quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Aumento na produção de petróleo nos EUA rebate ideia de que o país chegava ao pico da extração de combustíveis fósseis
Christof Ruhl* - IHTJim Wilson/The New York Times
Campo de Xisto de Monterey, na Califórnio, EUA, de onde é extraído petróleo
Campo de Xisto de Monterey, na Califórnio, EUA, de onde é extraído petróleo
Há apenas dois ou três anos, estava se formando um consenso entre os especialistas de que tínhamos chegado ao pico do petróleo, que a indústria de combustível fóssil estava ficando senil e que o mundo sofreria repetidos choques de preços de energia na transição para uma economia de combustível pós-fóssil. Muitas pessoas na indústria do petróleo estavam céticas diante desse prognóstico sombrio, e a extraordinária expansão recente da produção não convencional de gás e petróleo na América do Norte provou que os otimistas estavam corretos.
O que muitos parecem não reconhecer, entretanto, é que o renascimento do gás e petróleo na América do Norte, que tem o potencial de alimentar uma recuperação industrial americana com energia mais barata, não é um acidente geológico feliz ou sorte na prospecção. O aumento dramático na extração de gás de xisto e do petróleo de xisto aconteceu nos Estados Unidos e no Canadá devido ao acesso aberto, a política sólida dos governos, direitos de propriedade estáveis e o incentivo oferecido pelos preços de mercado estimularem o talento de bons engenheiros.
No ano passado, no Panorama de Energia 2030 da BP, nós saudamos a perspectiva de autossuficiência em energia na América do Norte. Com o incentivo dos preços altos do petróleo e a aplicação no petróleo das técnicas de prospecção desenvolvidas para o gás de xisto, nós agora estimamos que o petróleo de xisto será responsável por quase metade do aumento de 16 milhões de barris por dia na produção mundial de petróleo até 2030. Quase dois terços do novo petróleo virá das Américas, principalmente do petróleo de xisto americano e do petróleo betuminoso canadense. Os Estados Unidos provavelmente superarão a Arábia Saudita em produção diária muito em breve, e a produção fora da OPEP dominará o crescimento da oferta global na próxima década.
As políticas, e não a geologia, estão promovendo uma virada extraordinária dos acontecimentos que está estimulando a indústria do petróleo americana. O Leste da Ásia conta com recursos de gás e petróleo de xisto muito maiores do que os Estados Unidos. A América Latina e a África também contam com reservas substanciais. Mas o ambiente competitivo, as políticas do governo e a infraestrutura disponível farão com que a América do Norte domine a produção de gás e petróleo de xisto por muito tempo.
Os mercados têm um papel duplo na mudança do cenário. Uma década de preços elevados promoveu a mudança tecnológica que agora está devolvendo a coroa de energia à América do Norte. E as mesmas forças de mercado estão promovendo a eficiência e redução do consumo de energia nos países onde é permitido que o mecanismo de preço faça seu trabalho. O consumo de combustível líquido entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) continuará caindo e será ultrapassada em 2014 pela demanda dos países emergentes, onde os preços dos combustíveis ainda são frequentemente subsidiados.
Uma consequência, com frequência não discutida, é o impacto dessas mudanças no mercado de petróleo atual. A revolução do petróleo de xisto representa um desafio para os países da OPEP e suas companhias petrolíferas nacionais. Nós prevemos que todo o petróleo adicional colocado no mercado ao longo da próxima década virá de fontes não convencionais fora da OPEP.
O aumento esperado de novo petróleo levará a uma maior oferta geral e à continuidade da volatilidade do mercado. Se a história servir como guia, a OPEP reduzirá a produção e trocará a participação de mercado pela estabilidade de preço. Mas com a mesma frequência de antes, suas políticas adotadas em resposta e sua capacidade e disposição de administrar a capacidade ociosa serão cruciais para a determinação das condições de mercado a médio e longo prazo.
Nos anos 80, o petróleo do mar do Norte e do Alasca transformou o mercado. Hoje, a inovação promovida pelo mercado nos coloca novamente em uma encruzilhada, e chegou a hora da tomada de decisões críticas a respeito de energia. Os países com recursos abundantes devem decidir se seguem o caminho dos mercados abertos, incluindo o acesso estrangeiro e preços competitivos. Ou eles podem optar por regimes de investimento restritivos que correm o risco de se tornarem menos recompensadores.
As comunidades devem decidir se o benefício de redução de carbono pelo uso de gás natural na geração de energia supera o medo das novas tecnologias de prospecção. A Europa também precisa ter um entendimento do mercado. Sem uma sinalização clara de que o carbono tem um preço, as companhias elétricas europeias serão seduzidas pelo preço barato do carvão, cuja disponibilidade no mercado será maior graças à adoção de gás de xisto pela América.
Um aumento na produção de gás e petróleo de xisto está transformando nossa paisagem de energia. As previsões sobre seu potencial diferem enormemente. Mas o que é certo é que nosso futuro em energia não está totalmente à mercê da geologia. A velocidade com que conseguirmos colocar esse recurso útil no mercado dependerá em grande parte das questões que serão decididas por nossos governos, nossos parlamentos e pelos conselhos municipais.
*Christof Ruhl é o economista-chefe da BP
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Nenhum comentário: