quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Conflito sobre orçamento dos EUA coloca China em risco
Marc Hujer e Daniel Sander - NYT
17.out.2013 - Saul Loeb/AFP

O presidente dos EUA, Barack Obama, discursa sobre a retomada das atividades dos servidores federais após 16 dias de paralisação
O presidente dos EUA, Barack Obama, discursa sobre a retomada das atividades dos servidores federais após 16 dias de paralisação
O mundo todo acompanhou enquanto os Estados Unidos se embaraçavam por três semanas com o fechamento do seu governo. A China, a única outra superpotência, lucrou com a disputa doméstica, mas, na condição de maior credora de Washington, ela também tem motivos para se preocupar.
Pouco antes das 11h da manhã da última quarta-feira, uma recém-coroada Miss Estados Unidos anunciou sua presença na Casa Branca pelo Twitter. Na época, a maioria dos políticos americanos não tinha nada em suas mentes exceto o conflito do orçamento do país, com democratas e republicanos no Congresso incapazes de concordar a respeito de um novo limite para a dívida nacional por quase três semanas.
Então, na quarta-feira, o Congresso deu início a uma rodada decisiva de votação para salvar o país e a economia global.
Enquanto comentaristas de TV aguardavam febrilmente pelos resultados da votação no Congresso, a Miss Estados Unidos deste ano, Nina Davuluri, de 24 anos, tuitou: "Hoje tive o prazer de conversar com o presidente @BarackObama no Escritório Oval!", escreveu. "O presidente Barack Obama parece estar em modo multitarefa", brincou o canal de notícias "CNN" sobre o presidente simultaneamente conduzir o país em meio à crise do orçamento e encontrar tempo para conversar com a bela nativa Davuluri.
Nas semanas anteriores, entretanto, Obama parecia ter dificuldade em atuar de modo multitarefa, cancelando reuniões com vários aliados e investidores importantes e influentes, até mesmo cancelando uma viagem à Ásia durante a qual planejava se encontrar com o presidente chinês Xi Jinping.

Embaraço global

Os Estados Unidos se embaraçaram no palco global quando os membros republicanos do Congresso bloquearam a reforma da saúde do presidente Obama, também conhecida como "Obamacare", ao recusarem a aprovar um aumento no limite da dívida do país, necessário para financiar a reforma. Isso forçou o governo a fechar sua administração, obrigando 800 mil funcionários públicos a entrarem em licença não remunerada obrigatória, o que representou os Estados Unidos infligirem voluntariamente um dano a si mesmos. Os adversários políticos não conseguiram chegar a um acordo até a última quarta-feira –e mesmo assim um temporário– sob enorme pressão e no último minuto. É assim que uma superpotência se comporta?
Essas semanas nas quais os Estados Unidos temeram por sua solvência financeira mostraram quão vulnerável o país está. Mas ao mesmo tempo, o episódio mostrou a força americana. Nenhum outro país poderia se dar ao luxo de se envolver em tamanho drama sem ser punido pelos mercados financeiros, credores e parceiros comerciais.
Mas os Estados Unidos podem realmente se dar a esse luxo? A agência de classificação de risco Standard & Poor's calculou que o fechamento infligiu danos econômicos no valor de US$ 24 bilhões. Mas o verdadeiro dano aqui é de natureza política, com a China, a outra superpotência do mundo, que agora expressa abertamente suas dúvidas a respeito dos Estados Unidos.

