Philippe Bernard - Le Monde
"Não deixem o governo brincar de médico!" Essa mensagem criticando a lei Obama sobre o sistema de saúde fecha um vídeo que estourou na internet em setembro. Um Tio Sam ameaçador, representando a intrusão do Estado, surgia entre as pernas de uma mulher em pleno exame ginecológico. No mesmo momento, um tweet alarmante – "Obamacare é um desastre" – se espalhava pelas redes sociais, enquanto deputados em dificuldades em suas circunscrições recebiam alertas ligados aos seus posicionamentos sobre o sistema de saúde.
As agências ("Freedom partners", "Generation opportunity", "Heritage")
responsáveis por essas campanhas têm um ponto em comum: elas são generosamente
subvencionadas pelos irmãos Charles e David Koch, de 77 e 73 anos, que colocaram
suas riquezas – US$ 36 bilhões (R$ 77 bilhões) cada um, ou seja, a quarta maior
fortuna norte-americana de acordo com a revista "Forbes" – a serviço da obsessão
deles: desestabilizar o "socialista" Barack Obama. Há meses, esse mundo de
fundações, círculos de reflexão e outras entidades "sem fins lucrativos",
dedicado a suas ideias de extrema direita, concebeu, organizou e roteirizou a
crise orçamentária que vem abalando os Estados Unidos.
A ideia era dar um golpe fatal na desprezada lei "Obamacare", levando os parlamentares republicanos a aproveitarem uma concomitância excepcional entre o início do ano orçamentário, a entrada em vigor da lei sobre o sistema de saúde, no dia 1º de outubro, e a data limite para elevar o teto da dívida, 17 de outubro. A chantagem era simples: nada de votação do orçamento, nada de elevação do teto da dívida enquanto não fosse adiado para o Dia de São Nunca o "Obamacare".
Antes mesmo que na quarta-feira (16) essa estratégia caísse com a adoção por parte do Congresso de um acordo orçamentário, os irmãos Koch saltaram do trem em movimento que eles mesmos jogaram contra a parede. Em uma carta aberta, dirigida ao Senado na quinta-feira (10), eles se distanciaram da chantagem do "shutdown", o fechamento do governo federal. Foi uma iniciativa muito incomum para industriais cuja lendária discrição sempre foi proporcional à sua considerável influência.
Esse recuo tático é sinal da preocupação de empresários diante de uma tragédia financeira anunciada. Esses industriais-ideólogos do longo prazo provavelmente se retiraram para atacarem depois. Afinal, os grãos que eles semearam nos anos 1980 só germinaram três décadas depois, com o nome de Tea Party.
Serviços sociais e impostos mínimos, rejeição a qualquer intervenção do Estado na economia. A partir desses "pilares", David e Charles Koch já nos anos 1980 construíram um incrível programa "libertário": fim do FBI, da CIA, do imposto de renda e das pensões públicas de aposentadoria; legalização da prostituição e das drogas.
Mas o legado não foi somente ideológico: Fred Koch deixou para seus filhos, engenheiros formados no MIT de Boston, a empresa petroleira que ele fundou em Wichita (Kansas). A "Koch Industries" teve durante três décadas uma expansão fenomenal.
Charles e David Koch possuem 6.000 quilômetros de oleodutos e uma capacidade de refinação equivalente a 5% do consumo americano diário. O conglomerado industrial (84% pertence a eles) e que emprega 60 mil funcionários também engloba uma infinidade de atividades que vão desde papel-toalha até fibra Lycra, passando por vidros de automóveis.
Os irmãos Koch doaram milhões de dólares a prestigiosas instituições culturais (teatros, museus), bem como a centros de combate ao câncer, sendo que suas usinas produzem materiais cancerígenos. Eles financiam uma miríade de pontos de influência que militam por "menos Estado" e são especializados, por interesse industrial, no combate a qualquer regulamentação ambiental e na negação do aquecimento global.
A fundação Americans for Prosperity, centro nevrálgico desse "Kochtopus" ("octopus [polvo, em inglês] Koch"), foi a idealizadora da vitória dos extremistas do Tea Party nas eleições parlamentares de novembro de 2010, proliferando as manobras de desestabilização de deputados republicanos rebeldes, fabricando falsos movimentos de cidadãos e inundando a mídia com intervenções agressivas, estudos e pesquisas tendenciosas.
O fracasso nas eleições presidenciais de 2012 com Mitt Romney, candidato no qual os irmãos Koch haviam investido dezenas de milhões de dólares, mostrou a limitação de sua influência. Mas, por trás da última ofensiva, que acaba de levar os Estados Unidos à beira do abismo, confirma a continuidade de uma guerra de milhões de dólares contra Barack Obama.
Tradutor: UOL
A ideia era dar um golpe fatal na desprezada lei "Obamacare", levando os parlamentares republicanos a aproveitarem uma concomitância excepcional entre o início do ano orçamentário, a entrada em vigor da lei sobre o sistema de saúde, no dia 1º de outubro, e a data limite para elevar o teto da dívida, 17 de outubro. A chantagem era simples: nada de votação do orçamento, nada de elevação do teto da dívida enquanto não fosse adiado para o Dia de São Nunca o "Obamacare".
Antes mesmo que na quarta-feira (16) essa estratégia caísse com a adoção por parte do Congresso de um acordo orçamentário, os irmãos Koch saltaram do trem em movimento que eles mesmos jogaram contra a parede. Em uma carta aberta, dirigida ao Senado na quinta-feira (10), eles se distanciaram da chantagem do "shutdown", o fechamento do governo federal. Foi uma iniciativa muito incomum para industriais cuja lendária discrição sempre foi proporcional à sua considerável influência.
Esse recuo tático é sinal da preocupação de empresários diante de uma tragédia financeira anunciada. Esses industriais-ideólogos do longo prazo provavelmente se retiraram para atacarem depois. Afinal, os grãos que eles semearam nos anos 1980 só germinaram três décadas depois, com o nome de Tea Party.
Serviços sociais e impostos mínimos, rejeição a qualquer intervenção do Estado na economia. A partir desses "pilares", David e Charles Koch já nos anos 1980 construíram um incrível programa "libertário": fim do FBI, da CIA, do imposto de renda e das pensões públicas de aposentadoria; legalização da prostituição e das drogas.
O "polvo" Koch
Essas ideias eles herdaram de seu pai, Fred, um filho de imigrante holandês que se exilou por um tempo na União Soviética e se tornou um anticomunista fanático. Nos anos 1950, o Koch pai via no auxílio social um complô destinado a atrair negros para a cidade para que eles fomentassem uma guerra racial. Em 2008, os Koch filhos viram na eleição de Barack Obama "a maior perda de liberdade e de prosperidade desde os anos 1930".Mas o legado não foi somente ideológico: Fred Koch deixou para seus filhos, engenheiros formados no MIT de Boston, a empresa petroleira que ele fundou em Wichita (Kansas). A "Koch Industries" teve durante três décadas uma expansão fenomenal.
Charles e David Koch possuem 6.000 quilômetros de oleodutos e uma capacidade de refinação equivalente a 5% do consumo americano diário. O conglomerado industrial (84% pertence a eles) e que emprega 60 mil funcionários também engloba uma infinidade de atividades que vão desde papel-toalha até fibra Lycra, passando por vidros de automóveis.
Os irmãos Koch doaram milhões de dólares a prestigiosas instituições culturais (teatros, museus), bem como a centros de combate ao câncer, sendo que suas usinas produzem materiais cancerígenos. Eles financiam uma miríade de pontos de influência que militam por "menos Estado" e são especializados, por interesse industrial, no combate a qualquer regulamentação ambiental e na negação do aquecimento global.
A fundação Americans for Prosperity, centro nevrálgico desse "Kochtopus" ("octopus [polvo, em inglês] Koch"), foi a idealizadora da vitória dos extremistas do Tea Party nas eleições parlamentares de novembro de 2010, proliferando as manobras de desestabilização de deputados republicanos rebeldes, fabricando falsos movimentos de cidadãos e inundando a mídia com intervenções agressivas, estudos e pesquisas tendenciosas.
O fracasso nas eleições presidenciais de 2012 com Mitt Romney, candidato no qual os irmãos Koch haviam investido dezenas de milhões de dólares, mostrou a limitação de sua influência. Mas, por trás da última ofensiva, que acaba de levar os Estados Unidos à beira do abismo, confirma a continuidade de uma guerra de milhões de dólares contra Barack Obama.
Tradutor: UOL
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