Gota d'água
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - O chanceler Antonio Patriota não tinha para onde correr. Se
dissesse que a operação para retirar o senador Roger Pinto da Bolívia tinha sido
articulada pelo Itamaraty, teria de admitir que a ameaça de inquérito era só
teatro. Ao alegar que o diplomata Eduardo Saboia tinha agido por conta e risco,
admitiu que não tinha comando sobre a diplomacia.
A insubordinação de Saboia, porém, foi apenas a gota d'água, pois Patriota
era um típico caso de pessoa desconfortável dentro da própria casa e do próprio
cargo e que jamais chegou a ser assimilado e respeitado por Dilma como
chanceler.
Apesar de primeiro de turma e de bastante respeitado intelectualmente,
Patriota foi derrotado pela própria personalidade, excessivamente cautelosa, até
um tanto medrosa, incompatível com o estilo duro, às vezes agressivo, de Dilma.
Ele foi escolha pessoal de Dilma, mas o casamento nunca engrenou e a política
externa do novo governo jamais teve uma marca, atolada em perda de protagonismo,
em notas oficiais amorfas, em manifestações desimportantes.
Foi-se a era excessivamente afirmativa e polêmica de Celso Amorim no governo
Lula, veio a era demasiadamente em cima do muro e sem rumo de Patriota no
governo Dilma.
A própria Bolívia é um festival de exemplos, ora inspecionando o avião
oficial do ministro da Defesa do Brasil, ora jogando cães farejadores em outro
avião oficial com parlamentares do Brasil, por fim negando-se a conceder o
salvo-conduto --instituto previsto em tratados e respeitado pela tradição no
continente-- ao senador asilado na embaixada brasileira. E qual foi a reação do
Itamaraty? Sempre cedendo, indiferente.
A reação um tanto esdrúxula do diplomata Saboia não foi um gesto pequeno. Foi
um enorme gesto de coragem que expôs toda a covardia da política externa, que
ganha no novo ministro, Luiz Figueiredo, a expectativa de menos mesmice e mais
ação.
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