Elisabeth Malkin - NYT
Adriana Zehbrauskas/The New York Times
"Eu costumava beber três ou quatro por dia", disse ela.
Ela costumava engolir uma Coca-Cola ou uma Boing! (bebida local super-açucarada) em cada refeição. A barriga de Rosa cresceu tanto que os clientes de sua barraquinha de comida pensavam que ela estava grávida e a aconselhavam para não trabalhar tão perto da grelha. "Eles me diziam: 'Tome muito cuidado com o bebê. O calor pode prejudicá-lo'", disse ela.
Foi difícil banir as bebidas açucaradas da dieta, relembra Rosa, 31, enquanto segurava uma garrafa grande de água cheinha. Mas o esforço valeu a pena. Ela já perdeu quase 6 quilos.
O governo do México gostaria que mais mexicanos seguissem o exemplo de Rosa. Em uma aposta contra a epidemia de obesidade e diabetes que assola o país, o presidente Enrique Peña Nieto propôs um imposto sobre as vendas de todas as bebidas açucaradas. Se aprovado, o imposto transformará o México em um raro laboratório de testes para a aplicação de um imposto nacional sobre refrigerantes que visa combater o severo problema da obesidade.
A proposta desencadeou discussões acaloradas no México e, no meio desse debate está o cruzado contra a obesidade de Nova York, o prefeito Michael R. Bloomberg.
Além de patrocinar os esforços para restringir as vendas de bebidas açucaradas em grandes recipientes em sua própria cidade, a fundação de Bloomberg também está ajudando a financiar a iniciativa para controlar a comercialização desses produtos no México.
Os US$ 10 milhões que serão doados pela fundação de Bloomberg durante o período de três anos estão sendo usados para apoiar campanhas publicitárias contra a obesidade, para financiar pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Saúde Pública do México e para promover políticas como o imposto sobre os refrigerantes, a rotulagem nutricional dos alimentos e bebidas e as restrições à publicidade televisiva de junk food destinada a crianças. A fundação Bloomberg Philanthropies afirma que seu trabalho no México é um projeto-piloto que poderá ser adaptado para outros países em desenvolvimento caso seja bem sucedido.
A "estratégia geral tem sido tentar descobrir onde estão os exageros alimentares", disse a Dra. Kelly Henning, que dirige os programas de saúde pública da fundação. No México, segundo ela, os refrigerantes compõem "uma grande parte do quebra-cabeça".
Na tentativa de lutar contra a intervenção estrangeira em seu país, os mexicanos que são contrários ao imposto se aproveitaram do papel desempenhado pelo prefeito de Nova York para desacreditar a proposta relacionada aos refrigerantes, chamando-a de "o imposto Bloomberg".
O imposto proposto, que o congresso mexicano deverá votar esta semana, desencadeou uma intensiva campanha de lobby. Em defesa da adoção da taxa estão ativistas e especialistas em saúde pública. Do outro lado, estão as fabricantes multinacionais de refrigerantes e os magnatas bilionários do setor de engarrafamento, assim como pequenos produtores de cana de açúcar e proprietários de lojas de bairro.
"Não é nossa culpa que Bloomberg não tenha mais nada para ocupar seu tempo", disse Cuauhtémoc Rivera, presidente de uma associação nacional de lojinhas de bairro que patrocinou vários anúncios em jornais para criticar o imposto. "Ele é tão rico que está tentando ensinar aos mexicanos como comer e beber".
Quase 70% dos mexicanos estão acima do peso e cerca de um terço deles são obesos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) – aproximadamente a mesma proporção encontrada nos Estados Unidos. Assim como grande parte da população mundial, atualmente os mexicanos fazem menos exercícios e comem mais gordura e doces do que costumavam fazer há alguns anos. Alimentos muito calóricos que antes só eram consumidos aos domingos, como "tamales" (espécie de panquecas, que podem ser doces ou salgadas) ou bolos de café da manhã, agora fazem parte da dieta diária dos mexicanos.
