terça-feira, 19 de novembro de 2013

Claudicante, Obama é sombra do que já foi
Antonio Caño -El Pais
Sean Gardner / Getty Images / AFPDurante discurso realizado no porto de Nova Orleans, em Louisiana (EUA), no começo de novembro, o presidente Barack Obama falou sobre a paralisia orçamentária 
Durante discurso realizado no porto de Nova Orleans, em Louisiana (EUA), no começo de novembro, o presidente Barack Obama falou sobre a paralisia orçamentária
A correção anunciada por Barack Obama na reforma da saúde, mais importante por seu significado do que por suas consequências imediatas, é a ponta de uma gestão que navega à deriva há meses e transformou o presidente mais desejado da história na maior decepção.
A decisão de Obama de retardar em um ano os atuais seguros médicos é uma medida de caráter administrativo que responde aos problemas detectados também na ordem administrativa. Normalmente, não daria lugar a um julgamento tão severo. Entretanto, suas repercussões são políticas e se transformaram na última prova da incompetência, da improvisação e da confusão deste governo. Os jornalistas repetem a comparação com o Katrina e os conservadores lembram que já advertiram que seria seu Waterloo.
A autoridade de Obama se dilacera. Se não for capaz de levar adiante de modo convincente o principal programa de sua presidência, de que é capaz? Seus companheiros democratas, mais preocupados com sua própria sorte nas próximas eleições legislativas, começam a abandoná-lo. Sua popularidade está nos níveis mais baixos que se recorda, semelhantes aos de George W. Bush nesta data. Seu abatimento e sua desmoralização são visíveis. Sua falta de liderança, seja nos assuntos internos, na crise da Síria ou na negociação com o Irã, é motivo de preocupação em todas as chancelarias.
Seu prestígio pessoal, transformado em cinzas no mundo por Edward Snowden, também despenca em casa devido a sua impotência para governar. Cada aparição na televisão, que antes servia para demonstrar suas qualidades oratórias, agora é uma oportunidade de confirmar suas carências como administrador da nação mais importante da Terra. Hesitante, errático e ausente, Obama é uma sombra do que foi.
O que aconteceu? Para uma resposta adequada, certamente será preciso esperar algum tempo. Em primeiro lugar, porque com três anos pela frente no cargo Obama ainda tem, no papel, tempo suficiente para a ressurreição. Mas também porque no fracasso de Obama confluem diversos elementos pessoais, políticos e circunstanciais que tornam difícil uma explicação.
A reforma da saúde foi objeto de numerosas ações de sabotagem por parte de governadores republicanos e alvo da mais feroz campanha de ataques contra qualquer lei em várias décadas: no Congresso, nos meios de comunicação, por parte das empresas, das seguradoras, da profissão médica, pelos ângulos ideológico e econômico.
A reforma da saúde - e Guantánamo, em outro sentido - foi desde o primeiro dia a demonstração de que Obama não encontraria o campo livre para cumprir suas promessas. O pânico que a eleição de Obama provocou em alguns meios se transformou imediatamente em uma poderosa força de resistência.
Mas isso não é desculpa para a frágil resposta da Casa Branca. Com a fúria da oposição, de alguma forma se contava. Com o que não se contava é a incapacidade para combatê-la. Durante todo o primeiro mandato essa incapacidade esteve disfarçada de prudência. Um presidente que buscava a conciliação, o acordo, o ponto intermediário, não poderia ser censurado por fazer concessões para consegui-lo.
Mas nestes meses de seu segundo mandato se descobriu que a prudência escondia carência de dotes, de recursos e, talvez, de convicções. A retificação da reforma da saúde, que afeta uma das promessas mais repetidas por Obama - "se você está satisfeito com seu seguro atual, poderá conservá-lo" -, atinge o último bastião de sua presidência: sua credibilidade.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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