sexta-feira, 4 de outubro de 2013

'Povo americano está cansado de passar de uma crise a outra', diz Obama em entrevista
John Harwood - NYT
1°.out.2013 - Jewel Samad/AFP
Manifestante cobre a boca com nota de dólar durante protesto em frente ao Capitólio, em Washington (EUA), contra a paralisação parcial do governo dos EUAManifestante cobre a boca com nota de dólar durante protesto em frente ao Capitólio, em Washington (EUA), contra a paralisação parcial do governo dos EUA
O presidente Barack Obama permanece preso em um confronto duplo com os republicanos do Congresso em torno do fechamento do governo e da necessidade de elevar o limite da dívida até meados de outubro para permitir que o Tesouro americano cumpra suas obrigações.
Obama concedeu uma entrevista para John Harwood, da "CNBC" e "The Times", entre reuniões sobre o impasse com executivos de Wall Street e a liderança bipartidária do Congresso. O que se segue é uma versão condensada, editada da conversa.

Eu gostaria de saber se o senhor pode esclarecer a confusão em torno de sua posição a respeito de algo. O senhor disse que não negociará a destruição de seu plano para a saúde, que não negociará o limite da dívida. O que exatamente o senhor está preparado para negociar e quando?
Obama: Eu estou preparado para negociar qualquer coisa. Eu acho importante conversarmos sobre como podemos criar um orçamento que gere empregos, encoraje o crescimento, lidando com as questões de longo prazo da dívida. Os déficits estão caindo --no ritmo mais rápido desde a Segunda Guerra Mundial. Eles foram reduzidos pela metade desde que cheguei ao poder. Mas ainda temos alguns desafios em termos de nossos gastos em saúde a longo prazo, no Medicare (o seguro-saúde público para idosos e inválidos) em particular.
Assim, sempre que a liderança quer conversar, nós temos um orçamento e acho que temos boas respostas. Nós não esperamos 100%. Mas o que também digo é que é inaceitável que uma facção de um partido em uma das casas do Legislativo diga "ou conseguiremos o que queremos ou fecharemos o governo". Ou ainda pior: "Nós não permitiremos que o Tesouro americano pague suas contas e os Estados Unidos darão calote pela primeira vez na história". Então a mensagem que eu tenho para os líderes é muito simples. Assim que tivermos um projeto de lei limpo que reabra o governo...

Mas nenhuma negociação antes disso?
Obama: Até que isso aconteça, até assegurarmos que o Congresso permita ao Tesouro pagar pelas coisas que o próprio Congresso já autorizou, nós não vamos nos envolver em uma série de negociações. E o motivo é muito simples, John. Se nos habituarmos a permitir que algumas poucas pessoas, uma ala extremista de um partido, seja democrata ou republicana, obtenha concessões por extorsão, com base na ameaça de minarem a fé plena e o crédito dos Estados Unidos, então qualquer presidente que venha depois de mim se verá incapaz de governar de modo eficaz. E isso é algo que não vou permitir que aconteça.

Há alguma circunstância em que o senhor poderia fechar um acordo orçamentário com os republicanos que não envolva novos impostos?
Obama: É possível assegurarmos que não aumentaremos a alíquota do imposto de renda. Isso já ficou para trás. Eu acho que é muito importante continuarmos cortando programas que são desnecessários, não estão funcionando, com alguns deles precisando ser reformados. É importante lidarmos a longo prazo com nossos gastos em direitos adquiridos.
Mas eu também acho que é importante assegurarmos que estamos investindo nas coisas que ajudarão a economia a crescer. E vou dar a você um exemplo específico, que é nossa infraestrutura. Toda empresa depende de boas estradas, aeroportos que funcionem, portos que funcionem. E estamos investindo insuficientemente no que é fundamental para nosso crescimento a longo prazo. Nós temos que encontrar uma forma de pagar por isso. Eu acho que temos que distinguir entre aumentos do imposto de renda, aos quais eles sempre foram contrários...

