Paul Krugman - NYT
16.out.2013 - Kevin Lamarque/Reuters
Senador Ted Cruz se afasta das câmeras após discursar no Capitólio, em Washington. No dia 16, o líder democrata no Senado, Harry Reid, e o líder republicano, Mitch McConell, anunciaram um acordo bipartidário para aumentar o limite de débito norte-americano e por fim à paralisação federal
O governo está reabrindo e não demos calote em nossa dívida. Os dias felizes estão de volta, não é?
Bem, não. Para começar, o Congresso votou apenas por uma solução temporária e podemos nos ver passando por tudo isso de novo em poucos meses. Você poderia dizer que os republicanos seriam loucos em provocar outro confronto. Mas eles foram loucos em provocar este, então por que presumir que eles aprenderam a lição?
Além disso, é importante reconhecer que os estragos econômicos pela obstrução e extorsão não começaram quando Partido Republicano fechou o governo. Pelo contrário, ele é um processo em andamento, que remonta a tomada do controle da Câmara pelos republicanos em 2010. E os danos são grandes: o desemprego nos Estados Unidos seria muito menor do que está se a maioria na Câmara não tivesse feito tanto para minar a recuperação.
Um ponto de partida útil para avaliar os estragos feitos é um relatório amplamente citado da empresa de consultoria Macroeconomic Advisers, que estimou que a política fiscal "movida pela crise" --que tem sido a norma desde 2010-- subtraiu cerca de 1% da taxa de crescimento americana nos últimos três anos. Isso implica em perdas econômicas cumulativas --o valor dos bens e serviços que os Estados Unidos poderiam e deveriam ter produzido, mas não produziram-- de cerca de US$ 700 bilhões. A empresa também estimou que o desemprego está 1,4 ponto percentual mais alto do que estaria na ausência de um confronto político, o suficiente para deixar implícito que a taxa de desemprego estaria agora abaixo de 6% em vez de acima de 7%.
Não é preciso acreditar piamente nessas estimativas. Na verdade, eu tenho dúvidas sobre a tentativa do relatório de avaliar os efeitos da incerteza política, que depende de pesquisa que não resiste muito bem a análise.
Mas seria um erro concluir que a Macroeconomic Advisers exagerou seu argumento. O principal motor das estimativas é a queda acentuada desde 2010 nos gastos discricionários como percentual do PIB --isto é, em gastos que, diferente dos gastos em programas como o Seguro Social e o Medicare (o seguro-saúde público para idosos e inválidos), devem ser aprovados pelo Congresso a cada ano. Como o maior problema que a economia americana enfrenta ainda é a demanda geral inadequada, essa queda nos gastos deprime tanto o crescimento quanto o emprego.
Além disso, o relatório não leva em consideração o efeito de outras políticas ruins que são mais ou menos resultado direto do controle republicano na Câmara desde 2010. Duas grandes coisas ruins se destacam: o aumento do imposto sobre a folha de pagamento e a redução acentuada da ajuda aos desempregados, apesar de ainda haver três vezes mais pessoas procurando emprego do que vagas disponíveis. Ambas as ações reduziram o poder aquisitivo dos trabalhadores americanos, enfraquecendo a demanda pelo consumidor e reduzindo ainda mais o crescimento.
Somando tudo isso, é um bom palpite essas estimativas de estragos pela tomada de reféns política subestimarem o verdadeiro mal causado. Eleições têm consequências, e uma consequência das vitórias republicanas nas eleições de 2010 foi uma economia ainda fraca, quando poderíamos e deveríamos estar a caminho de uma plena recuperação.
Mas por que as exigências republicanas têm consistentemente um efeito depressor sobre a economia?
Parte da resposta é que o partido permanece determinado a travar uma guerra de classes de cima para baixo em uma economia onde essa guerra é particularmente destrutiva. Cortar benefícios aos desempregados porque você acha que é uma mamata para eles seria cruel mesmo em tempos normais, mas tem o efeito colateral de destruir empregos quando a economia já está deprimida. Defender reduções de impostos para os ricos e ao mesmo tempo eliminar reduções de impostos para os trabalhadores comuns significa redistribuir dinheiro de pessoas que provavelmente o gastariam para pessoas que provavelmente ficarão sentadas sobre ele.
Nós também deveríamos reconhecer o poder das ideias ruins. Em 2011, os republicanos triunfantes adotaram avidamente o conceito, já popular na Europa, de "austeridade expansionista" --a noção de que cortes de gastos na verdade estimulam a economia, ao aumentarem a confiança. A experiência desde então refutou completamente esse conceito: por todo o mundo avançado, os grandes cortes de gastos estão associados a recessões profundas. De fato, o Fundo Monetário Internacional acabou emitindo o que representa um mea culpa, reconhecendo que subestimou enormemente o dano infligido pelos cortes de gastos. Mas como você pode ter notado, os republicanos não gostam de rever suas posições mesmo diante das evidências contrárias.
Todos os problemas da economia são culpa do Partido Republicano? É claro que não. O presidente Barack Obama não assumiu uma posição forte o bastante nos cortes de gastos, e o Federal Reserve (o banco central americano) poderia ter feito bem mais para apoiar o crescimento. Mas grande parte da culpa pela direção errada que tomamos na política econômica se deve aos extremistas e extorsionários que controlam a Câmara.
A situação poderia estar pior. Nesta semana, nós conseguimos evitar a queda em um precipício. Mas ainda estamos na estrada para lugar nenhum.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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