Keith Bradsher - NYT
No norte da China, perto da fronteira com a Mongólia, vazamentos radioativos de duas décadas de refino de terras raras lentamente se infiltram no solo, na direção do Rio Amarelo, uma fonte crucial de água para 150 milhões de pessoas.
No norte da China, perto da fronteira com a Mongólia, vazamentos radioativos de duas décadas de refino de terras raras lentamente se infiltram no solo, na direção do Rio Amarelo, uma fonte crucial de água para 150 milhões de pessoas.
Na província de Jiangxi, no centro-sul da China, o governo nacional assumiu o controle dos distritos de mineração de terras raras no lugar das autoridades provinciais, após descobrirem ampla exploração ilegal de metais de terras raras.
E na província de Guangdong, no sudeste da China, reguladores estão lutando para reparar as plantações de arroz e riachos destruídos pelos ácidos poderosos e outros escoamentos das minas a céu aberto de terras raras, que frequentemente são controladas por organizações criminosas violentas.
Comunidades por toda a China enfrentam danos ambientais pesados acumulados ao longo de duas décadas de mineração e refino quase não regulados de terras raras. Apesar do governo chinês ter começado a gastar bilhões de dólares para limpeza do estrago, o impacto ambiental está se transformando em uma questão comercial internacional, com a previsão de um painel da Organização Mundial do Comércio em Genebra de divulgar a prévia de um relatório crucial na quarta-feira.
A China, a maior produtora de metais de terras raras do mundo, impôs discreta e unilateralmente impostos e cotas anuais às suas exportações de terras raras há sete anos. Ela então elevou gradualmente as taxas e reduziu as cotas nos anos subsequentes, lentamente estrangulando a oferta para o setor manufatureiro estrangeiro.
Os chineses argumentam que as restrições às exportações são necessárias para proteger seu meio ambiente. Os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão contestaram as taxas e cotas da China junto à Organização Mundial do Comércio. Eles notam que a China fez pouco para limitar o consumo interno de terras raras.
O caso das terras raras "será um marco tanto em termos de restrições às exportações quanto do meio ambiente", disse James Bacchus, o ex-presidente por dois mandatos do tribunal de apelação da OMC, em Genebra.
A China disponibilizou ampla oferta aos fabricantes dentro da China que produzem componentes cruciais para uma série de produtos, como notebooks, lâmpadas fluorescentes compactas, turbinas eólicas e carros elétricos. Algumas empresas ocidentais e japonesas mudaram suas fábricas para a China para assegurarem o acesso às terras raras.
O painel da OMC enfrenta algumas das questões mais difíceis no comércio internacional. Os ambientalistas desconfiam da organização do comércio desde que seu antecessor, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), rejeitou uma proibição americana no início dos anos 90 à importação de atum pescado de modo perigoso aos golfinhos.
Mais recentemente, um terço dos países do mundo começou a impor restrições às exportações, principalmente para impedir comida de ser exportada e assim manter os preços baixos. Como resultado, há uma longa lista de países que entraram com ação na OMC, expressando interesse no caso de terras raras.
Mas chegando três anos após a tempestade internacional em torno do comércio das terras raras e 19 meses após a ação na OMC ter sido de fato impetrada, a decisão poderá não fazer muita diferença para o setor de terras raras em si, disseram executivos da indústria e autoridades– apesar do caso ter tido o efeito não pretendido de incentivar a China a uma enorme limpeza ambiental.
As restrições chinesas às exportações se tornaram menos importantes nos últimos anos por dois motivos. Minas alternativas de terras raras entraram em produção nos Estados Unidos e na Austrália, reduzindo a participação da China na produção global para 85% em comparação a 95% três anos atrás. E as empresas se tornaram muito mais eficientes na economia de terras raras, especialmente nas mais caras, as chamadas terras raras pesadas como o disprósio.
A mudança é visível no depósito de fornecimento aqui de uma das poucas fábricas do mundo que produz pós de terras raras para uso em ímãs muito poderosos. Seja em smartphones ou mísseis, as aplicações mais avançadas de terras raras tendem a envolver a manufatura de componentes em miniatura, mas cruciais, utilizando as qualidades magnéticas poderosas das terras raras.
O complexo de terras raras aqui em Tianjin é de propriedade da Molycorp, uma empresa americana, apesar da fábrica comprar suas terras raras já processadas de refinarias chinesas. O depósito conta com pilhas bem arranjadas de tonéis de terras raras. Os tonéis azuis contendo neodímio, outra terra rara altamente magnética, têm apenas 60 centímetros de altura pouco mais de 30 centímetros de diâmetro, mas pesam mais de 250 quilos por causa da densidade extraordinária do material.
Situado sobre um palete de madeira se encontra uma única lata cinza de disprósio, uma terra rara que é vendida por US$ 535 o quilo. Os preços do disprósio chegaram US$ 2.498 por quilo há dois anos, em uma bolha especulativa após a imposição de um embargo não anunciado pela China ao envio de terras raras ao Japão de setembro a novembro de 2010, durante uma disputa territorial.
Essa alta dos preços levou as empresas a economizarem no uso de terras raras. A Molycorp agora mistura metade da quantidade de disprósio aos seus pós magnéticos do que misturava há um ano. Muitos de seus clientes decidiram que seus ímãs não precisam de disprósio, que é adicionado em pequenas quantidades para ajudar os ímãs de terras raras a manterem seu magnetismo em temperaturas acima do ponto de fervura da água.
"As pessoas em Sichuan acham que morreriam sem suas pimentas, mas elas podem viver sem elas", disse Chen Kerong, o diretor de produção da fábrica da Molycorp daqui. "As pessoas adoram o disprósio, mas também podem viver sem ele."
A indústria global de petróleo começou igualmente a usar menos lantânio, outra terra rara, durante o refino de petróleo. Apenas 1,5% das fórmulas mais recentes de catalisadores para refino de petróleo atualmente é de lantânio, em comparação a 4% a 5% três anos atrás.
Mas o caso na Organização Mundial do Comércio parece já ter feito uma diferença ao provocar uma ampla limpeza ambiental. Em um estudo divulgado em junho do ano passado, o Gabinete da China descreveu extensamente os danos ambientais causados pelo setor de terras raras, um reconhecimento que apesar de embaraçoso para Pequim, pode ter contribuído para seu caso na OMC de que a indústria de terras raras é um negócio sujo, para o qual as restrições às exportações são justificadas.
"A mineração excessiva de terras raras resultou em deslizamentos de terra, rios obstruídos, emergências de poluição ambiental e até mesmo grandes acidentes e desastres, causando grandes danos à segurança e saúde das pessoas e do meio ambiente", disse o estudo.
As autoridades chinesas negaram repetidas vezes que sua preocupação recente com as consequências ambientais da exploração de terras raras é movida pelo desejo de evitar uma derrota na OMC, apesar da limpeza poder contribuir para isso.
O painel da OMC enviará seu relatório preliminar confidencial na quarta-feira para a China e para os países que impetraram o caso, que então poderão sugerir mudanças antes que a decisão final seja tomada em 21 de novembro.
Quem quer que perca na decisão provavelmente apelará junto ao órgão de apelação da organização –dois terços das decisões são apeladas, e às vezes até mesmo os vencedores apelam para obtenção de veredictos com termos melhores. Cada parte tem seis semanas para decidir se apela ou não após a publicação da decisão em meados de dezembro, e então o órgão de apelação tem mais três meses para decidir.
As apostas de grande parte da indústria de terras raras e entre os advogados de comércio internacional é de que a China perderá o caso na OMC e acatará removendo as cotas de exportação e as taxas de exportação. Mas essas mudanças não farão grande diferença, porque a China passou os últimos anos forçando fusões para que 99% das terras raras exploradas legalmente do país sejam produzidas por apenas 10 empresas, todas com graus diversos de controle estatal.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
E na província de Guangdong, no sudeste da China, reguladores estão lutando para reparar as plantações de arroz e riachos destruídos pelos ácidos poderosos e outros escoamentos das minas a céu aberto de terras raras, que frequentemente são controladas por organizações criminosas violentas.
Comunidades por toda a China enfrentam danos ambientais pesados acumulados ao longo de duas décadas de mineração e refino quase não regulados de terras raras. Apesar do governo chinês ter começado a gastar bilhões de dólares para limpeza do estrago, o impacto ambiental está se transformando em uma questão comercial internacional, com a previsão de um painel da Organização Mundial do Comércio em Genebra de divulgar a prévia de um relatório crucial na quarta-feira.
A China, a maior produtora de metais de terras raras do mundo, impôs discreta e unilateralmente impostos e cotas anuais às suas exportações de terras raras há sete anos. Ela então elevou gradualmente as taxas e reduziu as cotas nos anos subsequentes, lentamente estrangulando a oferta para o setor manufatureiro estrangeiro.
Os chineses argumentam que as restrições às exportações são necessárias para proteger seu meio ambiente. Os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão contestaram as taxas e cotas da China junto à Organização Mundial do Comércio. Eles notam que a China fez pouco para limitar o consumo interno de terras raras.
O caso das terras raras "será um marco tanto em termos de restrições às exportações quanto do meio ambiente", disse James Bacchus, o ex-presidente por dois mandatos do tribunal de apelação da OMC, em Genebra.
A China disponibilizou ampla oferta aos fabricantes dentro da China que produzem componentes cruciais para uma série de produtos, como notebooks, lâmpadas fluorescentes compactas, turbinas eólicas e carros elétricos. Algumas empresas ocidentais e japonesas mudaram suas fábricas para a China para assegurarem o acesso às terras raras.
O painel da OMC enfrenta algumas das questões mais difíceis no comércio internacional. Os ambientalistas desconfiam da organização do comércio desde que seu antecessor, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), rejeitou uma proibição americana no início dos anos 90 à importação de atum pescado de modo perigoso aos golfinhos.
Mais recentemente, um terço dos países do mundo começou a impor restrições às exportações, principalmente para impedir comida de ser exportada e assim manter os preços baixos. Como resultado, há uma longa lista de países que entraram com ação na OMC, expressando interesse no caso de terras raras.
Mas chegando três anos após a tempestade internacional em torno do comércio das terras raras e 19 meses após a ação na OMC ter sido de fato impetrada, a decisão poderá não fazer muita diferença para o setor de terras raras em si, disseram executivos da indústria e autoridades– apesar do caso ter tido o efeito não pretendido de incentivar a China a uma enorme limpeza ambiental.
As restrições chinesas às exportações se tornaram menos importantes nos últimos anos por dois motivos. Minas alternativas de terras raras entraram em produção nos Estados Unidos e na Austrália, reduzindo a participação da China na produção global para 85% em comparação a 95% três anos atrás. E as empresas se tornaram muito mais eficientes na economia de terras raras, especialmente nas mais caras, as chamadas terras raras pesadas como o disprósio.
A mudança é visível no depósito de fornecimento aqui de uma das poucas fábricas do mundo que produz pós de terras raras para uso em ímãs muito poderosos. Seja em smartphones ou mísseis, as aplicações mais avançadas de terras raras tendem a envolver a manufatura de componentes em miniatura, mas cruciais, utilizando as qualidades magnéticas poderosas das terras raras.
O complexo de terras raras aqui em Tianjin é de propriedade da Molycorp, uma empresa americana, apesar da fábrica comprar suas terras raras já processadas de refinarias chinesas. O depósito conta com pilhas bem arranjadas de tonéis de terras raras. Os tonéis azuis contendo neodímio, outra terra rara altamente magnética, têm apenas 60 centímetros de altura pouco mais de 30 centímetros de diâmetro, mas pesam mais de 250 quilos por causa da densidade extraordinária do material.
Situado sobre um palete de madeira se encontra uma única lata cinza de disprósio, uma terra rara que é vendida por US$ 535 o quilo. Os preços do disprósio chegaram US$ 2.498 por quilo há dois anos, em uma bolha especulativa após a imposição de um embargo não anunciado pela China ao envio de terras raras ao Japão de setembro a novembro de 2010, durante uma disputa territorial.
Essa alta dos preços levou as empresas a economizarem no uso de terras raras. A Molycorp agora mistura metade da quantidade de disprósio aos seus pós magnéticos do que misturava há um ano. Muitos de seus clientes decidiram que seus ímãs não precisam de disprósio, que é adicionado em pequenas quantidades para ajudar os ímãs de terras raras a manterem seu magnetismo em temperaturas acima do ponto de fervura da água.
"As pessoas em Sichuan acham que morreriam sem suas pimentas, mas elas podem viver sem elas", disse Chen Kerong, o diretor de produção da fábrica da Molycorp daqui. "As pessoas adoram o disprósio, mas também podem viver sem ele."
A indústria global de petróleo começou igualmente a usar menos lantânio, outra terra rara, durante o refino de petróleo. Apenas 1,5% das fórmulas mais recentes de catalisadores para refino de petróleo atualmente é de lantânio, em comparação a 4% a 5% três anos atrás.
Mas o caso na Organização Mundial do Comércio parece já ter feito uma diferença ao provocar uma ampla limpeza ambiental. Em um estudo divulgado em junho do ano passado, o Gabinete da China descreveu extensamente os danos ambientais causados pelo setor de terras raras, um reconhecimento que apesar de embaraçoso para Pequim, pode ter contribuído para seu caso na OMC de que a indústria de terras raras é um negócio sujo, para o qual as restrições às exportações são justificadas.
"A mineração excessiva de terras raras resultou em deslizamentos de terra, rios obstruídos, emergências de poluição ambiental e até mesmo grandes acidentes e desastres, causando grandes danos à segurança e saúde das pessoas e do meio ambiente", disse o estudo.
As autoridades chinesas negaram repetidas vezes que sua preocupação recente com as consequências ambientais da exploração de terras raras é movida pelo desejo de evitar uma derrota na OMC, apesar da limpeza poder contribuir para isso.
O painel da OMC enviará seu relatório preliminar confidencial na quarta-feira para a China e para os países que impetraram o caso, que então poderão sugerir mudanças antes que a decisão final seja tomada em 21 de novembro.
Quem quer que perca na decisão provavelmente apelará junto ao órgão de apelação da organização –dois terços das decisões são apeladas, e às vezes até mesmo os vencedores apelam para obtenção de veredictos com termos melhores. Cada parte tem seis semanas para decidir se apela ou não após a publicação da decisão em meados de dezembro, e então o órgão de apelação tem mais três meses para decidir.
As apostas de grande parte da indústria de terras raras e entre os advogados de comércio internacional é de que a China perderá o caso na OMC e acatará removendo as cotas de exportação e as taxas de exportação. Mas essas mudanças não farão grande diferença, porque a China passou os últimos anos forçando fusões para que 99% das terras raras exploradas legalmente do país sejam produzidas por apenas 10 empresas, todas com graus diversos de controle estatal.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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