Essa conta poderá ser alta
O Estado de S.Paulo
A pressa e a improvisação continuam marcando as medidas
tomadas pela Prefeitura que afetam o transporte coletivo. O que é
altamente preocupante, porque um setor de tamanha importância para a
vida de milhões de paulistanos não pode ser tratado dessa maneira. Isto
ficou mais uma vez evidente na implantação de mais 3,9 quilômetros de
faixa exclusiva de ônibus nas Avenidas Antártica, Sumaré e Paulo VI, na
zona oeste.
A forma atabalhoada com que as coisas foram conduzidas fez com que
essa faixa começasse a funcionar segunda-feira sem que a retirada da
sinalização da motofaixa existente na Avenida Sumaré - uma providência
elementar - tivesse sido concluída. Segundo a Companhia de Engenharia de
Tráfego (CET), isso aconteceu porque "o trabalho de remoção da
motofaixa foi prejudicado pela chuva". Salta aos olhos que o mais fácil e
acertado seria, então, adiar a inauguração na faixa. Afinal, sua
implantação é muito simples - consiste apenas na mudança de sinalização
da via - e, por isso, poderia perfeitamente esperar que a chuva
passasse.
Outra consequência da sofreguidão foi o atraso na criação de bolsões
exclusivos para os motociclistas, como contrapartida à eliminação da
motofaixa. Eles ficarão nos principais cruzamentos da região. Não é de
admirar que, nessas condições, muitos motociclistas tenham continuado a
usar a motofaixa. A confusão provocada pela impossibilidade de a CET
fazer o trabalho no prazo fixado só não foi maior, no primeiro dia,
porque a maioria dos motoristas agiu com surpreendente disciplina. Além
da imprudente correria da Prefeitura em implantar mais essa faixa
exclusiva, é preciso considerar também se ela é realmente a melhor
solução para essas vias, em especial a Avenida Sumaré.
A verdade é que os motociclistas e os motoristas de carro haviam se
adaptado à existência da motofaixa implantada na Sumaré desde 2006.
Tanto que o sindicato dos motoboys criticou a eliminação da motofaixa -
"estamos trabalhando para aumentar essas faixas" - e reclamou da "falta
de respeito da Prefeitura", que não consultou e sequer informou a
entidade sobre sua decisão.
Nesse caso, os motoboys, que nem sempre primam pela sensatez, têm
razão. Afinal, se a motofaixa os prejudicasse, certamente seriam eles os
primeiros a contestá-la. Por isso, causa estranheza a posição do
diretor de Planejamento da CET, Tadeu Leite Duarte, segundo o qual a
motofaixa sempre foi um projeto-piloto que "não apresentou os resultados
esperados", tendo inclusive aumentado o risco de acidentes.
Projeto-piloto que durou sete anos? Quanto ao risco, os motoboys, que
seriam as principais vítimas dele, não parecem ver as coisas da mesma
maneira que a CET.
A ânsia incontrolável de mostrar serviço a qualquer custo, de olho na
eleição para o governo do Estado em 2014 - um dos grandes objetivos do
PT, no qual o prefeito Fernando Haddad está abertamente empenhado -, vem
guiando as suas ações muito mais do que os reais interesses da
população. Só isso explica o estardalhaço feito em torno das faixas
exclusivas de ônibus.
Num primeiro momento, elas podem causar boa impressão a grande parte
dos usuários de ônibus. Mas como, além de estarem sendo implantadas a
toque de caixa, tudo indica que não se baseiam em sólidos estudos
técnicos - se eles existem, por que não são divulgados? -, logo a
população poderá se dar conta de que existe aí mais fogo de artifício do
que ganhos verdadeiros.
A improvisação é evidente também na reorganização das linhas de
ônibus, uma medida importante que por isso está sendo prejudicada. O que
é lamentável porque essa reorganização, se bem feita, é fundamental
para a melhoria do serviço. Nesse caso os usuários, cujos interesses não
estão sendo levados na devida conta, já manifestam claramente seu
descontentamento.
Os paulistanos poderão pagar um alto preço pela forma pouco séria com que a Prefeitura vem tratando o transporte coletivo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário