relação ao século passado. Foi o século em que prosperou a ideia de justiça universal; de fato, em seu tempo foi ratificada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas essa ideia perdeu sua validade. E se derrubaram as grandes ideias, progressos, liberdade, igualdade. O comunismo foi entronizado como ideia, e do comunismo não fica nada." Desde que faz da razão está no século 21. Herdou, portanto, "uma sociedade muito 'tecnificada'; isso nos encerrou em nossas casas, nos tornou cada vez mais individualistas, e não temos um projeto voltado para o futuro".
E se sabe mais, é claro, "mas se sabe tudo de imediato, e isso não é saber. Não adquirimos capacidade crítica para simular o que vemos; a coisa vem sem nenhum filtro. A cultura é de fato mais democrática e mais global, mas essa cultura tão ao alcance da mão é de uma qualidade muito pior. O estudante foi acostumado a acreditar em tudo o que chega a suas mãos". O futuro? "Nós jovens o vivemos com certo medo. E o medo é útil para os que têm o poder."
Imagine, David, que alguém do século 20 venha visitar o século 21. "Não entenderia nada. Se do século 20 cada dia entendemos menos, nós que vivemos neste tempo. Hoje vemos o século 20 como um desastre, porque nos deixou um modo de vida muito incerto."
Meritxell Abril fez publicidade e relações-públicas e passou 14 anos no século 20. "Quando era adolescente, imaginava este tempo como se fôssemos andar vestidos de prata e de plástico." Ocorreu algo que então não se podia vislumbrar: "o poder tecnológico para mudar as relações humanas. E isso é positivo". Mas não está tão longe, para ela, esse violento século cinza. "É um passado muito presente. Foi um século bastante duro; houve guerras, a nossa entre elas, as mundiais, a do Vietnã, a do Golfo, a Guerra Fria, as guerras dos Bálcãs... a situação econômica estagnou e agora vivemos nesse abismo." Culpa do século 20? "Não, tudo isso acontece agora, e é agora que tomamos consciência de que nosso crescimento não foi orgânico nem sustentável. É agora, no 21, que começamos a tomar consciência de que precisamos respeitar as condições em que vivemos." Ganhamos, é claro, em liberdade para amar "como tivermos vontade, as relações são mais abertas". E para tudo isso contribuiu a imensa rede social que "nos conecta perpetuamente". A televisão, que foi um invento decisivo do século 20, passou a ser mais um móvel na casa. O positivo? "O ressurgimento da democracia e a revolução tecnológica." E o que você sepultaria para sempre? "As energias nucleares: nem as teria aberto!"
Pau García Milá nasceu também há 24 anos. É inventor, empresário. Entre suas invenções, um intercambiador na nuvem da Internet que é a base de sua empresa, EyeOS. Passou a adolescência escutando histórias do século 20, "e sei que temos de lembrar dele para enfrentar o século 21". Saber o que aconteceu "nos ajuda a saber que em outros tempos foi pior... Lembrar o século 20 permite diminuir nossas queixas". E não foi tão mal: "97% das coisas que foram inventadas nasceram no século 20. É o século das invenções. É o que conto em meu novo livro, 'Optimismamente', é um século que permite respirar para começar a correr." Foi um século em que houve respeito pela política, "o desdém pelos políticos surge neste século". Houve algo que lamenta: que Franco tenha morrido em casa, e não no exílio... "Morreu muito tarde, mas deveria ter morrido fora da Espanha, para que sua época não durasse tanto nem causasse tanto dano ao futuro."
O século 20 não foi tão ruim, repete Pau: deu ilusão à humanidade, construiu edifícios grandes e seguros que permitem ter mais terreno para a vida, "e deu aos jovens a possibilidade de viver sozinhos. Um perigo? Crer que tudo já foi inventado".
Diz David: "Nos conduziu a uma sociedade em que primam o poder e o dinheiro e na qual mudaram os velhos valores".
Hoje são cidadãos do século 21. Doze anos no que às vezes parece um abismo e em outras tem a forma de uma ponte sobre águas muito turbulentas.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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