terça-feira, 15 de outubro de 2013

EUA mostram cautela enquanto esperam por novas propostas do Irã
Corine Lesnes - Le Monde                                          
Um mês atrás, durante uma recepção no Departamento de Estado, sua diretora política, Wendy Sherman, lembrava o clima surreal das conversas de Almaty (Cazaquistão) em abril, quando os diplomatas das grandes potências esperavam, sem saber se os iranianos iriam responder à última proposta deles.
Na terça-feira (15), para a abertura da nova rodada de negociações entre o Irã e o grupo P5+1 (Estados Unidos, França, Rússia, China, Reino Unido e Alemanha), em Genebra, Wendy Sherman espera encontrar uma delegação iraniana com um humor mais animador.
Desde o telefonema histórico entre o presidente norte-americano, Barack Obama, e seu colega iraniano Hassan Rohani no final de setembro, as relações entre os Estados Unidos e o Irã atingiram um estágio de tranquilidade inédito em 30 anos. Mas a administração Obama não se ilude e, se fosse o caso, o Congresso se encarregaria de repreendê-la.
Os americanos não acreditam ser necessário apresentar uma proposta nova a Genebra: "Já existe uma sendo estudada", afirmou no dia 7 de outubro a porta-voz do Departamento de Estado, referindo-se à reunião de Almaty em que se havia pedido aos iranianos que suspendessem o enriquecimento de urânio a 20% e a operação da usina subterrânea de Fordow, em troca de uma flexibilização nas sanções.
A administração Obama gostaria de ver os iranianos anunciarem em Genebra "medidas específicas" sobre as questões fundamentais que são "o ritmo e a envergadura de seu programa de enriquecimento", a "transparência" de suas atividades nucleares e dos estoques de urânio enriquecido, afirmou Sherman no dia 3 de outubro perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado.
A negociadora não respondeu às perguntas sobre as linhas vermelhas de Barack Obama. "Ele reconheceu o direito dos iranianos ao enriquecimento?", inquiriu o muito conservador senador da Flórida, Marco Rubio. "Só posso repetir o que o presidente disse: respeitamos o direito do povo iraniano de ter acesso à energia nuclear pacífica em um contexto em que o Irã respeite suas obrigações", respondeu a diplomata. Ela explicou: "Uma negociação geralmente começa com as posições maximalistas de cada um". O senador Rubio ficou chocado. "Eles estão dizendo que querem conservar a opção de permitir que o Irã mantenha sua capacidade de enriquecimento. É um péssimo sinal que estão enviando!"
A administração Obama está sendo vigiada de perto. O secretário de Estado, John Kerry, e Wendy Sherman tentaram pedir paciência aos parlamentares. Quando veio a abertura iraniana através da voz de Rohani em Nova York, o Senado se preparava para aprovar uma nova onda de sanções bancárias, após a votação da Câmara dos Representantes em julho. Os senadores aceitaram adiar a votação para não obscurecer as perspectivas da reunião de Genebra, mas eles informaram que se trata somente de uma suspensão. A questão da retirada das sanções está no centro das discussões em Washington. Quais seriam? Quando? Os conservadores temem que os diplomatas do Departamento de Estado se mostrem conciliadores demais.
Alguns deles já falam em privar o presidente Obama de sua autoridade para agir por derrogação, que lhe permitiria flexibilizar as sanções sem consultá-los, se ele quisesse. Parte dos parlamentares considera que a nova "flexibilidade" iraniana é resultante justamente das sanções que eles conseguiram impor apesar das reticências, em alguns casos, da administração Obama. Eles acham que, em vez de aliviá-las, ele deveria reforçá-las ainda mais.
O republicano Robert Zarate, do círculo conservador Foreign Policy Initiative, considera que qualquer acordo com o Irã deve exigir um "enriquecimento zero". O primeiro apelo para que o Irã suspenda seu programa de enriquecimento data de 2003, ele lembra. "O Conselho de Segurança repetiu seu pedido em uma resolução de dezembro de 2006, uma resolução de março de 2007, uma resolução de março de 2008, de setembro de 2008 e de junho de 2010".
Já Greg Thielmann, analista da Arms Control Association, pede para que sejam realistas, considerando as mesmas resoluções não aplicadas. "Exigir que o Irã abra mão de todas as suas atividades nucleares talvez tivesse sido possível dez anos atrás. Agora, é ingênuo e incabível", ele acredita. "O Irã renunciou a bilhões de dólares em receita do petróleo para construir esse programa".
Para esse especialista em não-proliferação, os Estados Unidos deveriam aceitar uma proposta que permitisse que o Irã prossiga com um "programa limitado" de enriquecimento, mas que colocasse um teto para o número de centrífugas autorizadas e o estoque de urânio enriquecido.

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