Antonio Jiménez Barca - El Pais
Uma das atividades da campanha de Rui Moreira para a Prefeitura do Porto consistia em chegar com algum ajudante em uma camionete preparada a um bairro previamente divulgado no Facebook. Os moradores o esperavam e iam entrando no veículo, um a um e à razão de cinco minutos por cabeça, a fim de expor ao candidato suas opiniões sobre sua cidade e seu futuro, a meio caminho entre o confessionário e o balcão de bar.
"Percebi que as pessoas estão cansadas de escutar os políticos. As pessoas querem lhes falar."
Hoje, Moreira (56 anos, terno escuro, camisa branca, sorridente postura de dândi) é o personagem político português do momento. Logo se transformará no primeiro prefeito independente do Porto, a segunda cidade portuguesa, com 240 mil habitantes.
Não há exemplos parecidos na Europa. Um movimento civil promovido há meio ano por um punhado de notáveis influentes desta cidade, provenientes de vários setores ideológicos, convenceu o então presidente da circunspecta Associação dos Comerciantes do Porto, que jamais havia militado em qualquer partido político, a assumir a frente da candidatura.
"Então havia pesquisas que davam a vitória ao candidato de centro-direita com 60%", lembra Nuno Santos, um dos assessores da campanha de Moreira.
O lema da campanha foi sintomático: "Porto, nosso partido". E a iniciativa, que muitos observadores consideram coerente com o espírito de uma cidade industriosa e de espírito liberal, que sempre observa Lisboa de viés: "O Porto é uma cidade especial, com uma alma burguesa e dinâmica única. As elites --no sentido amplo da palavra-- são muito participativas, desde sempre. E a esse espírito me uni para minha candidatura", explica o próximo prefeito.
Rui Moreira nasceu no Porto, é claro, no seio de uma família da alta burguesia local. Seu pai e seu avô foram empresários proeminentes da cidade. Ele, depois de estudar na Inglaterra, se destacou no comércio marítimo, mas aos 35 anos vendeu as ações de suas empresas para se dedicar ao negócio de conservas e outros mais arriscados ou divertidos, como abrir uma discoteca. É culto, aberto, simpático, cosmopolita e poliglota, e embora tenha vivido na Noruega, Dinamarca ou Alemanha, afirma que jamais voltará a sair de sua cidade. Explica que o tentaram muitas vezes, sem sucesso, para entrar na política nacional. Sua consideração social por dirigir a respeitada associação de comerciantes local se mistura com certo apelo popular por aparecer muito na televisão como comentarista esportivo, sempre defendendo o Futebol Clube do Porto, do qual se confessa fã irrecuperável. Isso lhe serviu para ir no primeiro dia aos bairros mais populares sem se sentir um desconhecido que despenca da zona mais exclusiva da cidade sem nada além de um panfleto eleitoral em que se vê sua foto sorridente.
Depois conseguiu atrair o voto de castigo a uma política do corte permanente, soube convencer seus vizinhos de que, graças à sua independência política, jogaria só pelo Porto, sem precisar da autorização de Lisboa ou do governo central, e aproveitou uma campanha desastrosa de seu rival da centro-direita, Luís Filipe Menezes, do aparelho do partido do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.
Menezes baseou sua estratégia eleitoral em prometer, entre outras coisas, pontes e túneis improváveis cruzando o rio Douro, insistindo em algo que, a julgar pelos resultados, já cansou o português médio.
Pelo contrário, Moreira afastou-se de um populismo que diz abominar: "Só prometi que não me esqueceria do que visse na campanha". E se limitou às velhas formas de fazer política: "Muita rua, no início sozinhos". Explicou seu ideário particular, que tem algo de poção mágica: "No social sou de esquerda, mas na organização do Estado, de direita". A isto deve-se acrescentar certa dose intraduzível do encanto do personagem: "Sempre fui eu: disse a meus assessores que me levassem às entrevistas e debates que quisessem, mas que jamais me dissessem o que deveria dizer".
"Era o homem ideal. Teria ganhado se tivesse se apresentado por qualquer partido. É algo muito do Porto", afirma Carlos Magno, jornalista portuense e presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
"Também mostra o desgaste dos partidos políticos tradicionais. A partidocracia", acrescenta o comentarista político José Pacheco Pereira.
Assim, o candidato cresceu dia a dia, à base de vídeos caseiros colocados na rede ("rodamos 365 em seis meses", lembra o assessor Santos), e acabou, para surpresa de todos, com aprovação de sua cidade e espanto de alguns, arrasando nas eleições realizadas em 29 de setembro passado. Obteve 39,2% dos votos, à frente dos 22,6% do Partido Socialista Português e dos 21% do conservador PSD de Luís Filipe Menezes. É o pior resultado já alcançado por essas duas formações políticas no Porto.
