quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Inovação contra a pobreza: empresas transformam regiões menos favorecidas
Susana Pérez de Pablos - El Pais
21.ago.2013 -Munir uz Zaman/AFP
Crianças separam garrafas PET para reciclagem em Dacca, Bangladesh. Um exemplo de inovação contra a pobreza acontece no país: o banco social de microcréditos Grameen e a empresa Danone fecharam acordo para desenvolver um produto com alto poder nutritivo por preço baixoCrianças separam garrafas PET para reciclagem em Dacca, Bangladesh. Um exemplo de inovação contra a pobreza acontece no país: o banco social de microcréditos Grameen e a empresa Danone fecharam acordo para desenvolver um produto com alto poder nutritivo por preço baixo
Multinacionais e pequenas empresas promovem a transformação tecnológica de regiões menos favorecidas. Cada vez mais avanços nascem nesses países para depois chegar aos mais ricos.
"Um equipamento suficientemente resistente para sobreviver a uma monção sem dúvida pode sobreviver a um café derramado em Boston ou San Diego."
A ideia, esboçada há anos pelo professor Coimbatore Krishnarao Prahalad, pai do conceito "a fortuna na base da pirâmide", é uma das chaves da chamada "inovação inversa" (reverse innovation). Quando falamos em inovação, costumamos pensar em tecnologia, equipamentos e processos idealizados por e para os países ricos, que mais tarde são exportados para os mais pobres. Entretanto, há cada vez mais novidades que chegam ao mundo desenvolvido procedentes dos países mais pobres.
Ignasi Carreras, ex-diretor-geral da Intermón Oxfam e diretor do Instituto de Inovação Social da Esade, cita como exemplo o acordo a que chegaram o banco social de microcréditos Grameen e a empresa Danone para desenvolver um produto com alto poder nutritivo por preço baixo. Esse acordo teve como resultado a criação de um iogurte que contém 30% das necessidades de vitamina A, zinco e sódio por pessoa/dia e que é vendido nas zonas rurais de Bangladesh por 0,06 euro. Nesse país há mais de 160 milhões de habitantes, e 56% da população está desnutrida, segundo dados da ONU.
"Trata-se de dar às famílias algo que gere uma mudança radical. Além disso, utiliza plantas da região, e a comercialização é feita por mulheres que receberam ajuda para criar empresas. Ao desenvolver a tecnologia para criar esse produto, a Danone viu que tinha criado uma nova linha que poderia comercializar também em outros países, como Índia ou Polônia, onde já se vende uma barra de cereais barata e de alto poder nutritivo."
A inovação se tornou um dos motores de transformação mais poderosos em muitos países em desenvolvimento, que estão incorporando novas tecnologias móveis (telefones, tablets...) sem ter passado previamente pela fase do computador pessoal conectado a uma rede. "Se hoje ocorresse um tsunami como o de Sumatra em 2004, as consequências não seriam as mesmas de então, porque a informação sobre sua aproximação chegaria muito antes aos habitantes. A penetração da tecnologia ali desde então foi enorme, especialmente do telefone celular", explica Carreras.
Ele cita algumas iniciativas relacionadas à tecnologia que estão se tornando essenciais para promover o desenvolvimento econômico das áreas mais pobres do planeta: "Na África, está se aproximando o banco móvel da população. Na Índia se dá informação online aos pequenos agricultores sobre a evolução do preço dos produtos no mercado. O que mudou é o acesso à tecnologia, que é uma parte da inovação que está sendo feita", resume.
A saúde é um dos campos em que estão sendo implantadas as iniciativas mais interessantes. Uma delas partiu da Embrace Global, entidade americana sem fins lucrativos criada por ex-alunos da Universidade Stanford. A equipe da Embrace Global buscava uma alternativa para as incubadoras tradicionais, que são muito caras para vários países em desenvolvimento. Analisando os dados disponíveis, chegaram à conclusão de que a maior parte dos prematuros nasce apenas entre 15 dias e um mês antes do devido. Isto é, não exigiam um nível de isolamento semelhante ao dos bebês prematuros nascidos vários meses antes do prazo. Trata-se de bebês que basicamente só precisam de calor e um espaço protegido. A Embrace Global encontrou uma solução de baixo custo, portátil e fácil de esterilizar: um pequeno saco de dormir que custa cerca de 25 euros, 1% do custo de uma incubadora. Foi criado pensando-se, sobretudo, em hospitais e centros de saúde, mas seu preço e a fácil portabilidade também fizeram com que muitas famílias pudessem utilizá-lo. Embora não isole como uma incubadora, o pequeno saco dá aos bebês o calor de que necessitam e permite que permaneçam em um espaço que pode ser esterilizado com frequência.
A tecnologia está sendo um elemento transformador de grande poder. "Com um investimento muito baixo, o impacto que se consegue é altíssimo", afirma Mercedes Valcárcel, especialista em empreendimento social e na avaliação de seu impacto social. Ela colaborou no grupo de especialistas nessas questões da Comissão Europeia e é uma das criadoras da Fundação Isis, que apoia esse tipo de iniciativa.
María Zapata, fundadora da Ashoka Espanha e diretora de operações internacionais dessa organização, concorda em que há cada vez mais iniciativas locais, que partem de empreendedores dos próprios países em desenvolvimento: "Há muitas iniciativas promovidas por pessoas locais e uma explosão de fundos de capital de risco social que buscam projetos que tenham a ver com tecnologia ou saúde", salienta Zapata. "O uso da energia solar já está mais estendido, com muitos projetos na Ásia ou África, mas nos últimos anos o celular é que está possibilitando muitos avanços. Por exemplo, em questões como a remessa de dinheiro através do banco móvel, o acesso a conteúdos educacionais, a melhora da saúde pública e também o empoderamento de pequenos produtores, que agora recebem informação de primeira mão sobre o preço dos produtos que comercializam, como pode ser o cereal."
A Ashoka seleciona empreendedores sociais e lhes dá um salário-bolsa mensal durante três anos para que desenvolvam seu projeto. Na Espanha, 23 pessoas receberam a bolsa. Dos projetos que apoiaram no mundo, Zapata calcula que cerca de 200 se concentram em desenvolver tecnologia para o desenvolvimento. Um dos projetos espanhóis apoiados pela organização é o de Andrés Martínez. "Destina-se a transmitir ecografias pela rede para o diagnóstico. Permite que técnicos de saúde de menor qualificação que trabalham em lugares onde não há médicos realizem ecografias através de um computador e as transmitam. Assim se consegue distinguir se o paciente deve ser tratado de pneumonia ou de catarro ou possíveis complicações de um parto."
Outro projeto que a Ashoka apoiou, promovido pelo empreendedor Bright Simons, de Gana, se destina a combater remédios falsos na África e está sendo implantado em seu país. Por meio do celular, tira-se uma foto do código do produto que é enviada e em segundos se recebe a resposta sobre sua validade. Calcula-se que entre 40% e 50% dos medicamentos vendidos na África sejam falsos. Há um mercado negro que fabrica remédios que não curam. E em alguns países como a Nigéria chegam a ser 80% dos remédios vendidos, segundo a Interpol, indica Zapata. A OMS (Organização Mundial da Saúde) advertiu sobre a gravidade desse problema e situa em 30% a quantidade de medicamentos falsos ou em más condições que circulam pelo mundo --e o custo disso para a indústria em mais de 55 bilhões de euros.
