domingo, 20 de outubro de 2013

Americanos ricos compram castelos na Irlanda por descontos e "amor"
Kerry Hannon -  NYT
Carl de Souza/AFP
Helicóptero pousa em frente a castelo na Irlanda
Helicóptero pousa em frente a castelo na Irlanda
Aqueles que visitam pela primeira vez o Castelo Humewood, em Kiltegan, County Wicklow, não conseguem evitar. Eles simplesmente dizem: "Uau".
É assim grande, impressionante –de conto de fadas. Ele é vasto e cheio de torres, e a vista para as montanhas parece um cenário de Hollywood.
Humewood, uma propriedade irlandesa com 173 hectares, a aproximadamente 90 minutos de Dublin, inclui 15 quartos, um salão de baile, um salão de banquete e um salão de bilhar, entre outros confortos.
E um americano, John Malone, agora é seu proprietário. Em novembro, o bilionário de 72 anos, presidente da gigante de cabo e telecomunicações Liberty Global, o comprou por uma ninharia.
Ele pagou cerca de 8 milhões de euros, ou aproximadamente US$ 10 milhões, pelo baluarte vitoriano gótico de granito de 3 mil metros quadrados, construído nos anos 1860. Isso representa aproximadamente um terço do valor pelo qual foi vendido em 2006, perto do auge do boom da economia irlandesa. Aquele ano, ele foi comprado por 25 milhões de euros por uma empreendedora imobiliária irlandesa, a Lalco Holdings, que planejava transformá-lo em um dos melhores resorts de luxo da Irlanda, com campo de golfe incluído. O plano sucumbiu após o estouro da bolha imobiliária em 2008.
Mas não se trata necessariamente de dinheiro. "Eu não comprei Humewood como investimento financeiro", disse Malone. "É mais um ato de amor do que sagacidade financeira."
Malone, que pesquisou sua ascendência até um ancestral que chegou à Pensilvânia, vindo da Irlanda nos anos 1830, está entre um número crescente de americanos ricos que estão retornando às suas raízes irlandesas para comprar castelos e mansões a preços deprimidos –em dinheiro.
Muitas das propriedades estão mudando de mãos por aproximadamente um terço dos valores de 2007, graças ao êxodo de empreendedores imobiliários do país, muitos dos quais faliram com o colapso do mercado.
Empreendedores imobiliários com olhos arregalados, juntamente com executivos de empresas baseadas na Irlanda, já foram os principais compradores de imóveis imponentes irlandeses, segundo Harriet Grant, chefe de vendas de imóveis de campo da corretora Savills Ireland, em Dublin. "É realmente interessante, porque não víamos compradores americanos em nosso mercado há muitos anos", ela disse.
Mas o atrativo dos preços muito mais baixos da Ilha Esmeralda e a lenta recuperação da economia mudaram isso. Compradores estrangeiros foram responsáveis por nove das 10 maiores vendas de mansões de campo irlandesas no ano passado –muitos deles americanos, segundo a imobiliária Sherry FitzGerald Group, com sede em Dublin. Em 2013, essa tendência prosseguiu "com os americanos à frente, apesar do crescente interesse por parte da Ásia, particularmente da China e Japão", disse David Ashmore, diretor da Sherry FitzGerald.
Por exemplo, Charles Noell, o fundador da empresa de private equity JMI Equity, com sede em Baltimore, comprou a Ardbraccan, uma mansão do século 18 situada em 48 hectares de terras com jardins formais, nos arredores da cidade de Navan, em County Meath. Noell pagou quase 4,9 milhões de euros, ou US$ 6,3 milhões, segundo a Savills, a empresa que cuidou da venda. Em 2008 era estava listada pelo triplo do valor.
James E. Thompson, um americano que reside em Hong Kong e é fundador do Crown Worldwide Group, foi à Irlanda no ano passado para explorar suas raízes e foi arrebatado. Ele comprou Woodhouse, uma casa de campo com aproximadamente 160 hectares nos arredores de Stradbally, em County Waterford, por menos de 6,5 milhões de euros. A Savills Ireland também foi a corretora.
É claro, muitos dos compradores americanos ricos conseguiram se manter anônimos em várias compras em dinheiro nos últimos 12 meses, disse Ronan McMahon, um especialista global em mercado imobiliário que escreve reportagens sobre as tendências imobiliárias para a "International Living", uma revista e site especializados sobre viver no exterior.
Por exemplo, Ravenswood, o antigo lar do cantor-compositor dos anos 70, Gilbert O'Sullivan, uma mansão georgiana de 600 metros quadrados nos arredores de Bunclody, County Wexford, foi vendida no ano passado pela Colliers International por 1,3 milhão de euros, em comparação ao preço pedido em 2009 de 2,5 milhões de euros. Um advogado do Texas a teria comprado.
É a hora certa de comprar um castelo irlandês? Honestamente, não há muita concorrência. Pessoas de alta renda na Irlanda, que poderiam estar no mercado há uma década, não estão mais devido à escassez de financiamento bancário. Então o mercado potencial se restringe a um número muito pequeno de pessoas que compram em dinheiro, disse Grant.