'Um mundo desamericanizado'

Em um comentário publicado na semana passada pela agência de notícias estatal chinesa "Xinhua", o comentarista Liu Chang escreveu: "Enquanto políticos americanos de ambos os partidos vêm e vão entre a Casa Branca e o Capitólio sem chegar a um acordo viável para trazer normalidade ao corpo político do qual se gabam, talvez seja um bom momento para o mundo perplexo começar a considerar a construção de um mundo desamericanizado".
A criação desse mundo pede por "várias pedras angulares", prosseguiu o comentário, entre eles todos os países aderirem aos "princípios básicos da lei internacional" e reconhecerem a autoridade internacional da ONU. "Isso significa que ninguém tem o direito de lançar qualquer forma de ação militar contra os outros sem um mandato da ONU", escreveu a "Xinhua".
O sistema financeiro global também exigiria "algumas reformas substanciais", disse a agência de notícias. "As economias emergentes e em desenvolvimento precisam ter mais peso em importantes instituições financeiras internacionais, incluindo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional." A "Xinhua" também sugeriu "a introdução de uma nova moeda internacional de reserva, criada para substituir o domínio do dólar americano, para que a comunidade internacional possa permanecer permanentemente livre do contágio pela intensificação da turbulência política doméstica nos Estados Unidos".
Há muitos motivos para a atual autoconfiança da China, um deles representado por um grande prédio cor de granito no Nº32 da rua Chengfang, em Pequim. Ela é a sede do banco central da China, e todo mês suas contas recebem cerca de US$ 3 bilhões de Washington, os juros sobre os títulos do Tesouro americano --dívida da maior economia do mundo em posse da segunda maior.
O governo chinês está sentado sobre uma montanha de dinheiro, como nada visto antes. Suas reservas de moeda estrangeira totalizavam US$ 3,66 trilhões no final de setembro, US$ 163 bilhões a mais do que em junho. Mais dois trimestres de crescimento inexorável fariam esse número chegar quase à marca de US$ 4 trilhões.

China atrai dinheiro mais rápido que nunca

E enquanto Washington evitava arduamente a falência nacional na semana passada, Pequim quebrava outro recorde financeiro quando a moeda chinesa, o yuan, atingiu seu valor mais alto frente ao dólar desde 1993. Apesar dos investidores estarem se retirando da maioria dos mercados emergentes, o dinheiro está fluindo para a China mais rápido que nunca.
Aproximadamente um terço das reservas de moeda estrangeira da China --até mesmo o Banco Popular da China não cita o número exato-- está investido em títulos americanos. Isso torna a China a maior credora estrangeira dos Estados Unidos, o que também representa um problema para Pequim.
A China tem emitido alertas aos Estados Unidos desde o início da recente crise do fechamento. A China está de olho no conflito em Washington, disse o primeiro-ministro Li Keqiang, que também é o mais alto especialista em política econômica do seu país. O vice-ministro das Finanças, Zhu Guangyao, acrescentou: "A longo prazo, os Estados Unidos precisam resolver seu problema da dívida, para impedir que a economia global entre em recessão".
Mesmo assim, a China ficou feliz em usar o vácuo criado pela crise americana do orçamento à sua porta. O presidente Xi esteve presente em uma das duas cúpulas na Ásia que tiveram a participação de Obama cancelada. Xi também viajou para Jacarta, onde Obama passou parte de sua infância, e à Malásia. Na viagem, Xi assinou acordos de comércio no valor de US$ 30 bilhões. Enquanto isso, o primeiro-ministro Li viajou para uma cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) em Brunei, então seguiu para a Tailândia e Vietnã.
Mas enquanto a atual fraqueza americana atua politicamente a favor da China, ela também apresenta riscos financeiros. Dificilmente uma citação individual resume tão bem o estado da política global quanto a do falecido bilionário americano J. Paul Getty: "Se você deve US$ 100 ao banco, o problema é seu. Mas se você deve ao banco US$ 100 milhões, então o problema é do banco".
Na condição de maior devedor e credor do mundo, Estados Unidos e China são mutuamente dependentes um do outro. Economistas chineses estão aconselhando seu banco central a começar a vender seus títulos americanos, antes da próxima rodada da crise americana do orçamento. O tempo é essencial, com o conflito em Washington provavelmente recomeçando em 15 de janeiro no mais tardar, quando o orçamento interino recém negociado expirar.
Mas ao vender os títulos, o banco central de Pequim também prejudicaria a si mesmo. O valor do dólar cairia, assim como a riqueza chinesa em dólares. Os dois gigantes econômicos estão inseparavelmente interligados.
No momento, parece que Washington também encontrará problemas em sua próxima rodada de negociações do orçamento. A linha de frente entre os republicanos e os democratas de Obama não mudou desde que os dois partidos a criaram. E a minoria radical de deputados do Tea Party republicano não está cedendo diante de sua recente derrota. Na verdade, está acontecendo o oposto. "A luta reanimou o movimento Tea Party, que tem quatro anos", escreveu o jornal "The Washington Post" em 17 de outubro.

