terça-feira, 19 de novembro de 2013

Colaboradores de Lula são condenados por corrupção 
Nicolas Bourcier - Le Monde 
E eis que se encerra uma insana saga judicial, iniciada oito anos atrás. Ao ordenar, na sexta-feira (15), a prisão imediata dos principais condenados no chamado "Mensalão", o maior julgamento por um caso de corrupção já organizado no país, o presidente do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa, assinou o epílogo de um caso que se tornou um dos símbolos dos abusos do sistema político brasileiro. Uma sentença que envolve os mais próximos colaboradores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que pode manchar por muito tempo ainda a imagem do PT (Partido dos Trabalhadores), que foi fundado em plena ditadura militar e construído sobre um discurso ético.
No total foram doze, dos 25 empresários e políticos acusados de terem participado do sistema de compra de votos no Congresso entre 2003 e 2005, durante o primeiro mandato de Lula, a figurarem nessa primeira lista do alto magistrado. Com exceção do ex-diretor do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, que se refugiou na Itália graças à sua dupla cidadania, os réus se apresentaram nos postos da polícia federal próximos de seus domicílios. Foram cenas que provocaram um vagalhão midiático de intensidade raramente vista. Entre elas, José Dirceu e José Genoíno, duas figuras históricas do PT, erguendo os punhos cerrados em sinal de protesto diante das objetivas das câmeras instaladas em frente às suas casas.
Este último, deputado e ex-presidente do partido, chegou a gritar "Viva o PT!" quando foi se entregar à polícia. "Fui condenado porque estava exercendo a presidência do partido", ele afirmou, classificando-se como prisioneiro político. José Dirceu, o ex-opositor da ditadura que fazia parte do restrito círculo de potenciais sucessores de Lula antes que o caso viesse à tona, se disse "tranquilo, mas indignado."
Em uma nota, o ex-ministro acusado de ter sido o idealizador do sistema de propinas pagas aos parlamentares se definia como "um prisioneiro político de uma democracia sob pressão de suas elites". E disse ainda que ia lutar para anular "uma sentença ilegítima".
Sete dos onze réus, entre eles o empresário Marcos Valério, que foi punido com a mais pesada condenação (37 anos de reclusão), receberam penas de prisão sem condicional. José Dirceu e quatro outros condenados terão um regime semiaberto que lhes permitirá trabalhar fora da prisão, mas para onde devem voltar para passar a noite. Em caso de eventuais reduções de pena possibilitadas por recursos, as duas figuras do PT, bem como Delúbio Soares (ex-guerrilheiro e tesoureiro do partido) poderiam passar para um regime aberto já no final de 2014 ou início de 2015.
"Um modelo de corrupção"
Durante o fim de semana, Joaquim Barbosa examinou os últimos requerimentos dos outros condenados. A situação de nove réus ainda está por definir. A prisão desses políticos de alto escalão e de empresários é algo sem precedentes na história dessa jovem democracia pouco acostumada a ver seus dirigentes atrás das grades, apesar dos escândalos de corrupção e de clientelismo que são denunciados constantemente pela mídia, pelas ONGs e pelas redes sociais. Antes mesmo de chegar à presidência do Supremo Tribunal, o juiz Joaquim Barbosa havia previsto em agosto de 2012 que "esse julgamento marcaria a ruptura de um modelo de corrupção."
Lula, cuja reeleição em 2006 havia sido marcada por esse caso, não quis reagir: "Quem sou eu para julgar o Supremo Tribunal?" Um tom deliberadamente moderado também adotado pela nova presidente, Dilma Rousseff, que lembrou, na sexta-feira  - dia da República - , que o papel de um presidente é "prevenir e combater a corrupção". Para muitos analistas, a prisão antecipada de ex-líderes permitiria que o PT enfraquecesse os ataques da oposição durante a próxima campanha presidencial de 2014.
Tradutor: Lana Lim

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