Valerie Trierweiler (centro), mulher do presidente da França, Francois Hollande, lê ditado para crianças em escola de Paris. Um decreto diminuiu em 45 minutos a jornada escolar na capital francesa
"A nossa opinião é a última que pedem..." A frase era repetida por todos no sábado (2), durante a manifestação que reuniu, de Sorbonne até a sede da Prefeitura de Paris, entre 1.350 e 2.000 manifestantes. Professores, pais de alunos e agentes municipais, contrários à semana de quatro dias letivos e meio a partir de setembro, formaram um cortejo provavelmente menos imponente que o de 22 de janeiro – quando 80% dos professores do ensino básico se mobilizaram - , mas de qualquer forma impressionante, mesmo sob chuva.O decreto sobre a reforma da distribuição da carga horária escolar foi publicado no dia 26 de janeiro, diminuindo em 45 minutos a jornada escolar e instaurando a manhã de quarta-feira trabalhada, mas os professores parisienses esperam fazer com que o prefeito da capital, Bertrand Delanoë, volte atrás. Este anunciou, no dia 10 de janeiro, a implementação da reforma já para o próximo ano letivo. Mas muitos professores têm na memória o "precedente" de 2002, quando, recém-eleito, Delanoë quis modificar a organização da semana escolar… e desistiu, diante dos protestos. Muitos também sabem que as administrações locais têm até o dia 31 de março para informar se aplicarão as novas cargas horárias em 2013 ou 2014. "Mas adiar em um ano não significa que as coisas continuarão como estão", eles afirmam.
"Nós também esperávamos por essa mudança de carga horária", garante Isabelle, diretora de uma escola no 9° distrito de Paris: "afinal, nós é que estamos na melhor posição para saber que quatro dias letivos por semana não é bom para as crianças!" Instaurada em 2008 com o fim das aulas no sábado de manhã, a semana de 4 dias é reconhecida como a pior das situações, pois ela impõe aos alunos seis horas de aula por dia, 144 dias por ano, contra 187 em média na OCDE. "Um contrassenso biológico para a criança", segundo a Academia de Medicina. "Mas mudar a carga horária sem nos consultar previamente não era exatamente o primeiro gesto que esperávamos desse governo", diz Isabelle, diretora de escola.
"Faz anos que trabalhamos sob pressão, que precisamos elaborar programas pesados demais sabendo que eles não são bons", concorda outro diretor de escola, do 5° distrito. "Nós nos submetemos enquanto esperávamos pela troca de governo... e assim que voltamos a ter confiança, eis que o novo governo aborda a forma no lugar do conteúdo. Antes da carga horária é preciso rever os conteúdos de ensino, o número de alunos por turma... É mais urgente, e isso deve ser feito nas negociações", ele conclui.
Mas esses professores não sabem que seus sindicatos estão saindo de três meses de negociações tumultuadas com o ministério sobre a questão da carga horária? É uma "consulta às bases", "local", que eles exigem hoje. A seção parisiense do sindicato SNUipp-FSU, maioritária, pede por "negociações de um ano". Que "outra" reforma da carga horária eles querem, então? Alguns rejeitam a questão, outros arriscam uma resposta que soa como palavra de ordem: "Reforma, sim, mas não precipitada".
"É quase como se tivéssemos de ter vergonha de defender nossas condições de emprego", diz Lise, 35, professora primária do 15° distrito. Ela não tem medo de falar sobre um assunto que outros abafam: o argumento financeiro. "Somos criticados por trabalharmos ‘só’ 27 horas por semana, por estarmos de férias o tempo todo... ou em greve! Mas não levam em conta as horas que gastamos preparando aulas, corrigindo provas... Eu lhe digo que, com essa reforma, ainda que o tempo de ensino semanal não varie, vou sair perdendo!" Isso porque, assim como muitos professores em Paris, Lise não tem condições de viver em Paris. Voltar a dar aulas na quarta-feira tem um custo: nem tanto pelo transporte, mas sim pela guarda de seus filhos. E isso faz diferença, quando se ganha dois mil euros brutos por mês.
"Talvez a reforma não mude o número de horas passadas em sala de aula, mas ela aumenta muito a amplitude horária na escola", aponta Jérôme Lambert, do SNUipp-FSU-Paris. "Não é de se surpreender que meus colegas se sintam decepcionados, ou até traídos!". Entre os manifestantes a raiva é geral. Mas as reivindicações continuam sendo diversas. Existem aqueles que não querem ouvir falar na "reforma Peillon", e aqueles que, prudentes, exigem que ela seja adiada em um ano. Aqueles que pensam que a manhã de sábado seria melhor que a quarta-feira. Aqueles que exigem medidas mais ambiciosas, uma mudança total do ano escolar, das férias...
O secretário da Educação para Paris, François Weil, diz não subestimar essas expectativas. "Ainda que nossa circunscrição de ensino tenha suas especificidades, com o reforço dos professores da cidade de Paris e deduções horárias dos diretores de escola, os cortes de emprego resultaram em uma piora generalizada das condições de trabalho", ele explica. "Em 2012, foram 98 postos suprimidos no ensino primário", ele lembra.
O mesmo discurso conciliador é mantido pela Prefeitura, que está se preparando para receber as diferentes partes interessadas, e que demonstra uma ambição: oferecer a todos os pequenos parisienses, 45 minutos por dia, um "percurso educativo" para que eles passem menos tempo em sala de aula, sem deixar a escola mais cedo. Já foram previstos 11,5 milhões de euros para organizar atividades culturais e esportivas.
"Conversa", retrucam os professores, que temem que esses "planos" sejam realizados durante uma pausa estendida no horário de almoço, sendo que ela já é caótica em muitas escolas – por falta de funcionários, de instalações etc. "Essa pausa só tem pausa no nome", diz Marielle, professora no 13° distrito. "As crianças voltam para a sala de aula superativas. Prolongá-la ainda mais não faz sentido, tanto para elas quanto para nós, pois isso significaria que não terminaríamos as atividades mais cedo". Uma punição dupla, na opinião de muitos professores.
Tradutor: Lana Lim
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