Andrew Higgins e Katrin Bennhold - NYT
Vanessa Voigt, especialista em obras de arte que os nazistas chamavam
de "degeneradas" e nos negociantes que as comercializavam durante a
Segunda Guerra Mundial, muitas vezes se perguntou o que teria acontecido
com Cornelius Gurlitt, filho de um proeminente marchand da era nazista e
figura que ela passou a considerar como uma espécie de fantasma.
No início do ano passado, Voigt finalmente conseguiu ficar cara a cara com o homem esquivo que insistia em pipocar vagamente em suas pesquisas. Á época, funcionários da alfândega alemã haviam acabado de tropeçar em 1.280 pinturas e desenhos – obras-primas que provavelmente valem mais de US$ 1 bilhão – que estavam escondidos no apartamento de Gurlitt em Munique, e recorreram à especialista para conseguir compreender o que estava acontecendo.
Enquanto os funcionários da alfândega confiscavam as obras, Gurlitt, angustiado, andava de maneira inquieta por seu domínio até então inviolável murmurando sem parar para si mesmo: "agora eles estão levando tudo de mim", lembra Voigt, que estava presente na ocasião. "Ele estava inconsolável", relembra ela.
Em entrevista publicada pela revista alemã "Der Spiegel", a primeira concedida por Gurlitt, 80, o colecionador disse que o confisco das obras de arte foi um golpe devastador – um golpe ainda mais difícil de suportar do que a perda de sua irmã, Benita, que morreu de câncer no ano passado. "Dizer adeus às minhas telas foi a coisa mais dolorosa por que passei", disse ele.
Na semana passada, enquanto conversava com a Der Spiegel durante uma viagem a uma cidade alemã não identificada para se consultar com um médico e tratar uma doença cardíaca, Gurlitt disse que não vê TV desde 1963 e que nunca usou a internet, mas que falava com suas obras de arte. Ele conseguiu manter sua obras favoritas – uma coleção de obras em papel – em uma pequena mala que ele abre todas as noites para admirar.
Até o confisco das obras, em fevereiro de 2012, Gurlitt mantinha sua privacidade com bastante zelo, recusando-se a abrir a porta até mesmo para os funcionários da companhia de gás que fazem a leitura dos relógios de consumo. Ele raramente falava ou tomava conhecimento de seus vizinhos. E ninguém nunca o viu na companhia de nenhum amigo.
Sua notoriedade repentina como guardião do maior acervo de obras-primas descobertas desde a Segunda Guerra Mundial o deixou perplexo. "O que essas pessoas querem de mim?", ele perguntou à Der Spiegel. "Eu sou apenas uma pessoa muito tranquila. Tudo o que eu queria fazer era viver com minhas obras de arte".
Na verdade, durante mais de meio século as únicas e verdadeiras companhias de Gurlitt foram as imagens vibrantes e coloridas criadas por Picasso, Chagall, Gauguin e vários outros mestres modernos. Ele herdou as obras de seu pai, Hildebrand Gurlitt, um exuberante marchand da era nazista, que tinha ascendência judaica e, às vezes, prestava serviços ao Terceiro Reich – mas que também mantinha amizade com artistas com os quais os nazistas não simpatizavam.
A coleção era tão valiosa e, talvez, a sua origem fosse tão duvidosa devido à associação da família com os nazistas, que o desejo de mantê-la segura obrigou Gurlitt viver uma existência estranha – como se ele fosse um Gollum – atrás de persianas permanentemente fechadas, ocultando não apenas as obras, mas também ele mesmo.
Essas obras, raras e insubstituíveis, transformaram-se no único mundo de Gurlitt. O colecionador disse à Der Spiegel que brincava em meio às obras quando era criança – e agora ele chora sua perda. "Não há nada que eu tenha amado mais em minha vida do que as minhas obras de arte", disse ele.
Ele acrescentou, com lágrimas nos olhos, que "elas têm que voltar para mim", pois sua família tinha "salvado", e não saqueado as obras. As autoridades alemãs ainda estão tentando determinar a posse legítima da coleção e definir se Gurlitt violou alguma lei.
Quando perguntado se ele já tinha se apaixonado por um ser humano, ele riu e disse: "Oh, não".
Konrad O. Bernheimer, um proeminente marchand de Munique, disse que nunca tinha se encontrado com Gurlitt apesar de atuar há décadas no ramo.