Brechas também? Nenhuma receita?
Obama: Bem, eu acho que temos que fechar as brechas para pagar por essas coisas que vão nos ajudar a crescer. Mas o importante aqui, John, é que, em um 'toma lá, dá cá' normal entre os partidos, isso é algo que deveríamos poder resolver. Tenha em mente em termos de reabertura do governo, o que os democratas já disseram que estão dispostos a fazer é votar pela reabertura do governo em níveis de fundos que os republicanos estabeleceram, mas que os democratas não gostam.
Assim, se John Boehner colocar em votação já o projeto de lei do Senado, que mantém o status quo, não aumenta os gastos do governo além de onde já estão, ele é muito aquém do que os democratas consideram necessário para investirmos em coisas como educação, pesquisa, desenvolvimento e todas as coisas que são importantes. Mas o que estamos dizendo é: nós colocaremos tudo na espera, nós podemos iniciar negociações robustas sobre todas essas coisas, os democratas não vão conseguir 100% do que desejam, os republicanos também não. Mas esse é o tipo de processo democrático que o povo americano espera.

Antes da eleição no ano passado, o senhor achava que a possibilidade de sua reeleição acabaria com a "febre" dentro do Partido Republicano. Isso não aconteceu. O senhor vê este momento como uma chance, por meio desse confronto político, de acabar com a febre?
Obama: O interessante, John, é que a maioria dos republicanos por todo o país pode discordar de mim em várias questões, mas eles também reconhecem que uma democracia só funciona se todo mundo seguir as regras. Que haverá algum toma lá, dá cá. E eu acho que isso é verdadeiro para muitos republicanos no Congresso.
Há muitos senadores e deputados republicanos, sendo que alguns disseram publicamente: "Nós discordamos do presidente em uma série de questões. Mas não deveríamos fechar o governo, prejudicar nossa economia, deixar 800 mil funcionários federais sem ter ideia se terão condições de pagar suas contas no fim do mês, e certamente não deveríamos criar uma catástrofe financeira potencial em caso de um calote dos Estados Unidos".
Da última vez que tivemos uma ameaça de calote, em 2011, nós vimos que a economia não cresceu. Ela recuou durante aquele trimestre. Como consequência, nós fomos rebaixados. E isso é algo que nenhum de nós deveria querer repetir. Nós temos que tirar isso da mesa.

Enquanto o senhor tenta apelar para esses outros republicanos com os quais acha que pode trabalhar, eu me pergunto sobre seu tom ultimamente. Eu tenho percebido uma crescente irritação, às vezes até escárnio. O senhor disse recentemente: "Eu fico sempre esperando pelo apagar de uma lâmpada". E isso dá a impressão de que o senhor acha que seus oponentes republicanos são covardes, estúpidos ou loucos. É o que o senhor acha? E se o senhor pensa assim, ajuda dizer isso em voz alta para as pessoas?
Obama: Ao longo da minha presidência eu não medi esforços para trabalhar com o Partido Republicano. E propositalmente baixei minha retórica. Eu acho que as pessoas sabem muito bem que sou um sujeito calmo. Às vezes as pessoas acham que sou calmo demais. E eu estou irritado? Totalmente irritado. Porque isso é totalmente desnecessário.
Nós temos uma situação no momento na qual se John Boehner, presidente da Câmara, colocar em votação um projeto de lei para reabertura do governo no nível atual de recursos, para que então possamos negociar um orçamento real que nos permita deixar de governar de uma crise a outra, ele seria aprovado. A única coisa que está impedindo isso é que John Boehner não está disposto no momento a dizer não a uma facção do Partido Republicano que está disposta a incendiar a casa devido a uma obsessão com minha reforma da saúde. Eles já votaram 40 vezes pela derrubada dela, 40 vezes.
Uma lei aprovada pela Câmara, aprovada pelo Senado, foi sancionada por mim, foi declarada constitucional pela Suprema Corte --e enquanto conversamos ela está sendo implantada, já está beneficiando milhões de pessoas ao permitir que seus filhos permaneçam no plano de seus pais até chegarem aos 26 anos, já está fornecendo restituições para as famílias porque seus planos de saúde precisam tratá-las de modo justo, está assegurando que os idosos recebam medicamentos prescritos mais baratos.
E estou irritado com a ideia de que, a menos que eu diga para 20 milhões de pessoas 'vocês não podem ter plano de saúde', esse pessoal não reabrirá o governo. Isso é irresponsabilidade. Se e quando eles votarem para assegurar que o Congresso pague nossas contas no prazo, para que a América não dê calote em despesas já provisionadas, então eu estarei preparado para ter uma negociação razoável, civilizada, em torno de uma série de questões. E isso está refletido não apenas nas minhas palavras, mas em meus atos ao longo dos últimos quatro anos.