Controle firme do Tea Party

Os republicanos paralisaram igualmente o governo de seu país, na época sob o presidente Bill Clinton, por 26 dias em 1995-1996, mas acabaram recuando, temendo a fúria dos eleitores. Atualmente, os deputados de direita do Tea Party não precisam temer a perda do apoio de seus eleitores. Seus distritos eleitorais foram redesenhados de tal forma nos últimos anos que perder para um adversário democrata se tornou quase impossível. No máximo, os candidatos do Tea Party só disputam com outros políticos republicanos.
O senador republicano Ted Cruz, porta-voz e arquiteto do bloqueio que durou semanas, está sendo saudado como herói por seus simpatizantes. Em uma pesquisa no conservador "Values Voter Summit" na semana passada, Cruz recebeu a maioria dos votos, levando à especulação de que poderia disputar a indicação de seu partido para a eleição presidencial de 2016.
O "Wall Street Journal" pró-negócios foi presunçoso em seu tom nas últimas semanas em sua cobertura das reações no exterior que são críticas aos Estados Unidos, assim como dos ministros de governo e diretores de bancos centrais torcendo as mãos diante da situação. O jornal escreveu sobre uma "alegria com o fechamento".
Mas os críticos também incluem os chineses. O conflito americano do orçamento serviu como um "despertar" para a China, diz o economista americano Nicholas Lardy. Lardy aconselha os chineses a "deixarem de aumentar suas reservas de moeda estrangeira". Kenneth Rogoff, o ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), descreve isto como um "chute no traseiro" para a China. A situação do orçamento americano levou a China a assinar acordos de swap de moeda com o Banco Central Europeu (BCE) mais cedo que o esperado. Esses acordos tornam o yuan internacionalmente negociável, um passo para competir com o dólar como moeda de reserva.

Poder no Pacífico

Poucos anos atrás, Obama ainda conseguiu repelir o crescente poder da China na região do Pacífico ao concentrar sua atenção nas potências econômicas emergentes da Ásia. Ele investiu muito nessa nova abordagem, enviando tropas para a Austrália, assinando novos acordos de comércio e prometendo à Malásia e Indonésia que participaria regularmente das cúpulas da ASEAN --algo que ele agora cancelou.
Com a saída de Hillary Clinton do cargo de secretária de Estado e de Tom Donilon como conselheiro de Segurança Nacional, o governo americano perdeu dois importantes defensores de um curso pró-Ásia. E agora o próprio Obama parece mais preocupado com a Primavera Árabe, a Síria e o Irã do que com o Pacífico. Em seu discurso mais recente, na Assembleia Geral da ONU, o presidente americano mencionou a Síria, Egito, Irã e Israel em um total de 68 vezes, segundo a revista "Time", mas apenas uma vez a "China".
Outro país na mesma região mal é mencionado atualmente: o Japão. O aliado americano no Pacífico está profundamente em atrito com a China, mas tem uma preocupação em comum com sua rival asiática. Seus US$ 1,1 trilhão em títulos americanos tornam Tóquio o segundo maior credor americano depois de Pequim.
No Japão, onde a revista "Newsweek" ainda conta com versão impressa, apesar de só existir no formato digital nos Estados Unidos, a capa da semana passada exibia a imagem de uma bandeira americana no lixo com a chamada: "América Arruinada - Uma Superpotência Destroi a Si Mesma".
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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