terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rebeldes islâmicos impunham amputação de ladrões em hospital de Gao, no Mali
Jean Philippe Rémy - Le Monde
AFP
Foto tirada com um celular em 12 de janeiro de 2013 mostra supostos insurgentes islâmicos em Gao, no Mali
Foto tirada com um celular em 12 de janeiro de 2013 mostra supostos insurgentes islâmicos em Gao, no Mali
É uma opção que ninguém, entre o escasso pessoal médico do hospital de Gao, no Mali, imaginaria ser obrigado a tomar um dia. Essa opção foi necessária quando os chefes rebeldes do Movimento pela Unidade da Jihad na África Ocidental (Mujao) vieram no início de agosto de 2012 anunciar no hospital que se preparavam para proceder a amputações de ladrões, aplicando sua interpretação da sharia (lei islâmica), e solicitavam assistência médica.
Desde a tomada e o controle total da cidade em junho pelo Mujao, criado pela Al Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), a insegurança generalizada havia diminuído em Gao. Em um primeiro momento, uma grande parte da população aprovou a instauração da lei islâmica, que representava uma forma de justiça sobre os escombros do Estado.
Depois vieram os castigos corporais. Primeiro as chicotadas em público, dolorosas, humilhantes, mas que nunca puseram vidas em perigo. Depois o Mujao informou que em breve cortaria a mão de ladrões reincidentes. "Nós sabíamos que eles iam cortar, sentimos isso", explica sombriamente um cirurgião no hospital. Seria preciso intervir para atenuar a pena dos torturados? Isso significaria fazê-lo em público e participar do castigo. Deixar os condenados sofrerem? Terrível.
Os médicos decidiram que não poderiam, como o Mujao sugeria, ir até a Praça da Independência, rebatizada de Praça da Sharia, anestesiar os condenados amarrados ao poste amarelo e sujo do suplício, e ver cair os membros cortados a faca. Mas que em seguida eles cuidariam desses infelizes no hospital.
"Não é nosso dever amputar nada, mas se alguém está ferido podemos tratá-lo e nos responsabilizar", continua com voz suave o doutor Issouf Issa. Ele também se surpreende: "A cada amputação, eles recolhiam as mãos ou os pés e os colocavam em um saco. Eu me pergunto o que faziam com eles".
Na primeira vez que o Mujao, sob as ordens do chefe da polícia islâmica, Aliou Traoré, anunciou que praticaria uma amputação, as organizações da juventude de Gao imediatamente entraram em ebulição. A Praça da Independência foi invadida. Mas não adiantou: o castigo ocorreu em outro lugar, na cidade de Ansongo. Foi em 8 de agosto. Depois, virou hábito. Ao todo, quantos homens sofreram amputação, pública ou dissimulada em um dos centros onde se encontravam os combatentes do Mujao, na alfândega ou na polícia islâmica? Os médicos estimam que foram onze, talvez doze. Eles não estavam sempre lá, afirmam, para ter o número certo seria preciso examinar os arquivos do hospital. E não têm a menor vontade de fazer isso.
Neles, ainda supura a ferida na alma deixada por essas horas. As palavras para dizê-lo vêm aos poucos. "Uma opção terrível, terrível, todos ficamos traumatizados", resume um cirurgião que se lembra, com repulsa, de um homem que sofreu um tal martírio depois da amputação que se recusava a comer e até a se sentar no leito do hospital.
Fechados no hospital, os cirurgiões só podiam esperar a chegada dos supliciados em uma caminhonete, com panos pretos amarrados ao redor dos membros com garrotes, e depois fazer o melhor possível com os corpos e com sua consciência. "Trazíamos a pessoa aos gritos para cá e tínhamos de consertar tudo. Cortar de novo. Mesmo quando não há gangrena, há trabalho a fazer no coto. Eles faziam a amputação de forma grosseira, e era preciso reconstruir o coto", explica um cirurgião baixando a voz, como se os torturadores de ontem fossem surgir novamente no pátio do hospital.
"Quando nos trouxeram de uma vez cinco pessoas, das quais acabavam de cortar a mão e o pé, foi um horror", acrescenta um anestesista. Seus colegas concordam. As cinco amputações duplas de setembro são seu pesadelo, e eles baixam os olhos quando lembram desses homens tomados por dores atrozes. "Eles vendavam seus olhos para que não vissem a mão cortada e para que não desmaiassem."
Eles também lembram fatos estranhos desse período. O condenado que fez um apelo "a todos os ladrões" para que agora reine a honestidade em Gao. "Ele fez uma intervenção na rádio antes e outra depois", surpreende-se ainda um médico, que não deseja que seu nome seja publicado porque "o hospital é delicado. Caso alguma coisa acontecesse na cidade, poderiam nos visar prioritariamente aqui".
É proibido filmar durante as amputações e durante os tratamentos no hospital. Homens armados acompanham os torturados até o centro cirúrgico para ter certeza. Depois os homens do Mujao divulgavam suas próprias imagens, voluntariamente cruas e destinadas a causar terror.

Durante os últimos dias os médicos tremeram de novo. Enquanto o Mujao e seus aliados deixavam progressivamente Gao, levando seus feridos para não deixar ninguém para trás, na intenção de continuar a guerra longe das cidades, os médicos tiveram medo de participar da viagem, e que o Mujao fosse tentado a levá-los à força para o deserto, "para se constituir uma antena médica móvel". "Não havia ninguém para nos proteger, desde o início", conclui com uma voz tímida o doutor Boubacar Dicko, que fez o bem e vive aterrorizado de ter sido contaminado pelo mal.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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