Wall Street está bastante calma a respeito disso. A reação tem sido: "Washington brigando, Washington fazendo pose, blá, blá, blá". É o modo certo de olharem para isso?
Obama: Não, eu acho que desta vez é diferente. Eu acho que eles deveriam se preocupar. Eu tive a chance de falar com algumas pessoas do setor financeiro que vieram para suas visitas de costume. E eu lhes disse que não é incomum democratas e republicanos discordarem. Essa é a forma como os fundadores projetaram nosso governo. A democracia é complicada.
Mas, quando temos uma situação em que uma facção está disposta a permitir um calote das obrigações do governo americano, então estamos em apuros. E se estão dispostos a fazer isso agora, eles estarão dispostos a fazer isso futuramente. Uma coisa que sempre escuto é: "Bem, sr. presidente, se eles não estão sendo razoáveis, por que o senhor não vai em frente e faz algo que os deixe contentes?" O que tenho que lembrar às pessoas é que o que estamos debatendo agora é manter o governo aberto por dois meses. Nós então enfrentaríamos a mesma coisa no meio do período de compras do Natal. Algo em que acho que muitas empresas não estariam interessadas.
Uma coisa que eu sei é que o povo americano está cansado, e presumo que a maioria das empresas está cansada, dessa constante passagem de uma crise para outra. Então precisamos acabar com essa febre? Certamente. Nós temos que parar com isso. Vamos ter um orçamento que permita às pessoas planejarem a longo prazo, que nos permita lidarmos com nossos problemas fiscais de modo sensível e razoável, mesmo em uma questão como a saúde. Se eles quiserem me dar sugestões específicas sobre como podemos melhorar o atendimento de saúde para pessoas que precisam dele e pessoas com condições pré-existentes, eu ficarei feliz em conversar a respeito. Mas não vou submeter isso à ameaça dos Estados Unidos darem um calote em suas obrigações.
Eu acho que Wall Street pode exercer uma influência. Presidentes-executivos de todo o país podem exercer uma influência. Eu acho que é importante que eles reconheçam que isso terá um impacto profundo sobre nossa economia e nos lucros deles, sobre seus funcionários e seus acionistas.
Às vezes, quando se está fora de Washington, a posição habitual tanto para os eleitores comuns, para as empresas, para a imprensa, é dizer: "É apenas o bate-boca de costume. Ambos os lados estão agindo como crianças mimadas". Esta não é uma dessas situações. Nós temos um grupo de pessoas que acha que pode manter a América refém por um resgate que não conseguiu obter por meio de uma eleição.

Eu estava analisando dados de pesquisas sobre a lei de saúde. Muito, muito popular entre os afro-americanos, marginalmente popular entre os latinos, muito impopular entre os brancos. Quais são as implicações para o país, nesta questão e em muitas outras, de políticas que são polarizantes não apenas entre os partidos, mas também entre raças?
Obama: Quando você analisa o que há de fato na Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível, ela é popular entre todos os grupos. Se você perguntar às pessoas comuns: "Você acha que é bom os planos de saúde permitirem que os jovens sejam mantidos no plano de seus pais até os 26 anos?" "Com certeza." "Você acha que é uma boa ideia os planos de saúde serem obrigados a gastar 80% dos prêmios no atendimento de saúde das pessoas, não em custos administrativos?" "Com certeza." "Você acha que é uma boa ideia pessoas com problemas de saúde pré-existentes poderem ter plano de saúde?" Elas dizem que sim.
Logo, o desafio que temos na lei de saúde é semelhante ao desafio que temos em nossa política falando de modo mais amplo, que é o fato de termos caricaturas do que estamos tentando fazer. Sempre houve algum nível de polarização em nossa política. Mas isso piorou em parte devido à disseminação de mentiras. Assim, os membros do Congresso não têm incentivo de contatar todos os grupos. Piorou em parte porque agora há esses supercomitês de ação política, que chegam e financiam propaganda que estimula a polarização. E a mídia se tornou mais polarizada.
Mas não acho que se você olhar especificamente para a lei de saúde ela será uma questão divisível em termos de raça. A maioria das pessoas que não são seguradas neste país, apesar de trabalharem, será ajudada pela Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível, a maioria delas será branca, não afro-americana ou latina.