"A parte mais triste de toda essa história é a vida desse homem", disse ele. "Ele vivia trancado no escuro com todas aquelas telas maravilhosas", disse Bernheimer. "Ele é um homem que vive nas sombras, um fantasma que nunca se revelou ao mundo".
O comportamento excessivamente tímido de Gurlitt, no entanto, disparou um alarme. O volume desse alarme aumentou ainda mais quando os investigadores descobriram posteriormente que o colecionador não existia, burocraticamente falando. Ele não estava inscrito no registro dos moradores de Munique nem em outros registros oficiais.
Vigiar o tesouro de arte de sua família era o único trabalho que Gurlitt conhecia. Periodicamente, ele mergulhava na coleção para selecionar alguma obra para vender, uma necessidade que, segundo a Der Spiegel, tornou-se mais premente nos últimos anos devido ao declínio de suas condições de saúde.
A última peça que ele reconhecidamente vendeu – "The Lion Tamer" ("O Domador de Leões"), do artista alemão Max Beckmann – levantou 864 mil euros (US$ 1,17 milhões), incluindo comissões, em um leilão realizado em Colônia, em 2011. Gurlitt concordou em dar 45% da receita da venda a uma família judia que era originalmente a proprietária da obra.
Emmarentia Bahlmann, uma especialista em obras de arte de Munique que trabalha para a Kunsthaus Lempertz, casa de leilões de Colônia que organizou a venda, disse Gurlitt "me telefonou do nada". Ansiosa para ver o que exatamente ele possuía, Bahlmann marcou um encontro no apartamento dele, que ela descreveu como "triste", mas razoavelmente arrumado.
Ela perguntou a Gurlitt delicadamente se ele possuía outras obras de arte. "Não, apenas essa", respondeu ele, de acordo com Bahlmann. "Ela pertencia a minha mãe".
Antes disso, no entanto, a obras tinha pertencido ao pai de Gurlitt, Hildebrand, uma das únicas quatro pessoas autorizadas pelos nazistas a comercializar os trabalhos da chamada arte degenerada durante a guerra.
De acordo com um relato prestado posteriormente por Hildebrand aos interrogadores norte-americanos, quando as forças aliadas avançaram e as linhas de defesa alemãs desmoronaram ele levou sua mulher, Helene, e os dois filhos, Cornelius e Benita, em um caminhão e um trailer cheio de caixas com obras de arte para o castelo de um conhecido, o Barão von Pöllnitz.
Logo depois, Hildebrand foi preso no castelo e questionado por membros da divisão de Monumentos, Belas Artes e Arquivos do exército dos Estados Unidos, o grupo de historiadores, curadores e soldados encarregados de salvaguardar o patrimônio cultural da Europa.
Em suas declarações aos investigadores, ele ressaltou seus sentimentos antinazistas e afirmou que nunca negociou obras de arte roubadas.
As obras em seu poder eram, em sua maioria, "propriedade privada minha ou de minha família", disse Hildebrand.
Os investigadores concluíram que Hildebrand não era um ator importante do ramo de comércio de arte e, posteriormente, devolveram a ele mais de 115 pinturas, além de desenhos e outros objetos de arte.
Em 1956, Hildebrand Gurlitt morreu em um acidente de carro em uma rodovia enquanto dirigia em alta velocidade entre Berlim e a casa da família, localizada em Düsseldorf. Mas os anos da guerra continuaram a fazer sombra sobre a família.
Na época da morte de seu pai, Cornelius tinha apenas 23 anos e já estava mergulhando profundamente em seu próprio mundo.
"Mesmo à época ele era considerado um sujeito excêntrico", relembra Karl-Heinz Hering, a quem Hildebrand Gurlitt havia contratado para trabalhar como seu assistente no Düsseldorf Kunstverein, o principal museu de arte da região. Hering disse que não tinha conhecimento de que a família possuía uma grande coleção particular de obras arte.
Posteriormente, em 1961, a viúva de Hildebrand se mudou para o mesmo apartamento onde Cornelius vive hoje, em Munique.
No final de 1966, uma agência governamental de Berlim, responsável pela restituição de bens saqueados durante a era nazista, enviou uma carta formal perguntando sobre quatro pinturas adquiridas por seu marido. Helene Gurlitt respondeu que todos os registros e obras de arte de seu marido tinham sido incinerados quando os aliados bombardearam Dresden, em fevereiro de 1945.
