Os limites do BNDES
CELSO MING - O Estado de S.Paulo
O BNDES fechará 2013 com recorde em desembolsos. Nada
menos que R$ 190 bilhões. Mas está sob ataque - como vem se queixando o
presidente Luciano Coutinho. "Querem que feche a torneira."
Para dar um viés ideológico, completa ele: "É ataque conservador",
algo que, na linguagem dos anos 60, seria vertido para "ataque dos
reacionários". Talvez fosse mais apropriado falar de ataque republicano,
que provém daqueles que se interessam pela saúde dos recursos públicos e
querem o BNDES sem piruetas.
Não apareceu ainda quem esteja defendendo o fim do BNDES. Ao
contrário, todas as correntes de pensamento do Brasil o saúdam como
importante agência de fomento. O que há é que, ao longo do governo do
PT, o BNDES produziu anomalias e distorções. Em boa parte do governo
Lula, foi considerado inoperante, fator que levou à troca de direção. No
governo Dilma, assumiu atribuições que deformam sua finalidade.
O BNDES está sendo usado como disfarce para imprimir moeda. Nada
menos que R$ 400 bilhões lhe foram transferidos em títulos pelo Tesouro
(cerca de 9% do PIB) para financiamentos de longo prazo. Além de
implicar emissão de moeda, trata-se de manobra para tirar o Congresso do
caminho. É um jeito destinado a arrumar recursos que escapem aos
patrulhadores do Orçamento da União.
Essa manobra, por sua vez, produz outras distorções. A primeira
acontece nas estatísticas da dívida pública. Os recursos injetados na
veia do BNDES pelo Tesouro são registrados como expansão da dívida
bruta. Como os financiamentos gerados se transformam em créditos, os
estatísticos do governo afirmam que não ocorreu nada de especial no
saldo da dívida líquida porque o débito registrado numa ponta da corda
se transforma, na outra, em crédito correspondente. Essa é uma das
razões pelas quais medir a saúde fiscal pela dívida líquida é um
equívoco.
Luciano Coutinho tem repetido que, não fosse o BNDES, não haveria
financiamentos de longo prazo no Brasil e o investimento estaria parado.
É uma verdade que oculta outra distorção. A afirmação de que o BNDES
apenas faz o que o mercado não faz oculta uma enganação. Outro jeito de
examinar o problema é ver a atuação do BNDES como uma espécie de agente
abortivo do mercado de capitais de longo prazo. Não há política que
consiga desenvolver esse segmento para investimentos no País porque o
BNDES distribui créditos subsidiados. Nem os outros bancos oficiais
conseguem competir nessas condições.
Várias vezes, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a
criação de um mercado de debêntures, títulos que forneceriam recursos de
longo prazo que poderiam ser canalizados para investimentos. Até agora
não saiu das intenções. Debêntures são aplicações de baixa procura, de
não mais de R$ 10 bilhões por ano no Brasil. Para comparar, a Petrobrás
precisa de US$ 236,7 bilhões para seus investimentos até 2017.
O fato é que até mesmo essas manobras criativas estão esgotadas. O
ministro Mantega, que não está entre os tais críticos conservadores, já
admite que o Tesouro não tem fôlego para continuar injetando todo esse
soro fisiológico no BNDES.
Há ainda um punhado de críticas republicanas a fazer. Uma delas é a
de que com critérios que são sempre mais políticos do que técnicos, o
BNDES elege os tais campeões nacionais do futuro e turbina-os com
financiamentos subsidiados, alguns dos quais somem depois durante
naufrágios, como ocorreu com a produtora de laticínios LBR, com o
frigorífico Marfrig que foi engolido pela JBS, com a supertele Oi que
vai sendo absorvida pela Portugal Telecom e com o grupo Eike Batista.
Enfim, a função, a origem dos recursos e a atuação do BNDES precisam ser reexaminadas, sem viés reacionário.
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