Celestine Bohlen - NYT
Thomas Coex/AFPHomem fuma um cigarro eletrônico em Paris, na França: leis mais rígidas para fabricantes
Como é a vida dentro de uma bolha? Pergunte a qualquer um dos cerca de 400 empresários da França que há mais ou menos um ano se atiraram com unhas e dentes no negócio dos cigarros eletrônicos (os e-cigarros), abrindo lojas com nomes como Smok'It, Ciga'Lib, Ci-Klop e AlterCig.
Como cogumelos depois da chuva, essas pequenas lojas continuam brotando em todos os lugares – em Paris em especial. Só no ano passado, seis pontos de venda foram abertos num raio de 500 metros em um bairro ao norte da Ópera de Paris.
Por enquanto, o negócio é uma aposta certa, ou uma "galinha dos ovos de ouro", como Richard Zeitoun, proprietário da loja Ciga'Lib, na Rue St. Lazare, o descreve.
Ex-fumante que costumava consumir dois maços por dia, Zeitoun, semi-aposentado aos 55, foi rápido ao detectar simultaneamente uma oportunidade de negócio e uma oportunidade para largar o vício. "Esse é o cigarro do amanhã", disse ele, manuseando seu cigarro eletrônico enquanto explicava seus planos para abrir uma terceira loja em Paris.
O cigarro eletrônico – um produto fabricado exclusivamente na China que transforma o propilenoglicol misturado com uma infusão de nicotina em vapor inalável – já está varrendo o globo e deve registrar cerca de US$ 4 bilhões em vendas este ano. É provável que o produto tenha chegado para ficar, mas é improvável que todos os ávidos empresários que já aderiram a essa corrida do ouro sobrevivam tempo suficiente para desfrutar de seu sucesso.
"Essa bolha vai estourar", prevê Emmanuel Clari, sócio proprietário de uma loja de luxo em Paris, que foi aberta há sete meses e recebeu o irônico nome de Demain, j'arrete... (Amanhã, eu paro...). "O mercado será determinado pela lei da selva".
Com cerca de 15 milhões de fumantes, a França é um mercado promissor. Em poucos anos, mais de um milhão de pessoas já adotaram o hábito dos cigarros eletrônicos, enquanto o número de revendedores aumentou dez vezes. Uma dessas empresas, a Clopinette, já detém uma rede com 52 lojas.
A atração do setor é um modelo de negócio que o administrador de empresas Clari, 32, descreve como "formidável".
Por um lado, os cigarros eletrônicos na França estão sujeitos a uma tributação de 19,6%, em comparação com a alíquota de 81,1% dos cigarros normais – que custam mais de 6 euros (US$ 8,20) o maço e já estão entre os mais caros da Europa.
Enquanto os revendedores licenciados de tabaco faturam 6,7% em cada maço comercializado, os revendedores de cigarros eletrônicos faturam 50% em cima de seus produtos.
Além disso, os cigarros eletrônicos, cujos preços variam entre 35 euros e 100 euros, exigem novas baterias e recargas periódicas de nicotina líquida, tornando-se uma espécie de mini-máquina de Nespresso que faz o cliente retornar constantemente ao ponto de venda. Mais de 100 sabores exóticos – alguns deles produzidos na França – oferecem aos clientes a excitação da novidade.
E a cada aumento nos impostos sobre o cigarro, mais fumantes buscam maneiras de largar o vício. As vendas de cigarros na França, que caíram 10% nos primeiros três meses deste ano, recuaram ainda mais após outro reajuste nos impostos que passou a vigorar em julho passado.
"Nós podemos oferecer um pequeno prazer que é mais saudável, mais barato e mais limpo, e isso é o que todo fumante quer ouvir", disse Clari. "Por fim, o cigarro eletrônico é um brinquedo para adultos e uma benção para os não-fumantes".
Paris já testemunhou outras bolhas que, no final das contas, acabam por explodir. Nos últimos anos, salões de bronzeamento, clínicas de branqueamento de dentes, lojas que comercializam ouro e revendedores de telefones celulares têm surgido e desaparecido enquanto seus negócios eram corroídos por questões relacionadas à saúde pública ou por grandes mudanças nos mercados.
Sob muitos aspectos, o cigarro eletrônico tomou o lugar desses produtos – literalmente: depois de perder clientes para uma enxurrada de ofertas baratas por parte de empresas de telefonia, alguns fabricantes de celulares dividiram suas lojas em duas e passaram a vender telefones de um lado e cigarros eletrônicos do outro.
Mas os empresários do mercado de cigarros eletrônicos sentem que terão problemas pela frente. O setor já está bastante saturado para um único produto, que até hoje não tem a proteção de nenhuma patente. Recentemente, os revendedores da novidade conseguiram se esquivar de um ataque, quando a União Europeia (UE) rejeitou uma decisão que exigiria que os cigarros eletrônicos passassem a ser comercializados em farmácias e fossem considerados dispositivos médicos.
E há mais ameaças no horizonte. O governo francês está ansioso para aumentar os impostos que incidem sobre o produto. Outras regulamentações também devem surgir à medida que os principais jogadores do mercado – ou seja, as empresas do setor de tabaco e as companhias de e-commerce – se preparam para entrar em um mercado lucrativo. As típicas lojas "Tabac" francesas, desesperadas para se manter no jogo, estão estocando cigarros eletrônicos descartáveis.
Enquanto a pressão aumenta, Clari está apostando na qualidade, em detrimento do preço, e passou a priorizar a oferta de produtos de luxo e serviços especializados.
"Nós estamos esperando o estouro dessa bolha", disse ele, "e nós estamos nos preparando".
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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