E há um lugar especial na mesa para os refrigerantes: em média, os mexicanos consomem cerca de 40 litros dessas bebidas por ano, de acordo com empresas do setor, quantidade próxima da consumida nos Estados Unidos.
No mercado de Xochimilco, bairro da Cidade do México, a Coca-Cola está simplesmente em todos os lugares: seu logotipo vermelho decora as toalhas de mesa e também pode ser visto nas geladeiras, nos menus escritos à mão e, até mesmo, nas paredes.
"Eu acho que refrigerante é como o chili (pimenta)", disse Miriam Toledo, que administra um pequeno restaurante. "Da mesma maneira que não dá para comer comida sem pimenta, não é possível comer sem um copo de refrigerante".
Até mesmo na vida após a morte os refrigerantes são essenciais para os mexicanos. Joaquín Praxedis Quesada, antropólogo que trabalha no distrito, ressalta que as famílias colocam refrigerantes nos altares dos parentes falecidos no Dia dos Mortos.
"Nesses altares, há tamales, biscoitos, frutas da estação – e um refrigerante", diz ele. "Quando uma cultura integra os refrigerantes no que é mais sagrado para ela, que é a relação com seus antepassados, é porque essas bebidas fazem parte da sua identidade".
Os opositores do imposto compraram anúncios de jornal para provar que o imposto do refrigerante "demoniza" apenas uma das causas da epidemia de obesidade, que tem muitas outras causas. Outros anúncios alertam que o imposto poderia colocar em risco 3,5 milhões de postos de trabalho, começando pelos trabalhadores do setor de cana de açúcar e pelos de dezenas de milhares de proprietários de lojinhas que lutam com dificuldade para manter seus negócios.
Rivera disse que todos na "cadeia de produção", incluindo as fabricantes de refrigerantes, contribuíram para um fundo destinado a pagar pelos anúncios.
Emilio Herrera, diretor de ANPRAC, associação comercial que representa a indústria de refrigerantes mexicana, que movimenta US$ 15 bilhões, disse que um imposto não fará nenhum bem ao público, pois as pessoas simplesmente migrariam para bebidas doces feitas em casa. O governo não "avaliou os danos colaterais que serão provocados por esse imposto ineficiente", diz ele.
Arantxa Colchero Aragonés, pesquisadora do departamento de Economia da Saúde do Instituto Nacional de Saúde Pública do México, estima que um imposto de 10% reduziria o consumo de bebidas açucaradas em cerca de 10% a 13%. Para ela, muitas pessoas migrariam para a água ou para o leite, o que seria suficiente para reduzir a taxa geral de obesidade.
"O setor de refrigerantes está é certo em afirmar que não é o único culpado", disse Juan A. Rivera Dommarco, diretor do Centro de Pesquisa e Nutrição do instituto. "Mas eles têm parte da responsabilidade".
O governo prevê a adoção de um imposto de aproximadamente 7,7 centavos por litro de refrigerante, valor que é corresponde à metade do que os defensores da saúde pública gostariam que fosse implementado.
A indústria de refrigerantes afirma que está trabalhando para ensinar os consumidores a controlarem seu peso. A Coca-Cola de México patrocina um torneio nacional de futebol para alunos do ensino médio.
Ainda assim, muitos mexicanos dizem que os refrigerantes estão longe de ser inofensivos. Mas isso não significa que eles tenham conseguido reunir força de vontade suficiente para abandoná-los.
"Nós estamos enriquecendo as pessoas que estão nos envenenando", disse Isabel Valenzuela, 67 anos, que bebe um ou dois refrigerantes por dia. "Eu amaldiçoo os refrigerantes, mas, ao mesmo tempo, eu continuo bebendo. Eu sou viciada em refrigerantes".
Tradutora: Cláudia Gonçalves
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