Na noite da vitória, Moreira concluiu seu discurso com uma frase profética que ainda ecoa na política portuguesa: "Se os partidos não entenderam o que aconteceu aqui, então não entenderam nada."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
"Percebi que as pessoas estão cansadas de escutar os políticos. As pessoas querem lhes falar."
Hoje, Moreira (56 anos, terno escuro, camisa branca, sorridente postura de dândi) é o personagem político português do momento. Logo se transformará no primeiro prefeito independente do Porto, a segunda cidade portuguesa, com 240 mil habitantes.
Não há exemplos parecidos na Europa. Um movimento civil promovido há meio ano por um punhado de notáveis influentes desta cidade, provenientes de vários setores ideológicos, convenceu o então presidente da circunspecta Associação dos Comerciantes do Porto, que jamais havia militado em qualquer partido político, a assumir a frente da candidatura.
"Então havia pesquisas que davam a vitória ao candidato de centro-direita com 60%", lembra Nuno Santos, um dos assessores da campanha de Moreira.
O lema da campanha foi sintomático: "Porto, nosso partido". E a iniciativa, que muitos observadores consideram coerente com o espírito de uma cidade industriosa e de espírito liberal, que sempre observa Lisboa de viés: "O Porto é uma cidade especial, com uma alma burguesa e dinâmica única. As elites --no sentido amplo da palavra-- são muito participativas, desde sempre. E a esse espírito me uni para minha candidatura", explica o próximo prefeito.
Rui Moreira nasceu no Porto, é claro, no seio de uma família da alta burguesia local. Seu pai e seu avô foram empresários proeminentes da cidade. Ele, depois de estudar na Inglaterra, se destacou no comércio marítimo, mas aos 35 anos vendeu as ações de suas empresas para se dedicar ao negócio de conservas e outros mais arriscados ou divertidos, como abrir uma discoteca. É culto, aberto, simpático, cosmopolita e poliglota, e embora tenha vivido na Noruega, Dinamarca ou Alemanha, afirma que jamais voltará a sair de sua cidade. Explica que o tentaram muitas vezes, sem sucesso, para entrar na política nacional. Sua consideração social por dirigir a respeitada associação de comerciantes local se mistura com certo apelo popular por aparecer muito na televisão como comentarista esportivo, sempre defendendo o Futebol Clube do Porto, do qual se confessa fã irrecuperável. Isso lhe serviu para ir no primeiro dia aos bairros mais populares sem se sentir um desconhecido que despenca da zona mais exclusiva da cidade sem nada além de um panfleto eleitoral em que se vê sua foto sorridente.
Depois conseguiu atrair o voto de castigo a uma política do corte permanente, soube convencer seus vizinhos de que, graças à sua independência política, jogaria só pelo Porto, sem precisar da autorização de Lisboa ou do governo central, e aproveitou uma campanha desastrosa de seu rival da centro-direita, Luís Filipe Menezes, do aparelho do partido do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.
Menezes baseou sua estratégia eleitoral em prometer, entre outras coisas, pontes e túneis improváveis cruzando o rio Douro, insistindo em algo que, a julgar pelos resultados, já cansou o português médio.
Pelo contrário, Moreira afastou-se de um populismo que diz abominar: "Só prometi que não me esqueceria do que visse na campanha". E se limitou às velhas formas de fazer política: "Muita rua, no início sozinhos". Explicou seu ideário particular, que tem algo de poção mágica: "No social sou de esquerda, mas na organização do Estado, de direita". A isto deve-se acrescentar certa dose intraduzível do encanto do personagem: "Sempre fui eu: disse a meus assessores que me levassem às entrevistas e debates que quisessem, mas que jamais me dissessem o que deveria dizer".
"Era o homem ideal. Teria ganhado se tivesse se apresentado por qualquer partido. É algo muito do Porto", afirma Carlos Magno, jornalista portuense e presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
"Também mostra o desgaste dos partidos políticos tradicionais. A partidocracia", acrescenta o comentarista político José Pacheco Pereira.
Assim, o candidato cresceu dia a dia, à base de vídeos caseiros colocados na rede ("rodamos 365 em seis meses", lembra o assessor Santos), e acabou, para surpresa de todos, com aprovação de sua cidade e espanto de alguns, arrasando nas eleições realizadas em 29 de setembro passado. Obteve 39,2% dos votos, à frente dos 22,6% do Partido Socialista Português e dos 21% do conservador PSD de Luís Filipe Menezes. É o pior resultado já alcançado por essas duas formações políticas no Porto.
Na noite da vitória, Moreira concluiu seu discurso com uma frase profética que ainda ecoa na política portuguesa: "Se os partidos não entenderam o que aconteceu aqui, então não entenderam nada."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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