Mezzo público, mezzo privado
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - O Estado de S.Paulo
Ao escrever seus discursos eleitorais em 2014, os
candidatos devem pensar duas vezes antes de radicalizar suas propostas
sobre a relação do Estado com a economia. A opinião pública tem um pé em
cada canoa e pode não votar em quem der a entender que, se pudesse,
afundaria uma delas - seja qual for. Já falar contra a corrupção ainda
pega bem. Prometer emprego público também.
Indagados sobre o que prefeririam para si, se um cargo público, um
emprego fixo no setor privado ou abrir o próprio negócio, a maioria
apontou para a livre-iniciativa: 37% responderam que gostariam de
empreender, além dos 18% que disseram que o emprego privado era o ideal.
Só 32% optaram pelo serviço público.
Mas quando a pergunta é sobre o que gostariam mais para o seu filho, a
estabilidade econômica falou mais alto: 42% disseram que um emprego
fixo no setor público era o que mais desejavam para os descendentes. A
escolaridade dos pais não faz diferença.
Essas perguntas fazem parte do questionário do Latinobarômetro, a
mais tradicional pesquisa de opinião sobre política e economia na
América Latina. A parte no Brasil foi feita em junho, pelo Ibope. É
reveladora do pragmatismo do eleitor brasileiro. Os resultados estão
divulgados neste espaço em primeira mão.
Dois em cada três entrevistados concordaram - ao menos em parte - com
a afirmação de que a economia de mercado é o único sistema através do
qual "o Brasil pode chegar a ser um país desenvolvido". Apenas 18%
discordaram, e 15% não responderam. Uma coisa é a teoria, outra é a
prática, porém.
Quando indagados se as privatizações das empresas estatais foram
benéficas para o País, 42% dos brasileiros discordaram - mesmo que
parcialmente - da afirmação, contra 44% que concordaram totalmente ou em
parte. É uma bola divida em qualquer região. E o motivo parece ser a
insatisfação com os serviços privatizados.
Apenas 37% dos brasileiros se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos
com os serviços de água, luz e telefonia que passaram à gestão privada.
Outros 41% se dizem pouco satisfeitos, e 21% afirmam estar nada
satisfeitos. A insatisfação é maior nas grandes cidades, nas capitais e
suas periferias.
Quando o tema é corrupção, a percepção de que o Estado é menos
honesto do que a iniciativa privada não é universal. Para a maior parte,
44%, a corrupção é igual nos dois setores. Outros 9% chegam a dizer que
é maior na iniciativa privada. Só 36% dizem que ela é menor no setor
privado - e outros 3% afirmam que só há corrupção estatal. Não lhes
perguntaram quem são os corruptores.
A percepção da corrupção é muito maior do que a sua experiência: 5%
dos brasileiros afirmam que presenciaram um ato de corrupção, como o
pagamento de propina a um político ou funcionário público, nos últimos
12 meses. Outros 11% dizem que não viram nada do tipo, mas têm um amigo
ou parente que viu.
O surpreendente é que 80% não tenham presenciado um corrupto em ação e
tampouco conheçam alguém que tenha visto a corrupção com os próprios
olhos. É surpreendente porque 55% dos brasileiros acreditam que a
maioria (41%) ou praticamente todos (14%) os funcionários dos governos
municipais são corruptos. A proporção vai a 57% quando a pergunta se
refere ao governo federal.
É muito diferente da relação entre fato e percepção na segurança
pública: 39% dos entrevistados foram vítimas ou tiveram um parente
assaltado ou agredido no último ano. O medo vem por experiência própria
ou familiar: 85% se preocupam sempre ou quase sempre em ser vítimas de
um delito violento.
Em resumo, boa parte dos brasileiros não viu nem soube em primeira
mão de um ato de corrupção, mas acredita que ela é generalizada,
principalmente no setor público. Mesmo assim, gostaria de ver o filho
empregado pelo Estado. Vai entender.
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