A busca no apartamento de Cornelius, realizada no ano passado, provou que a afirmação de sua mãe era mentirosa: os investigadores encontraram não apenas pinturas, mas também os livros de registro mantidos por seu pai.
Tradução: Cláudia Gonçalves
No início do ano passado, Voigt finalmente conseguiu ficar cara a cara com o homem esquivo que insistia em pipocar vagamente em suas pesquisas. Á época, funcionários da alfândega alemã haviam acabado de tropeçar em 1.280 pinturas e desenhos – obras-primas que provavelmente valem mais de US$ 1 bilhão – que estavam escondidos no apartamento de Gurlitt em Munique, e recorreram à especialista para conseguir compreender o que estava acontecendo.
Enquanto os funcionários da alfândega confiscavam as obras, Gurlitt, angustiado, andava de maneira inquieta por seu domínio até então inviolável murmurando sem parar para si mesmo: "agora eles estão levando tudo de mim", lembra Voigt, que estava presente na ocasião. "Ele estava inconsolável", relembra ela.
Em entrevista publicada pela revista alemã "Der Spiegel", a primeira concedida por Gurlitt, 80, o colecionador disse que o confisco das obras de arte foi um golpe devastador – um golpe ainda mais difícil de suportar do que a perda de sua irmã, Benita, que morreu de câncer no ano passado. "Dizer adeus às minhas telas foi a coisa mais dolorosa por que passei", disse ele.
Na semana passada, enquanto conversava com a Der Spiegel durante uma viagem a uma cidade alemã não identificada para se consultar com um médico e tratar uma doença cardíaca, Gurlitt disse que não vê TV desde 1963 e que nunca usou a internet, mas que falava com suas obras de arte. Ele conseguiu manter sua obras favoritas – uma coleção de obras em papel – em uma pequena mala que ele abre todas as noites para admirar.
Até o confisco das obras, em fevereiro de 2012, Gurlitt mantinha sua privacidade com bastante zelo, recusando-se a abrir a porta até mesmo para os funcionários da companhia de gás que fazem a leitura dos relógios de consumo. Ele raramente falava ou tomava conhecimento de seus vizinhos. E ninguém nunca o viu na companhia de nenhum amigo.
Sua notoriedade repentina como guardião do maior acervo de obras-primas descobertas desde a Segunda Guerra Mundial o deixou perplexo. "O que essas pessoas querem de mim?", ele perguntou à Der Spiegel. "Eu sou apenas uma pessoa muito tranquila. Tudo o que eu queria fazer era viver com minhas obras de arte".
Na verdade, durante mais de meio século as únicas e verdadeiras companhias de Gurlitt foram as imagens vibrantes e coloridas criadas por Picasso, Chagall, Gauguin e vários outros mestres modernos. Ele herdou as obras de seu pai, Hildebrand Gurlitt, um exuberante marchand da era nazista, que tinha ascendência judaica e, às vezes, prestava serviços ao Terceiro Reich – mas que também mantinha amizade com artistas com os quais os nazistas não simpatizavam.
A coleção era tão valiosa e, talvez, a sua origem fosse tão duvidosa devido à associação da família com os nazistas, que o desejo de mantê-la segura obrigou Gurlitt viver uma existência estranha – como se ele fosse um Gollum – atrás de persianas permanentemente fechadas, ocultando não apenas as obras, mas também ele mesmo.
Essas obras, raras e insubstituíveis, transformaram-se no único mundo de Gurlitt. O colecionador disse à Der Spiegel que brincava em meio às obras quando era criança – e agora ele chora sua perda. "Não há nada que eu tenha amado mais em minha vida do que as minhas obras de arte", disse ele.
Ele acrescentou, com lágrimas nos olhos, que "elas têm que voltar para mim", pois sua família tinha "salvado", e não saqueado as obras. As autoridades alemãs ainda estão tentando determinar a posse legítima da coleção e definir se Gurlitt violou alguma lei.
Quando perguntado se ele já tinha se apaixonado por um ser humano, ele riu e disse: "Oh, não".
Konrad O. Bernheimer, um proeminente marchand de Munique, disse que nunca tinha se encontrado com Gurlitt apesar de atuar há décadas no ramo.
"A parte mais triste de toda essa história é a vida desse homem", disse ele. "Ele vivia trancado no escuro com todas aquelas telas maravilhosas", disse Bernheimer. "Ele é um homem que vive nas sombras, um fantasma que nunca se revelou ao mundo".
