Reinaldo Azevedo - VEJA
Sem-teto expõe um dos argumentos tornados influentes no dias de hoje (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
Na terça-feira, o “Profissão Repórter”, da Globo, comandado por Caco Barcelos, dedicou um programa aos heróis e, sobretudo, heroínas que lideram invasões de áreas púbicas e privadas em São Paulo, todos eles abrigados pela bandeira do movimento dos sem-teto. Curioso: as lideranças não moram nas invasões. Uma das chefonas tem um carrão. Não consegui saber de onde vem o dinheiro. Mas já sabemos, no entanto, algumas coisas: esses grupos podem movimentar alguns milhões de dinheiro público do Minha Casa Minha Vida, têm uma espécie de monopólio das casas que vão ficando prontas no programa federal e as distribuem entre militantes que vão ganhando pontos segundo a sua dedicação à causa.
Ou por outra: a política pública foi privatizada por esses grupos, que, por sua vez, são ligados a políticos, todos eles do PT — exceção feita a um caso, do PCdoB (leia mais a respeito). Nada disso estava na reportagem do Profissão Repórter. O programa foi feito, como diz uma amiga, só para mostrar “como é dura a vida da bailarina”… Na quinta-feira, dois dias depois de o programa ir ao ar, os ditos movimentos de sem-teto saíram incendiando instalações da CDHU (empresa estadual de casas populares) em terrenos que abrigarão casas e tentaram invadir a Prefeitura.
Embora o programa tenha tocado no assunto, não ficou claro, com a evidência necessária que pedem os fatos, o quanto esses grupos atrapalham a organização de uma política pública de habitação — em vez de ajudar. Por quê? Porque tomam para si a tarefa de distribuir as casas, segundo seus próprios critérios. Nesta segunda, por ordem da Justiça, realizou-se a reintegração de posse de terrenos da CDHU, invadidos por esses movimentos. Ora, a construção das casas obedece a determinados padrões, inclusive de urbanização, com a devida regularização de água, esgoto e luz elétrica, precondições, inclusive, para a saúde dos moradores.
Pessoas igualmente pobres, que precisam de moradia, mas pacíficas, entram na fila de inscrição e têm seus direitos solapados por esses militantes. A dar crédito a certas reportagens, tem-se a impressão de que, não fosse a sua ação, o programa não avançaria. A verdade é bem outra; eles criam dificuldades para a realização de políticas públicas. Há unidades do Minha Casa Minha Vida e áreas da CDHU ocupadas.
Na manhã desta segunda, invasores entraram em confronto com a Polícia Militar na retirada de invasores de terreno da CDHU no Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo. Um automóvel foi incendiado. A Polícia Militar foi atacada e teve de responder com bombas de efeito moral. Meteram fogo em pneus e interditaram uma linha de trem. Ouvidos, os invasores, claro!, vêm com o chororô habitual: não foram procurados pela CDHU, que não lhes teria oferecido alternativa e coisa e tal. Certo. Então ficamos assim: os militantes vão ocupando o que lhes dá na telha, mobilizam para isso uns pobres desgraçados, e os entes públicos que se encarreguem de dar uma resposta.
Tudo isso, claro!, vem com pau, pedra e fogo.
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