Mas não há um número imenso de imóveis de luxo em boas condições no mercado irlandês, disse Grant. Isso não surpreende, por se tratar de um país muito pequeno. A República da Irlanda tem aproximadamente o tamanho do Estado de Virgínia Ocidental. "Em um ano pode haver 10 disponíveis", ela acrescentou. "Mas após quatro ou cinco anos de estagnação absoluta no mercado, os preços caíram para um nível considerado um bom valor, a economia está estabilizando e, de repente, há compradores estrangeiros notando a Irlanda."
Por quase um ano as vendas estão aumentando. "Vários imóveis de luxo foram colocados à venda", disse Grant. Alguns proprietários já estavam em liquidação judicial. Outros proprietários estão sob pressão para quitação de empréstimos bancários. E, é claro, ocorreram vendas privadas por parte de proprietários atingidos duramente pelo colapso da economia ou querendo cortar despesas.
Os preços de imóveis históricos variam muito e, assim como toda venda de imóveis, a localização importa. Há uma grande diferença entre o preço de uma mansão próxima de Dublin, ou uma em County Cork, com vista para a costa, e uma mansão na zona rural de County Offaly, disse Grant.
E locais fora do caminho batido, longe tanto do Aeroporto Shannon, em County Clare, ou do Aeroporto de Dublin, podem certamente apresentar valor intermediário e potencial de valorização. Também é difícil comparar uma propriedade com outra para se ter um senso de custos comparáveis de mercado. Há muitas variáveis, do estado da própria casa à proximidade das principais estradas.
Saber quanta margem de negociação há no preço é crucial. "Dá para negociar duramente no preço, se você estiver comprando de um banco tentando ativamente se livrar de um problema", disse McMahon.
A manutenção dos imóveis também pode ser desanimadora. Imóveis residenciais históricos frequentemente são acompanhados de obrigações legais. Se um imóvel for categorizado como protegido ou de "importância nacional", o dono será obrigado a mantê-lo e não deixá-lo ficar em mau estado.
"Os irlandeses-americanos que vêm à procura de castelos para comprar passam dois ou três dias adoráveis percorrendo o interior e viajando pela Irlanda, mas então percebem a situação", disse Roseanne De Vere Hunt, chefe de imóveis residenciais e de campo da Ganly Walters, em Dublin. "Essas propriedades históricas exigem muita reforma e manutenção constante."
Para muitos compradores, vale a pena a estes preços baixos. Casas de campo que eram vendidas por 3 milhões de euros ou 4 milhões de euros no pico do mercado estão disponíveis por 1 milhão de euros ou menos agora, disse Jim Clery, um sócio da KPMG Ireland e chefe de seu departamento imobiliário. "Os compradores sabem de antemão que precisam considerar as despesas de manutenção desses lugares, em termos de reparos, jardins e tudo mais. E compram tendo em vista a proximidade de boas estradas e de uma bom vilarejo."
Há outros custos nominais que acompanham a compra de uma casa na Irlanda. O governo cobra um imposto sobre a compra de qualquer imóvel residencial. Para imóveis com valor até 1 milhão de euros, o imposto é de 1% do valor. Para imóveis acima de 1 milhão de euros, a taxa de 1% se aplica ao primeiro milhão de euros, e uma taxa de 2% se aplica sobre o restante.
O processo de compra é fácil. Na Irlanda, assim como nos Estados Unidos, os corretores de imóveis ganham cobrando uma comissão do vendedor, não do comprador.
Sem cidadania irlandesa, os americanos precisam se registrar junto às autoridades irlandeses se desejarem uma estadia mais longa do que três meses e receber o que é chamado de "permissão de estadia". Assim que é concedida, a permissão autoriza uma estadia de até 1 ano. Ela é renovável a cada ano. Após cinco anos, uma única autorização para os próximos cinco anos é concedida, e após 10 anos, geralmente é concedida uma permissão para estadia permanente.
O custo de vida na Irlanda não é barato e morar em um velho castelo com correntes de ar pode esgotar o orçamento mensal rapidamente. Segundo o Numbeo, um banco de dados online de informações dadas pelos usuários sobre o custo de vida em cidades por todo o mundo, os preços em Dublin são 11,5% mais altos do que em Nova York. A "International Living" avalia o custo de vida em geral na Irlanda como sendo 17% mais caro que a média da União Europeia. Para países que usam o euro como moeda, apenas a Finlândia e Luxemburgo são mais caros, segundo uma reportagem recente.
No lado positivo, os custos com reforma estão substancialmente mais baixos do que durante o período do Tigre Celta. Isso porque há muitos empreiteiros que querem trabalhar e a mão-de-obra é mais barata, disse Clery.
Ainda pode haver casas históricas fora do radar, disse Grant. Os imóveis frequentemente trocam de mão de modo rápido e privado. "Existem casas por aí em boas condições por um bom preço, mas é preciso saber o que está procurando e ser paciente", ela disse. "Tudo se resume ao momento oportuno."

Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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