O comportamento excessivamente tímido de Gurlitt, no entanto, disparou um alarme. O volume desse alarme aumentou ainda mais quando os investigadores descobriram posteriormente que o colecionador não existia, burocraticamente falando. Ele não estava inscrito no registro dos moradores de Munique nem em outros registros oficiais.
Vigiar o tesouro de arte de sua família era o único trabalho que Gurlitt conhecia. Periodicamente, ele mergulhava na coleção para selecionar alguma obra para vender, uma necessidade que, segundo a Der Spiegel, tornou-se mais premente nos últimos anos devido ao declínio de suas condições de saúde.
A última peça que ele reconhecidamente vendeu – "The Lion Tamer" ("O Domador de Leões"), do artista alemão Max Beckmann – levantou 864 mil euros (US$ 1,17 milhões), incluindo comissões, em um leilão realizado em Colônia, em 2011. Gurlitt concordou em dar 45% da receita da venda a uma família judia que era originalmente a proprietária da obra.
Emmarentia Bahlmann, uma especialista em obras de arte de Munique que trabalha para a Kunsthaus Lempertz, casa de leilões de Colônia que organizou a venda, disse Gurlitt "me telefonou do nada". Ansiosa para ver o que exatamente ele possuía, Bahlmann marcou um encontro no apartamento dele, que ela descreveu como "triste", mas razoavelmente arrumado.
Ela perguntou a Gurlitt delicadamente se ele possuía outras obras de arte. "Não, apenas essa", respondeu ele, de acordo com Bahlmann. "Ela pertencia a minha mãe".
Antes disso, no entanto, a obras tinha pertencido ao pai de Gurlitt, Hildebrand, uma das únicas quatro pessoas autorizadas pelos nazistas a comercializar os trabalhos da chamada arte degenerada durante a guerra.
De acordo com um relato prestado posteriormente por Hildebrand aos interrogadores norte-americanos, quando as forças aliadas avançaram e as linhas de defesa alemãs desmoronaram ele levou sua mulher, Helene, e os dois filhos, Cornelius e Benita, em um caminhão e um trailer cheio de caixas com obras de arte para o castelo de um conhecido, o Barão von Pöllnitz.
Logo depois, Hildebrand foi preso no castelo e questionado por membros da divisão de Monumentos, Belas Artes e Arquivos do exército dos Estados Unidos, o grupo de historiadores, curadores e soldados encarregados de salvaguardar o patrimônio cultural da Europa.
Em suas declarações aos investigadores, ele ressaltou seus sentimentos antinazistas e afirmou que nunca negociou obras de arte roubadas.
As obras em seu poder eram, em sua maioria, "propriedade privada minha ou de minha família", disse Hildebrand.
Os investigadores concluíram que Hildebrand não era um ator importante do ramo de comércio de arte e, posteriormente, devolveram a ele mais de 115 pinturas, além de desenhos e outros objetos de arte.
Em 1956, Hildebrand Gurlitt morreu em um acidente de carro em uma rodovia enquanto dirigia em alta velocidade entre Berlim e a casa da família, localizada em Düsseldorf. Mas os anos da guerra continuaram a fazer sombra sobre a família.
Na época da morte de seu pai, Cornelius tinha apenas 23 anos e já estava mergulhando profundamente em seu próprio mundo.
"Mesmo à época ele era considerado um sujeito excêntrico", relembra Karl-Heinz Hering, a quem Hildebrand Gurlitt havia contratado para trabalhar como seu assistente no Düsseldorf Kunstverein, o principal museu de arte da região. Hering disse que não tinha conhecimento de que a família possuía uma grande coleção particular de obras arte.
Posteriormente, em 1961, a viúva de Hildebrand se mudou para o mesmo apartamento onde Cornelius vive hoje, em Munique.
No final de 1966, uma agência governamental de Berlim, responsável pela restituição de bens saqueados durante a era nazista, enviou uma carta formal perguntando sobre quatro pinturas adquiridas por seu marido. Helene Gurlitt respondeu que todos os registros e obras de arte de seu marido tinham sido incinerados quando os aliados bombardearam Dresden, em fevereiro de 1945.
A busca no apartamento de Cornelius, realizada no ano passado, provou que a afirmação de sua mãe era mentirosa: os investigadores encontraram não apenas pinturas, mas também os livros de registro mantidos por seu pai.
Tradução: Cláudia Gonçalves
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