Uma das questões que chamam a atenção entre os projetos mais novos idealizados nos últimos anos para atenuar necessidades de países em desenvolvimento é que muitos se baseiam em ideias simples, precisam de tecnologia também muito simples e, em alguns casos, usam soluções já utilizadas de maneira mais precária pelos antigos habitantes do lugar. "Em algumas zonas andinas, para tentar evitar a erosão se recuperou um sistema de irrigação barato que os indígenas usavam. É tecnologia mais método, que às vezes é tão importante quanto a tecnologia. Mas, resume Carreras, " principalmente o uso da tecnologia nos países mais pobres aproveita o fluxo da internet e das redes sociais (como faz a Avaaz, organização que conecta pela rede 20 milhões de pessoas em apoio a causas sociais), a colaboração entre atores (como o caso da Danone e Grameen) e o apoio às tecnologias locais, que se desenvolvem em um contexto de muito baixo custo e são muito criativas".
Boa parte da inovação para o desenvolvimento vem de organizações como o Centro para a Inovação Social da Universidade Stanford; Centro para a Inovação Social da Universidade Harvard, Fundação Skoll, Fundação Younge, Ashoka ou Fundação Schwab. Na Espanha, destacam-se nesse campo o Centro de Inovação Social da Esade ou o Centro Basco de Inovação, Aprendizado e Desenvolvimento de Novos Negócios. Quer dizer, a maioria dos projetos parte de lugares onde existe um ecossistema, seja uma incubadora ou um acelerador, de empresas que têm interesse especial em colaborar com esse tipo de iniciativa e do apoio de alguns órgãos públicos dispostos a financiá-las.
Os especialistas destacam, entretanto, que surgem cada vez mais iniciativas dos próprios países em desenvolvimento, tanto de alguns africanos como de Bangladesh, Índia ou Brasil. "A inovação sai de pessoas inovadoras, mas se não tiverem uma rede não conseguem passar da criatividade para a inovação e o desenvolvimento do produto. As organizações internacionais em geral vão atrás, embora tenham a possibilidade de chegar a muita gente, e financiam iniciativas diferentes e grupos de pensadores", acrescenta Carreras.
Em muitos desses países se observa um enorme contraste entre o nível de desenvolvimento econômico e o acesso a determinadas tecnologias, como o telefone celular. "O que não teria sentido seria implantar tecnologia já descartada nos países mais desenvolvidos. Por isso não é paradoxal que tantos habitantes tenham celulares na África, Índia ou América Latina. É normal. Não teria sentido implantar agora linhas telefônicas em vez de dar acesso a celulares", explica Conchita Galdón, especialista em empreendimento social da Escola de Administração de Empresas IE, que conhece de primeira mão muitas iniciativas promovidas na África.
A vanguarda é o "leapfrogging" (o salto da rã), conceito usado para explicar que a evolução decorre diretamente da última tecnologia. Há muito mais desenvolvido do que pode parecer daqui, e a maior parte é tecnologia em processo de teste e que ainda não é rentável", prossegue a especialista. "Nos anos 1990, não tinha sentido que a África começasse com o telégrafo, e não com o celular diretamente, como se fez. Você está em povoados nos quais não há água, mas sim celulares", explica Galdón. "Muitas regiões começam a ter maior acesso à internet, e a maioria dos países em desenvolvimento --embora obviamente nem todos-- tem projetos experimentais próprios."
O Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional) financiam projetos destinados a criar tecnologia dirigida ao desenvolvimento das áreas mais pobres. Um dos campos em que mais se investe é o da agricultura. Há máquinas de busca que indicam qual esterco há e a que preço em uma região. E foram desenvolvidos aplicativos para celular que não contêm muitos dados para facilitar seu download.
A tecnologia também está dando um impulso fundamental na educação nesses países, graças às oportunidades online. Em muitas localidades da África há professores formados que trabalham em contato com outros de centros situados em países europeus. Isso permite que a formação chegue a áreas muito diferentes. Segundo Galdón, "o IE tem um projeto de formação, a maior parte online, de mulheres na África para que criem empresas". E cita outro relacionado à saúde na Índia, país onde ir ao médico pode implicar perder um dia de trabalho, e por isso muita gente posterga sua visita. Uma alternativa já são as consultas remotas. Quando o facultativo precisa ver, por exemplo, um melanoma, envia sua foto pelo celular.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário: