Augusto Nunes - VEJA
Chico Buarque rendeu-se à verdade e pediu desculpas a Paulo César Araújo por
ter afirmado que nunca vira de perto o biógrafo com quem conversou durante
quatro horas. Mas aproveitou a retratação para deixar claro que continua
decidido a combater o mau combate. O pretexto para o recomeço dos socos na
verdade e pontapés na sensatez foi a inclusão num dos livros de Araújo de
declarações atribuídas a Chico na edição paulista da Última Hora de 28
de junho de 1970. Confiram a versão do grande compositor:
“Eu não falaria com a Última Hora (de São Paulo) de 1970, que era um jornal policial supostamente ligado a esquadrões da morte. Eu não daria entrevista a um jornal desses, muito menos para criticar a postura política de Caetano e Gil, que estavam no exílio. Mas o biógrafo não hesitou em reproduzi-la em seu livro, sem se dar ao trabalho de conferi-la comigo. (…) Não, Paulo Cesar Araújo, eu não falava com repórteres da Última Hora em 1970. Para sua informação, a entrevista que dei ao Mario Prata em 1974 foi para a Última Hora de Samuel Wainer, então diretor de redação, que evidentemente nada tinha a ver com a Última Hora de 1970″.
Tinha tudo a ver, saberia Chico Buarque se tivesse lido (ou não tivesse lido e esquecido) Minha Razão de Viver, o livro de memórias de Samuel Wainer, lançado em 1987, que me coube organizar. Até 1972, quando vendeu a empresários cariocas o que restava da empresa nascida nos anos 50, Wainer foi o dono da marca Última Hora — que refletiu a cara e a alma do fundador enquanto esteve em circulação, mesmo nas edições regionais que já não lhe pertenciam.
Repassada ao controle do grupo Folhas, por exemplo, a edição paulista se manteve essencialmente a mesma. Se tivesse sido desonrada pela cumplicidade com esquadrões da morte, o ex-proprietário não aceitaria o convite para reassumir, agora como assalariado, o comando do jornal que inventou. “Entre maio de 1973 e janeiro de 1975, numa comovente demonstração de humildade, ele foi redator-chefe da Última Hora paulista, então sob o controle do grupo Folhas”, informa na página 365 o epílogo da autobiografia.
É possível que Araújo tenha errado a data da publicação da entrevista. Se foi assim, deve corrigir um equívoco que não prejudica a reputação nem invade a privacidade de ninguém. Chico Buarque fez pior: errou de jornal. Confundiu a Última Hora com a Folha da Tarde, pertencente ao mesmo grupo, que cultivou no começo dos anos 70 ligações promíscuas com torturadores a serviço do regime militar.
No artigo publicado no Globo desta terça-feira, desmontado pela réplica de Araújo, Chico nem procurou restringir à edição paulista o chumbo grosso despejado sobre o órgão de imprensa que foi a razão de viver de Samuel Wainer. “Eu teria criticado Caetano e Gil, então no exílio, por denegrirem a imagem do país no exterior”, escreveu. ” (…) As fontes do biógrafo e pesquisador eram a Última Hora, na época ligada aos porões da ditadura”.
Por ter enxergado no jornal destruído pela ditadura um comparsa de assassinos e parceiro de torturadores, Chico deve mais que uma correção. Deve outro pedido de desculpas, agora endereçado aos familiares de Wainer. Talvez deva também tranquilizar tanto seus desafetos quanto os admiradores com a promessa registrada em cartório: jamais tentará escrever uma biografia.
Se fizer isso, aí sim o biografado terá motivos para sentir-se em perigo.
“Eu não falaria com a Última Hora (de São Paulo) de 1970, que era um jornal policial supostamente ligado a esquadrões da morte. Eu não daria entrevista a um jornal desses, muito menos para criticar a postura política de Caetano e Gil, que estavam no exílio. Mas o biógrafo não hesitou em reproduzi-la em seu livro, sem se dar ao trabalho de conferi-la comigo. (…) Não, Paulo Cesar Araújo, eu não falava com repórteres da Última Hora em 1970. Para sua informação, a entrevista que dei ao Mario Prata em 1974 foi para a Última Hora de Samuel Wainer, então diretor de redação, que evidentemente nada tinha a ver com a Última Hora de 1970″.
Tinha tudo a ver, saberia Chico Buarque se tivesse lido (ou não tivesse lido e esquecido) Minha Razão de Viver, o livro de memórias de Samuel Wainer, lançado em 1987, que me coube organizar. Até 1972, quando vendeu a empresários cariocas o que restava da empresa nascida nos anos 50, Wainer foi o dono da marca Última Hora — que refletiu a cara e a alma do fundador enquanto esteve em circulação, mesmo nas edições regionais que já não lhe pertenciam.
Repassada ao controle do grupo Folhas, por exemplo, a edição paulista se manteve essencialmente a mesma. Se tivesse sido desonrada pela cumplicidade com esquadrões da morte, o ex-proprietário não aceitaria o convite para reassumir, agora como assalariado, o comando do jornal que inventou. “Entre maio de 1973 e janeiro de 1975, numa comovente demonstração de humildade, ele foi redator-chefe da Última Hora paulista, então sob o controle do grupo Folhas”, informa na página 365 o epílogo da autobiografia.
É possível que Araújo tenha errado a data da publicação da entrevista. Se foi assim, deve corrigir um equívoco que não prejudica a reputação nem invade a privacidade de ninguém. Chico Buarque fez pior: errou de jornal. Confundiu a Última Hora com a Folha da Tarde, pertencente ao mesmo grupo, que cultivou no começo dos anos 70 ligações promíscuas com torturadores a serviço do regime militar.
No artigo publicado no Globo desta terça-feira, desmontado pela réplica de Araújo, Chico nem procurou restringir à edição paulista o chumbo grosso despejado sobre o órgão de imprensa que foi a razão de viver de Samuel Wainer. “Eu teria criticado Caetano e Gil, então no exílio, por denegrirem a imagem do país no exterior”, escreveu. ” (…) As fontes do biógrafo e pesquisador eram a Última Hora, na época ligada aos porões da ditadura”.
Por ter enxergado no jornal destruído pela ditadura um comparsa de assassinos e parceiro de torturadores, Chico deve mais que uma correção. Deve outro pedido de desculpas, agora endereçado aos familiares de Wainer. Talvez deva também tranquilizar tanto seus desafetos quanto os admiradores com a promessa registrada em cartório: jamais tentará escrever uma biografia.
Se fizer isso, aí sim o biografado terá motivos para sentir-se em perigo.
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