O fechamento afeta a seleção de seu candidato potencial ao Fed (Federal Reserve, o banco central americano), desacelera o processo? Muita gente tem dito: "Por que essa nomeação está demorando tanto?"
Obama: Bem, tenha em mente que Ben Bernanke ainda está lá e está fazendo um ótimo trabalho. E essa é uma das nomeações mais importantes que faço fora as nomeações para a Suprema Corte. De modo que não, o fechamento não está atrapalhando a seleção.
A pessoa que nomearei será alguém que reflita o mandato duplo do Fed. Ele precisa assegurar que o Fed fique de olho na inflação, que não encoraje algumas das bolhas que temos visto em nossa economia e que acabaram estourando. Mas o Fed também precisa permanecer focado no fato de que nossa taxa de desemprego continua muito alta. E os trabalhadores comuns ainda precisam de uma economia fortalecida, de demanda agregada fortalecida, para que possamos colocar mais pessoas de volta ao trabalho e com salários melhores.

O papa Francisco disse outro dia, sem mudar as posições da igreja, que a Igreja Católica se tornou obcecada demais por questões como direitos dos gays e aborto. O que o senhor acha dos comentários do papa? E o senhor vê alguma aplicação mais ampla além da Igreja Católica?
Obama: Eu vou lhe dizer, eu fico imensamente impressionado com os pronunciamentos do papa. Ele parece alguém que vive os ensinamentos de Cristo. Uma humildade incrível! Um senso incrível de empatia pelos menos favorecidos, pelos pobres. E ele também é alguém que, primeiro e acima de tudo, pensa em como abraçar as pessoas em vez de afastá-las, como encontrar o que há de bom nelas em vez de condená-las.
Esse espírito, esse senso de amor e unidade, parece se manifestar não apenas no que ele diz, mas também no que ele faz. Para qualquer líder religioso essa é uma qualidade que admiro.
Eu diria que é uma qualidade que admiro em qualquer líder, ponto. E trazendo isso para as questões aqui em Washington, nenhum partido tem o monopólio da verdade. Eu acho que muitas pessoas no Partido Republicano que discordam de mim são boas pessoas, amam seu país e seus filhos, querem o que é melhor para suas comunidades.
Mas parte da genialidade dos fundadores foi ter conseguido criar um sistema onde, até mesmo quando há desentendimentos profundos, nós podemos discutir esses desentendimentos de modo sensível e civilizado. E no final a experiência de autogoverno continua.
A luta que estamos tendo agora não se trata da lei de saúde, não se trata particularmente do orçamento, ela tem a ver com a continuidade desse processo, onde temos eleições, maiorias são determinadas, há algumas proteções para as minorias no sistema, mas conseguimos chegar a um meio-termo e então seguimos em frente. Se não pudermos fazer isso --este país é diverso demais, grande demais--, o que acabaremos vendo é mais e mais a polarização da qual você falou, o que não faz bem para nossa política.
Também não é bom para nossa economia. A maior força que temos como uma nação, eu acho, é precisamente essa diversidade e nossa capacidade de energizar e mobilizar a todos. E isso cria um dinamismo na economia e a coisa toda meio que se mantém unida. Se nos tornarmos mais e mais como os Bálcãs, então acabaremos tendo os problemas que outros países tiveram no passado. Isso nos enfraquece e tem um impacto em nossa posição no mundo. Isso é algo que precisamos evitar, e precisamos resolver isso já.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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