quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os animais no “Jornal Nacional” e o “outro lado”
Reinaldo Azevedo - VEJA
O Jornal Nacional apresentou há pouco uma reportagem sobre a invasão e depredação do Instituo Royal, em São Roque — sim, o caso dos beagles. Uma, como apontou o gerador de caracteres, “ativista” foi ouvida. A polícia se manifestou etc.
Mas vivemos tempos em que tudo é permitido, menos contrariar correntes da opinião pública que podem ser consideradas majoritárias. Eu não tenho dúvida de que, caso se façam pesquisas, a maioria será contrária à experiência com animais. Como resistir à fofura dos beagles, não é?
A reportagem foi encerrada com a fala de dois “especialistas”. Um deles é um biólogo, que afirmou, CONTRARIANDO A SABEDORIA FIRMADA MUNDO AFORA, santo Deus!, “que os animais não são bons modelos” para testar remédios em seres humanos. Certo! Se os animais não são bons modelos, então quem é o bom modelo? Outro ser humano! Ou seria o aspargo? Ou o cogumelo? Ou um pé de couve? Quem vai testar a vacina? Entre a chance de que algo dê errado com um cão, um rato ou uma criança, parece que o dito cujo já fez a sua escolha. A alternativa é não testar nada em ninguém e sair por aí usando o remédio em larga escala. Se milhares morrerem, fazer o que?
O biólogo é Sérgo Greif. Pesquisei. É “ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998”. O JN não informa. Em seguida, já que tudo tem dois lados — que bom que o nazifascismo não tem como brotar nestes tempos —, o jornal ouviu um senhor identificado apenas como “médico”. Ok. O “médico” em questão é Marcelo Marcos Morales, um dos secretários da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e coordenador do Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal). O JN também não informa. Ele, evidentemente, é favorável às pesquisas. À Folha desta segunda, o cientista informou que a invasão do Royal provocou anos de atraso no desenvolvimento de uma droga contra o câncer. Ele é médico, sim, mas um pouco mais do que isso.
Assim, o espectador pode escolher uma opinião: fica com o biólogo, que diz, contra todas as evidências, que animais não servem para testar remédios, ou fica com o “médico”? Independentemente da competência e do peso científico de cada um, os dois ali se igualaram. A pergunta original, no entanto, permanece: se não testar remédio em bicho, testa em quem?
Revolta da vacina
No Fantástico, Bruno Mazzeo “volta no tempo” para pesquisar personagens de nossa história. A ideia é bacana. Como a intenção também é ser engraçado, falta, por enquanto, a graça. Vamos ver. Penso aqui se o JN, com o espírito desta terça, decidisse, para ficar na ciência, voltar no tempo para cobrir a revolta da vacina, que ocorreu no Rio entre 10 e 16 de novembro de 1904. Houve um levante para resistir à vacinação obrigatória contra a varíola.
Um olhar sociológico e compreensivo? Pois não! Tratava-se de um governo autoritário, que impôs, de forma brutal, a vacinação, sem a devida campanha de esclarecimento. Elites intelectuais aderiram ao levante, que se ancorava, no entanto, num preconceito, num medo infundado: o de que a vacinação poderia provocar a doença. Em 1904, o JN faria muito bem se decidisse demonstrar todos os erros que o governo cometeu ao impor a vacinação daquela maneira, mas cometeria, certamente, uma estupidez se igualasse os argumentos técnicos dos que eram favoráveis e contrários à vacina. Pela simples, óbvia e boa razão de que o procedimento era necessário, embora a maioria fosse contra.
Que a imprensa se engaje ou, na melhor das hipóteses, seja neutra em temas, como direi?, comportamentais, pautados pelo politicamente correto — ainda que certas parulhas seja fascistoides —, vá lá… Mas seremos também neutros em relação a temas como o teste de remédios em animais? Basta que exista um biólogo contrário para que ganhe o status de especialista? EU PERGUNTO DE NOVO: SE NÃO TESTAR VACINA EM BICHO, VAI TESTAR EM QUEM? Isso é mera questão de opinião?
Não ignoro
Não ignoro as pressões, não! Eu as estou experimentando. Sei o que andam a dizer de mim por aí… Há uma página que me enviaram que chega a ser engraçada. Um sujeito lá me acusa de… comer carne! Outro compara um matadouro a um campo de concentração nazista, o que é de uma delinquência intelectual e moral asquerosa. Ainda voltarei a isso. Quem dera se pudesse acusar as populações do centro da África de comer carne em excesso, Santo Deus!
Conheço as pressões e indago: o nosso papel, do jornalismo, agora é não ficar mal com as maiorias? É ser compreensivo mesmo com as piores boçalidades por medo das correntes organizadas nas redes sociais? Chegamos a esse ponto?
Como o mundo é engaçado, duas ou três reportagens depois, o JN informou que um procedimento qualquer — não entendi direito; depois vou ver no site — fez nascer cabelos humanos em ratos. Dia desses, na China, o bichinho desenvolveu no dorso uma orelha, que, suponho, foi transplantada depois num humano sem orelha. Que horror! Que degradação para o rato!!!
PS – Vi Dilma duas vezes no JN, ambas com imagem e áudio. Na primeira, sanciona o programa “Mais Médicos” e desculpa-se com um cubano, que teria sido hostilizado por médicos brasileiros. Já escrevi a respeito. A reportagem não tem outro lado. Na segunda, em 2min38s, Dilma defende o regime de partilha do pré-sal e critica aqueles que dizem que ele não é muito bom. Uma terceira reportagem, ricamente ilustrada, de 4min01s, explica como será o futuro do Brasil com o petróleo. Repete cada passo do pronunciamento de ontem de Dilma (se quiser, compare com a íntegra), que fez contas como lhe deu na telha. Também sem outro lado. As críticas da oposição e de especialistas não apareceram. “Outro lado” só para quem acha que humanos devem começar a tomar remédios sem que sejam testados antes em animais.
Política não precisa de outro lado.

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