Míriam Leitão - O Globo
O leilão não teve competição, mas o governo pode respirar aliviado porque o consórcio que vai explorar Libra terá mais diversidade do que se esperava. A entrada da Shell e da Total mudou a cena de uma privatização estatizante. Mesmo assim, há inúmeras dúvidas para o futuro que terão que ser resolvidas no próximo leilão do pré-sal, que será só daqui a dois ou três anos.A Petrobras aumentou a parcela que já tinha garantido pela modelagem e terá 40% do consórcio. Por lei, será a operadora. Outra surpresa foi o recuo da China, que parecia que iria com muita sede ao pote, mas acabou ficando apenas com 20% do capital, 10% da CNOOC e 10% da CNPC. Com a Petrobras, serão três estatais com 60%. A Shell e a Total terão cada uma o equivalente ao que o capital chinês conquistou. E ainda haverá outra estatal que não entra com o capital, mas com direito a veto e voto, a PPSA. A declaração de ontem da Total de que só entrou depois de ter certeza de que as nomeações para a PPSA eram técnicas mostra a desconfiança do investidor em relação ao Brasil e ao excesso de nomeações políticas para órgãos reguladores e estatais.
O governo está batendo bumbo de vitória, mas ele já está avaliando a mudança do formato. Nem a Petrobras quer ter a obrigação de ser a operadora de todos os campos do pré-sal. Ela está descapitalizada pela política de controle dos preços dos combustíveis, terá que desembolsar R$ 6 bilhões de bônus de assinatura e isso é só o começo. A necessidade de investimento é muito alta para os próximos anos.
O governo cometeu uma sucessão de erros desde que ficou claro que o país tinha grandes reservas de petróleo no pré-sal. Demorou demais a tomar as decisões, paralisou por cinco anos os leilões e isso fez cair 66% a área que está em exploração. O Brasil tem tido queda da produção de petróleo. Criou um modelo tão complexo para conquistar o apoio dos mais nacionalistas, mas ontem fez um leilão no qual houve uma participação muito menor do que chegou a sonhar, com a Petrobras em greve, e o Exército enfrentando manifestantes.
Nesse período, o governo fez uma complexa capitalização da Petrobras para reduzir o endividamento da empresa e prepará-la para os grandes investimentos. Mas a capitalização derrubou o valor de mercado da empresa, e hoje ela está tão endividada quanto estava antes e acabou de ter a nota de risco rebaixada.
A despeito de todos os problemas de formatação do modelo de exploração — que de quebra abriu uma guerra federativa pelos royalties — a Petrobras estar no comando é até natural. Ela poderia conseguir isso sem qualquer empurrão, por ser a empresa líder em exploração de petróleo de águas profundas: tem 25% do que é explorado no mundo. A Total também tem experiência em exploração em águas profundas na África, em áreas com geologia parecida com a do Brasil.
Claro que bem mais difícil é a produção em águas ultraprofundas, tendo que perfurar dois mil metros de sal, a 170 quilômetros da costa. A empresa, no entanto, tem capacidade de superar dificuldades tecnológicas, como já provou ao longo de sua história.
Libra era a joia da coroa. Já se sabia de suas potencialidades. Nesse aspecto não há como esconder que seu leilão não foi o sucesso que o governo dizia que seria, quando afirmava que 40 empresas disputariam. Não houve disputa, mas formou-se um consórcio sólido, de boas empresas, com experiências diferenciadas. E a partir dessa experiência, o governo começará a pensar em mudanças no formato do pré-sal e na 12ª rodada, que será feita no bem sucedido modelo de concessão.
Míriam Leitão - O Globo
O modelo de partilha, usado em Libra, deve sofrer algumas modificações no futuro, mas o governo, por enquanto, ainda não tem pressa em relação a isso. Como me disse a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, o próximo leilão de pré-sal será daqui a dois, três anos.
Foi uma decisão do governo fazer o leilão pelo modelo de partilha, que existe em outros lugares, mas o Brasil colocou algumas particularidades, como a obrigatoriedade de a Petrobras ser a operadora de todos os campos de pré-sal.
Nesse leilão, como a brasileira entrou com 40%, e não 30%, pagará R$ 6 bi dos R$ 15 de bônus de assinatura, um valor alto que deve ser pago logo de cara pelas companhias.
Mas a Petrobras sofre com a intervenção do governo na política de preços de gasolina e diesel e está com alto nível de endividamento. Além disso, acabou de ter a nota rebaixada. Não são dificuldades estruturais, mas conjunturais.
E é bom lembrar que esses R$ 15 bi não vão para investimento de longo prazo, mas para o superávit primário, que está baixo.
Como um campo como esse de Libra precisa de grandes investimentos, é natural que não apareçam tantas empresas dispostas a entrar no projeto. Mas o governo esperava que 40 companhias fossem participar, mas só 11 se habilitaram, sendo que duas não depositaram garantia, e a Repsol, ontem, desistiu de participar.
No final, venceu o consórcio único, formado pela brasileira, duas chinesas (estatais, que têm o mesmo controlador) e duas europeias - Shell e Total, com grande experiência. Foram essas que ficaram: além da Petrobras, um grupo da China e só duas empresas privadas.
Não teve competição, concorrência. Não significa que não haverá impactos positivos, mas a participação ficou aquém do que o governo esperava. Ele acreditou até o último momento que a disputa por Libra seria grande.
Foi uma decisão do governo fazer o leilão pelo modelo de partilha, que existe em outros lugares, mas o Brasil colocou algumas particularidades, como a obrigatoriedade de a Petrobras ser a operadora de todos os campos de pré-sal.
Nesse leilão, como a brasileira entrou com 40%, e não 30%, pagará R$ 6 bi dos R$ 15 de bônus de assinatura, um valor alto que deve ser pago logo de cara pelas companhias.
Mas a Petrobras sofre com a intervenção do governo na política de preços de gasolina e diesel e está com alto nível de endividamento. Além disso, acabou de ter a nota rebaixada. Não são dificuldades estruturais, mas conjunturais.
E é bom lembrar que esses R$ 15 bi não vão para investimento de longo prazo, mas para o superávit primário, que está baixo.
Como um campo como esse de Libra precisa de grandes investimentos, é natural que não apareçam tantas empresas dispostas a entrar no projeto. Mas o governo esperava que 40 companhias fossem participar, mas só 11 se habilitaram, sendo que duas não depositaram garantia, e a Repsol, ontem, desistiu de participar.
No final, venceu o consórcio único, formado pela brasileira, duas chinesas (estatais, que têm o mesmo controlador) e duas europeias - Shell e Total, com grande experiência. Foram essas que ficaram: além da Petrobras, um grupo da China e só duas empresas privadas.
Não teve competição, concorrência. Não significa que não haverá impactos positivos, mas a participação ficou aquém do que o governo esperava. Ele acreditou até o último momento que a disputa por Libra seria grande.
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